A maioria dos eleitores portugueses foi às urnas, mas de acordo com os resultados a margem de abstenção atingiu os 45,5%. É ainda incerto quantos dos mais de 65.000 inscritos nos cadernos eleitorais de Macau e Hong Kong votaram, sabendo-se apenas que no território exerceram o direito de voto 44 dos 67 registados para o fazerem presencialmente
Salomé Fernandes
As eleições legislativas de domingo trouxeram mudanças, mas de acordo com os resultados provisórios gerais das eleições apresentados pelo Ministério da Administração Interna, houve apenas 54,5% de votantes. Um fenómeno que mereceu a atenção de diferentes líderes partidários nos seus discursos. “Será necessário um esforço conjunto de todos os actores (cidadãos eleitores, partidos políticos e administração do Estado), de modo a promover um maior envolvimento cívico das populações, a começar por acções de educação cívica nas escolas sensibilizando as pessoas para a importância de participar mais activamente na vida política do nosso país”, comentou o Cônsul-Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Paulo Cunha Alves, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.
Conhecem-se os resultados de 3.092 freguesias, mas resta saber quem vai ocupar os quatro lugares destinados aos círculos da Europa e Fora da Europa, dado que falta ainda apurar os resultados de 32 consulados. Em Macau, de 67 eleitores inscritos para votarem presencialmente, 44 exerceram esse direito. No entanto, dado que a mesa de voto tinha inscritos menos de 100 eleitores, a contagem dos votos será feita em Lisboa, explicou o Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong a este jornal. Os resultados dos círculos da emigração devem ser tornados públicos até ao décimo dia após o voto.
“O número total de eleitores inscritos nos cadernos eleitorais de Macau e Hong Kong era superior a 65.000”, mas “a grande maioria terá votado por correspondência”, adiantou à Lusa o Cônsul-Geral, Paulo Cunha Alves. “No que diz respeito ao voto presencial tudo decorreu dentro da normalidade. No que respeita ao voto por correspondência, temos conhecimento que alguns cidadãos não receberam o envelope com o boletim de voto, possivelmente devido ao facto de terem mudado de residência e não terem informado o Consulado-Geral nem a autoridade eleitoral”, explicou.
Questionada sobre a abstenção apontada pelos resultados gerais, a presidente da Casa de Portugal em Macau considera que é preciso perceber o que acontece com as votações da emigração. “O número de votantes é muito alto, há quatro deputados a eleger por esses círculos e temos de ver o que sai daí”, comentou Amélia António, destacando que se pode verificar o mesmo tipo de expressão e distribuição, mas que a emigração pode também “ter uma votação um bocadinho diferente da do país”. “Sabemos o número de pessoas com capacidade para votar, mas neste momento não sabemos exactamente o número de votantes, ou quem votou na emigração”, acrescentou.
Quanto ao facto de nem todos os eleitores inscritos para votarem presencialmente em Macau o terem feito, a presidente da Casa de Portugal admite que “pode não ser uma abstenção de não quererem votar, mas de não estarem cá para votar”, dado que a votação calhou numa altura de feriados.
Amélia António explicou ter votado por correspondência, mas reconhece que preferia tê-lo feito pessoalmente, algo que não aconteceu por falta de oportunidade de realizar a inscrição para isso no Consulado dentro do prazo previsto. E admite que possa haver outras pessoas a preferir voto presencial, “na medida em que não sabemos se funciona bem esta história do voto pelo correio ou não”, apontando haver histórias de que o correio atrasa.
“Cansaço” motiva mudança
O Chega, a Iniciativa Liberal e o Livre elegeram um deputado, todos pelo círculo de Lisboa. “Se foi tudo por Lisboa é normal, porque sendo um centro urbano e com uma vida diferente, mais activa, etc, é natural que seja mais fácil novas forças conquistarem algum lugar”, notou Amélia António. No seu entender, nesses centros há também maior distância entre quem eleitores e eleitos, pessoas com maior informação e que “de certa maneira concretizam mais as suas críticas e isso eventualmente leva a que experimentem outras opções”.
“Penso que talvez tenha a ver um pouco com uma renovação que as pessoas não têm sentido acontecer nos partidos em que normalmente votam”, observou, rejeitando ser um factor de desestabilização. Para a representante da Casa de Portugal, “tem a ver um bocadinho com o cansaço das pessoas, procurarem uma voz nova, uma voz diferente”. Apesar disso, classificou o resultado no cômputo geral como “positivo”, por considerar que “mostra claramente que o país quer o caminho que está a seguir”.
Em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, o antigo secretário-coordenador da secção de Macau do Partido Socialista, Tiago Pereira, considerou ser “um bom resultado para o Partido Socialista, os resultados eleitorais estão em linha com o que se projectava”. Tiago Pereira entende ter sido “uma vitória confortável” para o PS, e que apesar de não ser de maioria absoluta, a ideia era manter o entendimento com os partidos que apoiaram o governo socialista.
Relativamente aos partidos que se vão estrear, apontou que “a chegada do Chega ao parlamento português é obviamente uma má notícia, uma péssima notícia”, sublinhando que muito do percurso futuro desse partido vai “ser ditado pela forma como os outros partidos encararem esta nova realidade”. No seu entender, a abordagem a ter passa por “não dar demasiada importância”.
Este jornal tentou entrar em contacto com figuras associadas a outros partidos no território, mas até ao fecho de edição não teve sucesso.



