António Aresta *
Monsenhor Manuel Teixeira [15.04.1912 – 15.09.2003], emérito historiador de Macau, publicou mais de uma centena de livros e escreveu caudalosamente na imprensa portuguesa de Macau. Assinou artigos sobre todas as parcelas da história de Macau, sobre a história da China, sobre a história dos portugueses no extremo oriente, sobre a biografia de grandes personagens. Mas, o género sobre o qual recaía a sua preferência era a história breve com uma explícita lição de moral. Vejamos este exemplo:
Só Romances
A senhora Anne Marx, descendente de Karl Marx, disse-me que me queria oferecer um livro como lembrança do seu marido, que falecera recentemente.
Mostrou-me um armário de livros e disse-me que escolhesse. Eu desejava um livro sobre a história da Alemanha, onde eu vivia. Percorremos eu e ela os livros um por um: só apareciam romances. Depois de muito rebuscar, conseguimos descobrir o único livro que não era romance – Verbronnte Erde, de Paul Carrel, sobre os combates alemães entre o Volga e o Weichsel, na Rússia.
E eu pus-me a pensar: só romances, porquê?
É que o homem procura fugir da realidade para a irrealidade. A vida é árdua e cheia de mil cuidados. Procura-se então um mundo ideal e irreal, um mundo todo recheado do aperitivo masculino-feminino, onde a imaginação se refastele.
Outrora era só no vinho que se afogavam as mágoas. Vino pellite curas, recomendava Horácio: Espantai os cuidados com vinho. Hoje, temos mais: os romances, as drogas, que sei eu? Os resultados, porém, são funestos.
Este texto de moral reflexiva, sobre a arte de viver, foi publicado no Jornal “O Clarim”, de 31 de Janeiro de 1974 [o director era o padre Américo Casado e o administrador o padre Eduardo Tavares], na coluna fixa intitulada “Pequenas Doses”. Recorde-se que o Jornal “O Clarim”, órgão da Diocese de Macau, formalmente propriedade de Juventude Católica de Macau, desde Maio de 1949, era uma publicação conservadora, militantemente anti-comunista e com grandes preocupações culturais. “O Clarim”, ainda em publicação, é um jornal incontornável para o conhecimento da história contemporânea de Macau.
Mas, quinze anos após o falecimento de Monsenhor Manuel Teixeira, que ocorreu a 15 de Setembro de 2003, parece-me curial apresentar estas três inquietações em forma interrogativa.
A primeira: onde está guardado e quem cuida do espólio documental de Monsenhor Manuel Teixeira?
A segunda: porque motivo é que ainda não foi criada uma bolsa de investigação específica para se fixar a sua bibliografia, sobretudo o rastreio da sua colaboração na imprensa de matriz portuguesa de Macau?
A terceira: não haverá necessidade de se fazer a reedição de algumas das suas obras, mesmo em suporte digital?
Monsenhor Manuel Teixeira foi uma figura verdadeiramente icónica no seio da comunidade portuguesa de Macau. Viveu 75 anos no extremo oriente, 60 anos em Macau e 15 anos em Singapura. Lembrá-lo também significa preservar o seu legado, estudar o seu pensamento e dá-lo a ler aos contemporâneos. Que não o esqueceram. Por exemplo, José Teixeira publicou “Manuel Teixeira, de Menino a Monsenhor”, editado pelo Instituto Internacional de Macau, há poucos anos; também António Graça de Abreu lhe dedicou o poema “Com Monsenhor Manuel Teixeira em Freixo de Espada à Cinta”, inserido no seu novo livro “Lai Yong, Bernardo e Outros Poemas”, editado pela Lua de Marfim, em Julho de 2018. É bom, mas precisamos, claramente, de bastante mais.
*Docente. Investigador da história do Oriente



