Um estudo desenvolvido por académicos da Universidade Cidade de Hong Kong concluiu que os conflitos familiares são a principal causa de comportamentos violentos por parte de jovens de Macau. Outro dos factores com grande impacto é a integração em seitas pois, nesse contexto, a violência é sinal de “conformismo” face às práticas do grupo
Inês Almeida
A família e as escolas “podem ser espadas de dois gumes: são espaços para o crescimento psicológico e social, mas uma vida familiar problemática também pode contribuir para delinquência e violência”, alertam as conclusões de um estudo que compara estudantes e jovens delinquentes do território.
Christopher Cheng e T. Wing Lo, da Universidade Cidade de Hong Kong garantem que são os conflitos familiares a ter “o mais forte e mais directo impacto nos comportamentos violentos”, além de afectarem a auto-estima e auto-eficácia. “Crianças com problemas neuro-motoras de nascença e ambientes familiares instáveis mostram ter problemas comportamentais e académicos muito mais significativos na adolescência e até taxas de violência, roubo ou outros crimes duas vezes mais altas na idade adulta”, referem.
Para tentar minorar os problemas, os académicos advertem que, embora a genética possa contribuir para estes factores de risco, conflitos familiares como exposição a violência podem ter impacto no desenvolvimento das crianças. Por isso, “crenças patriarcais, abuso de substâncias, doenças mentais e um historial de abuso de crianças bem como pressão na interacção entre pais e filhos” são considerados factores de risco para os comportamentos violentos por parte dos jovens.
Os dois investigadores de Hong Kong alertam ainda para o facto de “as rápidas mudanças na estrutura económica estarem, gradualmente, a retirar harmonia às famílias” em Macau.
Uma relação mais distante com a escola também é apontada como grande fonte de delinquência. “Embora haja uma relação significativa entre o empenho na escola e a violência, tanto nos estudantes como nos delinquentes juvenis, podem ser interpretados como a realidade social em mudança”, retirando alguma importância a este parâmetro.
“A indústria do jogo de Macau exige um grande volume de jovens para se ocuparem das suas operações, procurando mais experiência do que formação. A educação superior não é muito valorizada pelos jovens e as suas famílias porque os casinos podem dar muitos empregos que exigem poucas qualificações e são bem pagos”.
Outro dos factores a ter em conta tem a ver com as seitas. “Muitos dos delinquentes entrevistados para este estudo são já membros de tríades. Quando um jovem faz parte de um gangue, a violência é vista como uma expressão de conformismo dentro do grupo, onde a aceitação do comportamento anti-social se torna um prémio para quem comete actos violentos”, alertam os autores do estudo acrescentando que “o reforço da auto-estima através do reconhecimento por parte de outros membros, é um factor significativo na participação em gangues”.
Tendo em conta todos estes factores, os académicos da RAEHK defendem que “programas de intervenção e prevenção devem ter como objectivo modificar as atitudes violentas dos jovens através de uma identificação precoce dos estudantes com baixa auto-estima e controlo, apostando em aumentar a auto-eficácia na resolução de problemas sem recorrer à violência”. Estes programas devem reforçar as capacidades de lidar com os problemas dos jovens, a resistir às influências negativas dos pares e apoiar o desenvolvimento de um ambiente familiar harmonioso.
Macau já criou equipas de trabalho comunitário viradas para os jovens, cujos assistentes sociais chegam a vários bairros para ajudar os jovens em risco. Nesse contexto, os autores do estudo referem que “as equipas devem continuar os serviços tendo como objectivo evitar que os jovens participem em actividades relacionadas com gangues ou reduzir o período que passam envolvidos nesses contextos através de programas de prevenção de violência”.
Para este estudo foram entrevistados 2.755 estudantes e 330 jovens delinquentes, 48,3% eram do sexo masculino e 51,7% do sexo feminino. A média das idades era de 15,9 anos.



