Classificando o balanço da visita de Xi Jinping a Portugal como muito positivo, Sales Marques frisou à TRIBUNA DE MACAU que os acordos assinados têm substância e elevarão as relações. Já para Carlos Frota, a China encontrou um “ouvido muito atento e receptivo a todo o esforço que faz para defender o multilateralismo” e um intérprete para a Europa, enquanto Portugal tem a possibilidade de modernizar a economia e aproveitar uma grande oportunidade. Por sua vez, Francisco Leandro considera ser impossível virar as costas à iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”

 

Liane Ferreira

 

A viagem de Xi Jinping a Portugal, que ficou marcada pela assinatura de 17 acordos e um memorando de entendimento sobre a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, merece um balanço francamente positivo de especialistas ouvidos pela TRIBUNA DE MACAU.

“A visita tem um balanço muito positivo, não só pelo ambiente de amizade e de cooperação, mas também porque teve efeitos práticos, traduzidos nos acordos assinados. Esses acordos, pelo menos a maior parte, não são meramente simpáticos, têm substância”, começou por dizer José Luís Sales Marques.

Notando que as duas partes têm salientado que as relações serão elevadas a patamar superior, o economista considera que passaram a ter “um conteúdo mais enriquecido”. “Os acordos e memorandos correspondem na sua maioria às expectativas, especialmente a participação de Portugal na iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’, em que se dá destaque à conectividade e mobilidade eléctrica. Em termos de conectividade pode estar envolvido o Porto de Sines e de mobilidade pode ser com uma cooperação sino-portuguesa no âmbito dos carros eléctricos, algo que a China tem avançado muito e que Portugal tem sectores e empresas desenvolvidos, como a EFACEC”, frisou, salientando ainda os acordos sobre investigação científica e a “parceria azul”.

“Há ainda a criação de um centro de serviços em Matosinhos que vai criar postos de trabalho. Este é um dos aspectos que Portugal procurava, que o investimento fosse além da aquisição de empresas e permitisse a criação de emprego. O resultado é muito positivo”, concluiu.

 

Oportunidade para agarrar

No mesmo sentido, Carlos Frota salientou que “o balanço é tão positivo que o Presidente chinês reiterou o convite para Marcelo Rebelo de Sousa visitar a China e assistir a um congresso e seminário sobre ‘Uma Faixa, Uma Rota’”. “Claramente, a China considera Portugal um parceiro à sua medida e o Presidente português mostrou que quer estar próximo nesse esforço, pensando no interesse português”, vincou.

Em termos da iniciativa, Portugal assume um lugar importante no quadro europeu, que Marcelo Rebelo de Sousa até diz querer que seja um “papel central”, apontou o ex-embaixador. “A China vem dar a Portugal a possibilidade de investimento em sectores fundamentais da economia, nas infraestruturas, portos e eventualmente ferrovias. Portugal encontra na China alguém que diz: temos objectivos próprios, mas damos a possibilidade de modernizar partes fundamentais da vossa economia. E aí, naturalmente, Portugal, que não tem nem nunca teve projectos alternativos, europeus ou americanos, decide aproveitar, porque temos aqui uma oportunidade que talvez não se repita”.

Carlos Frota explicou que Portugal é importante no contexto de “Uma Faixa, Uma Rota”, porque a China “valoriza a posição estratégica do ponto de vista geográfico para uma futura presença mais consistente na área euro-atlântica”. “Daí a importância do Porto de Sines como parte dessa estratégia”, destacou.

“Depois, Portugal é estado membro da União Europeia, o que significa que dentro da estrutura europeia a China pode ter uma voz amiga, num momento em que alguns países europeus estão reticentes quanto a abrir sectores sensíveis à sua presença económica”, disse o antigo diplomata, notando que a Europa é um espaço geopolítico próprio “que não quererá comprometer, como é natural, os seus objectivos estratégicos”.

Aos olhos de Carlos Frota, “a China quer que Portugal seja o seu intérprete da China e dos objectivos chineses relativamente à Europa, porque Portugal conhece o país há muitos anos e tem esta relação devido a Macau”. Além disso, deseja que Lisboa possa de “algum modo transmitir as boas intenções como parceiro económico estratégico da Europa”.

Portugal pode ainda ser uma mais valia na Lusofonia nos projectos de cooperação trilateral. “O esquema tripartido China, Portugal e um dos países de língua portuguesa ainda não está explorado. Assim, a China dá o investimento, Portugal o ‘expertise’ e os destinatários podem absorver o melhor dessas partes”, indicou.

 

Macau e o dinamismo em falta

“Por outro lado, a China já é, em muitos domínios, uma potência científica e tecnológica. Quando Portugal se associa, através do laboratório de satélite, isso significa que está a utilizar o pioneirismo chinês para incorporar valor acrescentado português, através dos cientistas e capacidades de investigação para integrar um projecto maior”, considerou Carlos Frota.

Para o ex-diplomata, incentivar o aspecto cultural é importante pois ajuda a diminuir os preconceitos, numa altura em que ainda há poucos portugueses que conhecem a China. “O conhecimento da cultura chinesa em Portugal pode ser uma porta aberta para uma melhor integração dos chineses nos país e por outro lado, admitindo que estudantes portugueses passam a frequentar universidades chinesas, vai-se criar um capital importantíssimo, que assegura a cooperação e sustenta o esforço científico e tecnológico em Portugal”, declarou.

Carlos Frota considerou o discurso de Xi Jinping bem elaborado “com um pragmatismo realista, tentando potenciar todas as convergências, passando pelo papel de Macau”. “O discurso [sobre Macau] é um bocado recorrente e significa levar a estrutura do Fórum Macau a uma velocidade superior, em termos de ambição de projectos, de entrosamento dos países. Estas coisas têm de ser traduzidas em actos. Os dois lados têm de ter em atenção que muitas vezes o discurso fica atrasado. É preciso imprimir-lhe um dinamismo próprio”, afirmou, indicando que Xi quer que Macau seja uma aposta mais activa do que aquilo que foi até agora.

Por outro lado, Marcelo Rebelo de Sousa “foi muito habilidoso” no modo como inseriu os direitos humanos, “um aspecto delicado” e que deve ser discutido de forma “serena”.

“A China encontrou em Portugal um ouvido muito atento e receptivo a todo o esforço que faz para defender o multilateralismo, o livre comércio e as relações internacionais que estão sob ataque da administração de Trump”, disse, notando que quando os dois presidentes reiteraram esses princípios deram um recado para o outro lado do oceano.

 

Uma iniciativa incontornável

Já o académico Francisco Leandro vê a visita como um “momento de continuidade” nas relações. “Tem sido uma política de pequenos passos, à medida que as coisas correm ao gosto de ambas as partes, continua-se a avançar. O investimento chinês é completamente diferente, porque tem dimensões diferentes, mas a política tem vindo a ser alargada. Temos a questão do Porto de Sines, o alargamento da plataforma continental vai trazer mais pontos de interesse à cooperação Portugal-China”, afirmou, destacando que à medida que o programa espacial chinês vai avançando, mais aspectos de cooperação podem ser adicionados com vista à Base das Lajes. Mas, áreas como o turismo, serviços e energia podem sempre ser aprofundados, dependendo da execução.

Para o académico, o governo português tem de se movimentar no quadro europeu, “mas sem esquecer que não há alternativa” e além disso “é quase impossível de virar as costas a uma iniciativa com esta abrangência, âmbito e objectivos tão prolongados no tempo”.