Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

“Às dez horas do dia – havendo uma que o caso acontecera – andavam as mulheres apregoando peixe pelas ruas, frutas e mais coisas de venda, e nas praças e ribeiras, as padeiras e as tendeiras com aquela paz e repouso que poderá haver se o negócio fosse coisa pouco mais ou menos…” Conta um cronista da época que tomara parte no assalto ao Terreiro do Paço. Era assim Lisboa, pequena cidade de convivência e costumes simples, não obstante ser a capital de um grande país cujas fronteiras iam do Brasil até à Índia.

“Havendo uma hora que o caso acontecera…” o caso, esse caso fora que às nove da manha desse dia 1o de Dezembro de 1640, um grupo de quarenta fidalgos embuçados e armados de espadas e punhais, saiu vagarosamente do pavilhão onde costumava reunir nas traseiras do palácio que era residência dos Condes de Almada em Lisboa – o actual Palácio da Independência – a caminho do Terreiro do Paço, do Paço da Ribeira onde a Duquesa de Mântua e seus ministros moravam para – disse um dos quarenta a um amigo que perguntara onde iam – “vamos ali abaixo tirar um Rei e por outro”. E como tiraram depois de Miguel de Vasconcelos ter sido espetado à faca e o outro traidor, Cristóvão de Moura lançado pela janela.

Quinze dias depois o então Duque de Bragança foi coroado Rei pelo Bispo de Lisboa (o novo, já que o anterior, bandeado com os espanhóis, tinha sido lançado do alto duma das Torres da Sé de Lisboa) e começou a reinar com nome de D. João IV. Foi nessa cerimónia impressionante que o Rei tirou a sua coroa da cabeça e a colocou numa almofada posta a seu lado diante da imagem de Nossa Senhora que se venerava e ainda venera na capela de seu Paço de Vila Viçosa e assim foi tornada Rainha de Portugal.

Quando alguns historiadores da Espanha de oitocentos afirmavam – e escreviam – que o sucesso da revolução fora um mero acaso devido à distracção dos guardas do Palácio, há que recordar-lhes que “a distracção” durou 27 anos, tantos quantos a Guerra da Independência que se lhe seguiu e só acabou quando o comandante das nossas tropas, o Marquês de Minas, se sentou em Madrid no trono do Rei de Espanha.

Isto aprendia-se nas aulas e nos livros de História da 4ª classe do 5º ano do Liceu quando se estudava História em Portugal. Depois… a História foi estuprada, espezinhada e cuspida pelos PRECs que andavam pelo país a “doutrinar” a população à custa da “pesada herança” e a História passou a ser fascista, como fascistas começaram a ser os adeptos do Estado Novo, os nossos navegadores e soldados das Campanhas de África e os Lusíadas foram queimados em fogueiras acesas nos pátios dos liceus. Como violados foram logo a seguir os programas das cadeiras de História das escolas, liceus e faculdades até que a partir dessa altura já ninguém estudava História a sério: era preciso o tempo para as crianças estudarem Saramago, Redol, Aquilino Ribeiro e outros escritores saídos do ventre dessa outra revolução.

Depois de eu ter chegado do Brasil, Vera Lagoa intemerata como sempre, convidou-me para descer de braço dado com ela a Avenida da Liberdade em Lisboa com ela na Marcha pela Liberdade que ela organizava todos os anos no dia 1º de Dezembro, em plena era do ditador Gonçalves (cuja família entretanto se abrigara em Lausanne como a de alguns banqueiros e latifundiários). Enchíamos a Avenida do Saldanha até os Restauradores sob o olhar da Policia de Intervenção mas ninguém nos tocou.

No final, um amigo de um de meus filhos já estudante universitário, perguntou-me porque é que aquela Marcha era sempre no dia 1o de Dezembro. Respondi com surpresa – “precisamente por ser dia 1º de Dezembro”…

O mal estava feito. Não sabia como hoje continua a não saber pois nas aulas e nos livros não se falava nisso. E os professores de História também não sabiam pois tinham aprendido pela mesma cartinha.

 

*Ex-presidente do Instituto Politécnico.