Maria Antónia Jardim*

Maria Antónia Jardim*

Ao sentir página a página a obra de Agustina Bessa Luís: A Ronda da noite – deparámo-nos com a simbólica dos “Cabelos”, pincelada a miúde pelas múltiplas personagens do livro.

“Os cabelos. De repente as mulheres puseram-se a usar franja e Nietzsche disse que era para esconder a testa e o que ela presume..”; “Aí está uma coisa que não se desfaz depressa. O cabelo”. Começa-se a cruzar identidade com eternidade, uma resistência post mortem; os cabelos passam a ter o estatuto de relíquia:

“Cabelos pretos. A primeira vez que Martinho verificou o indestrutível dos cabelos foi quando se abriu o túmulo de Patrícia Xavier para procederem a reparações de alvenaria. Os cabelos estavam intactos.”

Mas os cabelos também podem ser um arrepio de intervenção e constatação social: “O Outono tinha feito a sua aparição e, entre nuvens ligeiras, um sol derretia o gel dos cabelos. Quase todos, rapazes sobretudo, usavam um gel que lhes espetava o cabelo como pregos e isso dava-lhes um ar marginal como eles queriam”; Ou podem ser divertidos, com humor de avô: “O avô Nabasco, que Martinho conhecera desde os quatro anos e depois desapareceu, com o cabelo cortado à escovinha e o ar divertido que ele punha para falar com crianças!”

Mas o que salientam de verdade nesta obra de Agustina é o velado perfeccionismo, por exemplo encaracolado nesta frase “Maria Rosa mal se atrevia a sair de casa e o único luxo que não escondia era o do seu cabeleireiro”; ou noutras passagens em que a beleza apenas se descortina quando uma lâmpada ilumina os cabelos de Judite; ou a figura feminina é bonita porque aparece com os cabelos loiros desatados. Tanto assim é que se acontece uma perda de cabelo, a significância da pessoa/personagem deixa de existir: leia-se “tornara-se insignificante, perdera muito cabelo”; já com outras personagens o cabelo é de novo uma relíquia que se guarda em caixinhas, um mistério, um feitiço, uma recordação?  Cito: “O cabelo ia-lhe caindo e ela guardava-o numa caixinha de papelão”.

As personagens de Agustina fazem tricot com os seus cabelos e a tricotilomania entra no foro dos comportamentos compulsivos, podendo estar associada a depressão, ansiedade e a situações obssessivo-compulsivas. De forma geral, expressa a necessidade de um comportamento ritualizado, apaziguador, rítmico, de regressão. É uma perturbação comportamental que tem que ver com sentimentos de vergonha e embaraço, com o equilíbrio do sistema adrenalínico/endorfínico, ou seja, das hormonas reguladoras do stress, medo, ansiedade e bem estar. Um quadro que se aplica a uma das personagens principais de A Ronda da Noite: Maria Rosa “habituara-se a ver Maria Rosa meio demente e que, aos poucos, não sabia onde estava nem com quem falava. Tinha momentos lúcidos e irritava-se porque não a serviam rapidamente e davam preferência a outros, pessoas estranhas que ela nunca tinha visto”. Mais uma vez detectamos Agustina nítida e contra a luz numa contemporaneidade a anoitecer…

Noutros momentos percebemos aquilo que o doutor Assis pensava com os seus botões: “As mulheres querem enganar até ao fim”, porquê? É que Elisa não só cortara o cabelo como o pintara de vermelho que pretendia ser veneziano”; “o mundo foi sempre uma paródia pegada” sugere-nos Agustina com esse mundo pessoano e de Fellini em simultâneo em que o rosto é escondido por várias máscaras, em que “não há nada de normal na normalidade”, em que as personagens/personas estão “sempre a misturar coisas que não se misturam”; “Mas chocolate com café não se misturam. É como as palavras: algumas juntam-se, correm umas para as outras para se abraçarem”. Mais uma vez o perfeccionismo acentua-se na obra e refina nesta passagem: “Pensou que a avó não perdera nada com as más lições recebidas; ela soubera participar na perfeição física do mundo com os seus penteados “à pajem” e os sapatos vermelhos, sandálias, a bem dizer”. Judite é o nome da personagem que “ora se mostrava apaixonada por Martinho, ora lhe fechava a porta do quarto, não respondia quando ele lhe falava. Tinha prazer em contrariá-lo nas mínimas coisas, não lhe poupava os pequenos ridículos: os primeiros indícios de calvície… não havia gesto que ela não perscrutasse, falta que não comunicasse”.

No entanto e à semelhança de outras obras, mais uma vez se associa o perfeccionismo à extravagância, ao excêntrico, ao híbrido, afinal retratos comuns da própria vida humana.

Balzaciana, Agustina pinta máscaras grotescas com as suas garras felinas “Outra vez, como o penteado lhe pareceu escandaloso, com mechas verdes, ela rapou o cabelo completamente e durante um ano dizia a todos que fazia quimioterapia”, de tal modo que a verdade vem-se na mentira “A intriga crescia entre eles e já não era possível recuar  duma mentira cada vez mais tecida com a verdade”. O rosto confunde-se com a máscara e a peruca com cabelos naturais. Nós somos um mar de emoções e contradições cujas raízes estão encobertas e entrelaçadas mas lá no fundo todos queremos que pelo menos alguém, uma vez na vida nos enxugue os cabelos!

Terrivelmente simbólicos, nocturnos ou diurnos, os cabelos podem remeter para as divindades terríveis como para as feiticeiras mais doces. Mágicos, pertencem ao mundo da identificação/apropriação. Ora são raios de sol, ora são raios de lua. Relíquias guardadas num medalhão ou uma das almas que não pode ser cortada?

Em Agustina remetem, sem dúvida, para a liberdade ou para falta dela; para o desejo e angústia de passar o sinal proibido e resistir a um sentimento de culpa de uma pesada herança judaico-cristã. Assim Agustina aparece-nos tricotada com fios de ouro e prata, isto é, com a ousadia da juventude e o medo da velhice; em abertos e tapados, aberturas ao regime solar, consciente e no entanto acasalando com os tapados do regime nocturno, lunar e onírico dos eternos românticos …

Agustina retrata-se como um Ser de Luz e Sombra em vez de carne e osso, isto porque lhe interessa mais vincar a ideia de que a única maneira de possuir algo é despossuir-se.

Entre Platão e T.S. Eliot, a escritora afigura-se-nos como um ambiente, um fundo numa tela, uma ideia que paira em tons exacerbados de um odor “vintage”; a sabedoria de uma anciã, de uma sibila…

 

*Escritora e especialista em Psicologia da Arte