Depois de ter sido processado pela Polícia Judiciária, Au Kam San acusou o Secretário para a Segurança de estar “a matar as vozes” no que se refere à proposta de lei sobre as escutas telefónicas. A crítica não foi bem recebida por Wong Sio Chak, que alertou o deputado para a necessidade de assumir responsabilidades pelo que diz, embora goze de imunidade parlamentar

 

Inês Almeida

 

Um mês após a Polícia Judiciária (PJ) ter formalizado a acusação contra Au Kam San, que criticou as autoridades por terem alegadamente feito escutas ilegais no caso de um residente que tentou imolar-se pelo fogo, acentuaram-se ainda mais as tensões entre o deputado e o Secretário para a Segurança.

Referindo-se ao Regime Jurídico da Intercepção e Protecção de Comunicações, Au Kam San começou por insistir que “há quem questione se existem escutas ilegais, não autorizadas por um juiz”. “Também fui acusado de escuta ilegal e há duas opiniões sobre as escutas: uma de pessoas que estão absolutamente contra e outra que dá razão ao Governo. O Secretário acusou-me, parece que está a matar as vozes e isto é reconhecido pela população”, criticou o deputado.

Não foi imediata, no entanto, chegou a reprimenda de Wong Sio Chak. “Quando um deputado afirma algo, tem de assumir responsabilidade pelo que disse. Claro que hoje não tem porque está no Hemiciclo mas todos devemos assumir responsabilidade pelos nossos comportamentos. Não sei porque chegou a esse ponto nas suas afirmações”, referiu o Secretário, cujos reparos foram ainda mais além.

“Quando disse que pode falar como quiser e não tem medo, se calhar, quer ser alvo de uma acusação e ser conhecido. Mas porque é que um deputado tem de chegar a esse ponto? Não fico satisfeito ao ver esta situação acontecer”, lamentou.

A queixa formalizada pela PJ levou Wong Sio Chak a não querer “insistir nessa questão”, apontando apenas que o Ministério Público irá tomar uma decisão “acertada, imparcial e justa”.

O Secretário esclareceu ainda que quando as autoridades recebem qualquer denúncia de fogo posto e de que alguém quer imolar-se pelo fogo é preciso ter cuidado. “Os nossos colegas também estão preocupados e têm de trazer extintores para qualquer eventualidade”. “Recebemos essa queixa e somos tratados como alguém que escuta chamadas telefónicas, acho que não é um procedimento correcto”.

De qualquer modo, Wong Sio Chak considera-se “amigo” de Au Kam San. “Aperto a mão ao deputado, somos amigos, mas como levantou a questão não posso deixar de responder. Tem de reflectir porque é que aconteceu isto e chegámos a esta situação. Continuamos a ser amigos, falamos do coração”, disse.