“Depois de escrever sobre figuras ilustres de Macau, há muito era meu desejo debruçar-me sobre uma figura singular, idêntica a milhares de tantas outras que ficam incógnitas nos anais da História, por força do destino.”
O salão polivalente da Casa de Macau de Portugal acolheu, na tarde de 30 de Outubro, o lançamento da obra mais recente da escritora Maria Helena do Carmo, intitulada “A Menina da Casa Grande”, que o Instituto Internacional de Macau (IIM) publicou em Julho. O tempo outonal chuvoso não impediu a afluência de associados, familiares da protagonista da narrativa, amigos e público interessado, proporcionando um ambiente acolhedor, que propiciou um agradável convívio em torno do livro, da muita sugestiva e exaltante história contada e de memórias de Macau
Usaram da palavra na sessão a vice-presidente da Casa de Macau, Maria João dos Santos Ferreira, o administrador da Fundação Casa de Macau, Joaquim Ng Pereira, a apresentadora da obra, Ana Rute Santos, a autora, que a Fundação Casa de Macau aproveitou para homenagear, pela sua extensa e qualificada obra publicada relacionada com Macau, e eu próprio, como presidente do IIM e do Conselho de Curadores desta Fundação. Presentes no auditório estiveram a presidente da Fundação Jorge Álvares, Maria Celeste Hagatong, o presidente do Conselho Regional do Conselho das Comunidades Portuguesas, Rui Marcelo, e muitas personalidades que prestaram serviço em Macau ou que, de algum modo, ficaram para sempre ligadas ao território. Ana Rute Santos e Joaquim Ng Pereira são filhos de Lúcia Ng Iun Peng, cujo percurso de vida é relatado ao longo das mais de trezentas páginas do livro.
Enquadramento e conteúdo da obra
Escutada com muito interesse, atenção e apreço por todos, coube à autora partilhar o enquadramento, a razão de ser e o conteúdo deste seu mais recente livro. Depois dos agradecimentos ao IIM e às entidades e pessoas que ajudaram a organizar a sessão, expressou o seu “grato reconhecimento aos filhos da protagonista, que, através de gravações, filmes e narrações de factos passados, lhe deram a conhecer a personagem, pelo contacto visual e auditivo, criando uma empatia com a senhora como se a conhecesse em tempo real, permitindo-lhe escrever sobre a sua vida sem receio de fantasiar.” São dela estas elucidativas palavras:
“Depois de escrever sobre figuras ilustres de Macau, que ao longo de quatro séculos e meio deram vida à cidade do Santo Nome de Deus, há muito era meu desejo debruçar-me sobre uma figura singular, idêntica a milhares de tantas outras que ficam incógnitas nos anais da História, por força do destino.
Quando comecei a frequentar o curso de Patuá, o Dr. Joaquim Pereira referiu alguns aspetos da vida da mãe, que agonizava nos últimos meses de existência. Isso despertou-me a curiosidade para investigar o seu percurso de vida. Após a morte de Dona Lúcia Ng Iun Peng, o filho pediu-me ajuda para escrever a sua história, que aceitei, fazendo a contraproposta de escrevermos os dois em conjunto. A ideia da biografia ficou assente.
Os filhos Joaquim Pereira, Ana Rute, e mais tarde Vitor Alves, enviaram-me documentos, fotografias, gravações de histórias contadas pela mãe, feitas em épocas diferenciadas, para me integrar do ambiente cultural da sua infância e juventude passada em Cantão, época que fui romanceando com prazer.
Os muitos afazeres do Dr. Joaquim Pereira, ainda sem estar aposentado e sendo cabeça de casal no rol testamentário entre os filhos, foi deixando nas minhas mãos a narração das extraordinárias vivências da senhora Peng, tão ricas e diversas, que me levaram a dividir a obra em três partes. A primeira dedicada à China em tempo de guerra do Pacífico, ambiente vivido pela família dos seus ascendentes até ao refúgio em Macau. A segunda passa-se em Portugal, enfrentando todas as adversidades de clima, vicissitudes de uma cultura muito diferente da sua, vendo-se ostracizada pela família do marido por ser chinesa e ter dificuldade na comunicação em português. Finalmente, a terceira parte, de âmbito religioso, sobre o seu regresso a Macau e a Cantão como missionária. No início da elaboração da obra, estipulámos que a terceira parte ficaria a cargo de Joaquim Pereira. Ainda chegou a debruçar-se sobre o assunto, mas havia diferença de estilos na abordagem das temáticas, que não se ajustava com as anteriores, e decidimos de comum acordo, para evitar repetições, que fosse eu a finalizar o que havia começado.
Com a aprovação de todos os filhos sobre o conteúdo do livro, segui em frente, dando realce a aspetos mais significativos, deixando de lado certos episódios menos relevantes, mas que contribuíram para tornar Dona Lúcia Peng uma lutadora pelos filhos, uma mulher sobrevivente a muitas agruras, que dedicou os últimos anos de vida ativa a lutar pelo bem da humanidade.
Esta senhora chinesa, menina rica refugiada em Macau pela implantação da República Popular da China, tornou-se nhonha ao casar com um português. Dele criou dez filhos, dois nascidos em Macau. Foi um exemplo de vida, como muitos outros desconhecidos que formaram a população macaense desde a fundação da cidade, que cresceu com descendentes de vários grupos étnicos, constituindo os portugueses parte importante da sua demografia e cultura social.
Peng casou por amor. Época bem longe do interesse dos portugueses pelo dote de uma filha da terra para entrarem no trato do comércio. Por esse amor abdicou várias vezes da sua independência económica e prestígio social.
Um livro em chinês, foi quanto bastou para lhe dar outro rumo de vida, sem perder o sentido humanitário impregnado no Confucionismo, religião que adotou na juventude e a induziu a praticar o bem, atendendo aos mais necessitados, enquanto teve meios económicos e condições físicas para o fazer.
Foi com grande prazer que deslindei o fio à meada da vida da senhora Peng, das mais complicadas na condição de mulher pela sua fecundidade, que fez dela uma pessoa genial e um exemplo de vida.”
Homenagem à autora
A sessão terminou com uma oportuna homenagem à autora, a quem foi conferido um certificado de reconhecimento pela qualidade e diversidade da sua obra literária, que inclui oito livros dedicados a Macau: “Os Interesses dos Portugueses no Macau do Séc. XVIII”, o romance biográfico “Nhonha Catarina de Noronha”, “Os Mercadores do Ópio”, “Bambu Quebrado”, “Histórias de Amor em Macau”, “Pássaros de Ferro”, “Macau no Tempo Áureo do Comércio” e “A Menina da Casa Grande”.
Natural do Funchal, Maria Helena do Carmo cresceu em Goa e viveu também em Moçambique, Angola e Macau, residindo agora no Algarve. Foi locutora na Emissora Oficial de Goa, na Rádio Eclésia e na Voz de Luanda e coordenou programas na Emissora Oficial de Angola. Casada com Feliciano Flor, muito competente assessor jurídico do meu gabinete quando desempenhei funções governativas em Macau, concluiu o bacharelato em História na Universidade de Luanda, a licenciatura em História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e o mestrado em Língua e Cultura Portuguesa – variante de História na Universidade de Macau.
Foi professora em África, Lisboa, Macau e em Lagoa (Algarve). Depois de aposentada, dedicou-se à escrita de romances históricos. Além dos livros atrás mencionados, escreveu “A Ilha do Ouro”, “Destinada à Clausura”, “Imagens de uma Vida”, “No Coração do Algarve”, “A Jornada de Mestre Gamboa” e “Lagoa de Vila a Cidade”, sendo também de referir uma outra obra autobiográfica, edição da autora, dedicada à família e a amigos mais chegados, de que guardo um exemplar gentilmente oferecido pelo casal. É uma história de amor que merece ser reeditada e amplamente divulgada. Incansável no seu labor e criatividade, Maria Helena do Carmo tem outros trabalhos, incluídos em obras colectivas, apresentados em conferências ou ainda em fase adiantada de preparação.
* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.



