Cheong Kin Man*
Cheong Kin Man*

Na semana passada, abordámos muito brevemente a memória judaica na Europa Central “Ao pensar nos 500 árvores do “KL Plaszow”. Quando o artigo foi publicado, já as mencionadas 500 árvores tinham sido cortadas para dar lugar ao Museu-Memorial do Campo de Concentração de Płaszów na cidade polaca Cracóvia.

Trata-se de um acto de “contre l’oubli”. Contra o olvido, para não esquecer.

Estamos em Novembro, quando bebo o meu primeiro Glühwein (vinho quente) este ano e falo de novo sobre a etimologia -o meu tema preferido- com uma amiga teochew-vietnamita-bávara e o seu companheiro bávaro: “Denk mal, Denkmal” (Pensa, monumento).

Estamos em Novembro. Por toda a cidade de Berlim, ao lado das “Stolpersteine” -“pedras do tropeço” com nomes das judias e dos judeus assassinados-, as rosas são postas, as velas acesas. Os meios de comunicação alemães continuam a falar do anti-semitismo e o respectivo Angst (medo) das judias e dos judeus, ao mesmo tempo que vi três crianças a percorrer livremente o antigo Berlim-Leste com trajes tradicionais judaicos.

Estamos em Novembro. 83 anos depois da “Noite dos Cristais”, quando um pogrom irrompeu na Alemanha e na Áustria ordenado pelo regime nacional-socialista. E eu, sento-me confortavelmente em casa a ver televisão. Vi com atenção três vezes uma reportagem televisiva da ARTE franco-alemã, realizada pelo documentarista alemão Jan Tenhaven, sobre o anti-semitismo na Polónia.

Vi primeiro em alemão, e em francês, e depois de novo em alemão com legendagem em inglês. Na introdução da reportagem, a versão original alemã não poupa palavras duras: em vez do termo “anti-semitismo”, a narradora diz “ódio aos judeus”.

É importante compreender que, um meio audiovisual, tal como um artigo, proporciona um conteúdo muito concentrado num tema específico para um tempo muito limitado de consumo. Além disso, um trabalho de conhecimento só está, para mim, completo, quando este é digerido pela pessoa que o consome.

 

Plantar uma árvore

Vivo todos estes pequenos pormenores da minha vida normal(izada), enquanto um observador do sexo masculino e com aparência “asiática”. Ademais, é para mim um privilégio acompanhar de perto a minha colega de trabalho, a artista polaca igualmente residente em Berlim, Marta Stanisława Sala e seguir atentamente, embora não directamente envolvido, a sua colaboração artística com a sua irmã e estudiosa Katarzyna Sala e o artista e autor americano de origem polaca-judaica, Robert Yerachmiel Sniderman, no acto de plantação de uma árvore.

Na semana passada, mencionámos que um salgueiro-chorão seria plantado no mesmo lugar onde um outro salgueiro-chorão foi erguido nos anos 70 quando a Grande Sinagoga de Chrzanovia (Chrzanów) foi demolida. Esta antiga árvore foi cortada em 2018.

Chrzanovia fica apenas a 20km de Auschwitz, e antes da Segunda Grande Guerra, metade da população daquela cidade era judaica.

Gostaria de adicionar que a poetisa judia germanófona Mascha Kaléko (1907-1975) nasceu em Chrzanovia, então parte da Áustria-Hungria, pouco antes da Primeira Guerra Mundial. De 1914 a 1938, a poetisa viveu em Berlim. A sua poesia foi censurada pelos nacional-socialistas. Hoje, o seu nome é visível em cada livraria ou alfarrabista berlinense.

Mas fora da Alemanha, Kaléko não parece muito conhecida. Poucas investigações em chinês e português têm sido feitas sobre a sua obra e, entre as línguas românicas, julgo que apenas existe uma antologia publicada em espanhol. Inmaculada Moreno assim traduziu os versos de Kaléko:

“Tengo nostalgia algunas veces

y yo no sé de qué…”

Aqui, “nostalgia” (“Heimweh” no original) poderia ser traduzido em português como “saudades de casa”. Isto pode, provavelmente, explicar como é complexa a história da Europa Central na primeira metade do XX século: Kaléko não sabia, ou não sabia como saber, quais saudades de qual casa ela tinha.

Marta Sala também compara a poesia de Kaléko no seu original com as traduções polacas para obter uma outra visão sobre este assunto. Os versos de Kaléko dizem ao mesmo tempo, demasiado pouco mas também muito sobre a questão histórica, cultural, política e artística da memória judaica na Europa.

Em companhia da poesia, as irmãs Sala, eslavas, e Sniderman, judaico, plantarão, no próximo ano, uma árvore como um monumento vivo, para “pensar” na história e no futuro.

 

*Natural de Macau onde foi intérprete-tradutor até 2013 vivendo desde então na maior parte do tempo na Europa (Alemanha e Bélgica). Autor do filme experimental “uma ficção inútil” com sucesso internacional. Actual doutorando em antropologia visual e média em Berlim.