Dois anos depois, o espaço da “Vila Criativa” na Rua do Campo vai fechar. No entanto, o promotor dedica-se afincadamente à preparação de um novo espaço que entrará em funcionamento oficial em Setembro, na zona da San Ma Lo. À TRIBUNA DE MACAU, Lei Hon Cheong revelou que, para além de produtos originais de Macau e outros nostálgicos, o projecto “Vila Original” vai abranger elementos portugueses para atrair os turistas. O objectivo é introduzir gastronomia, artesanato, música e até festas portuguesas, pelo que o empreendedor acolherá na “vila” a primeira loja na China de aluguer de trajes tradicionais portugueses. Apesar de tudo, Lei Hon Cheong ainda se sente como “um equilibrista no campo cultural e criativo que pode cair a qualquer momento”
Rima Cui
Depois do encerramento dos primeiros dois andares da Vila Criativa na Rua do Campo, o terceiro piso dedicado à gastronomia também está perto de fechar. O promotor quer concentrar-se no lançamento do novo projecto na zona da San Ma Lo, denominado “Vila Original”. Neste espaço, os produtos e actividades serão diversificados, com especial destaque para os elementos portugueses, o que para o empreendedor é uma arma para surpreender os visitantes.
Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, Lei Hon Cheong disse acreditar que a nova “vila” beneficiará da vantagem geográfica, esperando por isso atrair especialmente turistas, pelo facto de se situar num edifício próximo da paragem de autocarro “Avenida de Almeida Ribeiro/ Wing Hang”, umas das que regista maior fluxo de pessoas em Macau. Devido ao atraso nas obras da zona, a vila só vai abrir oficialmente em Setembro deste ano.
No primeiro andar da “Vila Original”, este jornal encontrou uma loja em fase de conclusão de obras, que apesar de ser pequena, será a primeira em Macau e na China a disponibilizar serviços de aluguer de trajes tradicionais portugueses. Esta oferta é já muito comum em pontos turísticos do Japão e da Coreia do Sul.
“Hoje em dia, muitos turistas vêm ao território só porque querem ver coisas de Portugal”, sublinhou Lei Hon Cheong.
A loja “Vestuário de Lisboa” foi criada por Andy e o marido. Segundo o proprietário, apesar de Macau ter sido administrado por Portugal, além dos monumentos são poucas as coisas à vista das pessoas que podem realmente promover a cultura portuguesa. “O Governo pretende incentivar a plataforma que liga os países de língua portuguesa e tem organizado muitas actuações a mostrar a cultura lusa, mas de facto ver apenas os edifícios não permite aos visitantes terem um contacto mais próximo com o espírito dos monumentos”, apontou o dono do estabelecimento.
Actualmente, a loja oferece 10 trajes de mulher, oito de homem e vai adquirir indumentárias para crianças. Para além de ter escolhido roupas coloridas do Norte de Portugal, sobretudo de Viana do Castelo, a loja vai alugar colares e brincos banhados a ouro e outras bijutarias comuns no Minho. Nesta loja, também se podem encontrar sapatos pretos tradicionais lusos, tecidos com o Galo de Barcelos e outros elementos saudosistas portugueses.
A experiência oferecida inclui o aluguer de roupa durante cinco horas por 388 patacas, sendo que, caso se queira adicionar o serviço de fotografia, o preço sobe para 1.500 patacas. A loja também presta serviço de maquilhagem por 488 patacas. Sobre o futuro negócio, o casal acredita que conseguirá alugar pelo menos 10 trajes por dia.
Para além da publicidade nas redes sociais, o casal adiantou estar a contactar agências de viagens, para que a “experiência portuguesa” possa ser adicionada ao leque de actividades das excursões.
Andy revelou que comprou todos os trajes online, por 9.000 patacas cada um, no entanto, depois da loja entrar em funcionamento, pretende fazer uma viagem a Portugal para comprar materiais e até estudar a produção de trajes, para mais tarde “adicionar um pouco da própria imaginação”.
A ambição é atrair “tudo de Portugal”
Diferente das lojas individuais quando operava na Rua do Campo, o primeiro andar da “Vila Original” apresenta uma alta concentração de produtos. “Neste andar, vamos juntar produtos originais de Macau e outros nostálgicos, para aumentar ao máximo o impacto visual, porque nos últimos anos a nostalgia tem sido uma vantagem na área da moda”, salientou Lei Hon Cheong.
Segundo referiu na sua apresentação, o espaço disponibiliza uma série de brinquedos e aparelhos motivadores de uma pequena viagem no tempo até às décadas de 80 e 90. Além disso, inclui uma mistura de vestuário, malas e brincos de marcas locais e até uma prateleira de CDs especial, pois será o único sítio na cidade a vender quase exclusivamente alguns de cantores e músicos de Macau. No mesmo espaço, há ainda um café que vende simultaneamente café e frutas desidratadas de marcas locais.
Apesar de toda esta oferta, o empreendedor não está satisfeito, pois “ainda faltam muitos elementos portugueses”. Além da loja de trajes, pode-se encontrar neste andar tecidos com paisagens algarvias estampadas.
“Quero introduzir na Vila mais gastronomia e artesanato portugueses. Além disso, será ainda melhor quando adicionarmos elementos da selecção nacional de futebol. Na Vila, teremos sempre música a tocar e também pode ser portuguesa. No território são celebradas festas portuguesas como o Arraial de São João, mas infelizmente muitos cidadãos não as conhecem. Por isso, acho que será uma boa ideia se celebrarmos algumas dessas festas portuguesas na nossa vila”, salientou.
Descendo as escadas aproveitadas ao estilo de uma mini galeria, o anfitrião mostrou um piso subterrâneo onde funcionará o “Supermercado da Vila”, espaço “estratégico” para Lei Hon Cheong que será usado para “atrair” pessoas enquanto esperam o autocarro e para as “reter” com as lembranças vendidas no interior.
Um frigorífico cheio de cerveja da Super Bock, uma prateleira com vinhos portugueses, sobremesas macaenses em caixas coloridas, brinquedos com figuras originais de Macau fazem já parte do protótipo do supermercado.
No outro lado das escadas, a parede está pintada com uma imagem característica do cenário diário do trânsito na Almeida Ribeiro: pessoas à espera de autocarros, motociclos uns após outros, placards do “Hotel Central” e a ourivesaria “Chow Sang Sang”.
A par dos espaços que já estão preparados, a “Vila Original” incluirá ainda um cabeleireiro, um salão de dança e um terraço com café.
O empreendedor avançou que pediu ao Governo o aproveitamento do espaço exterior entre a paragem e o edifício, para realizar feiras, exposições ou actuações de rua.
“Equilibrista que pode cair a qualquer momento”
A “Vila” na Rua do Campo não chegou a resistir dois anos, mas esta “derrota” ensinou várias lições a Lei Hon Cheong, uma das quais passa pela abolição do modelo de lojas com portas. “As pessoas de Macau são muito relaxadas e ter portas a fechar os espaços diminuía a animação”, frisou.
Nesse sentido, foi adoptado um modelo semelhante ao do “department store”, que conta já com mais de 30 “ilhas” com produtos. O dono do projecto cobra aos parceiros até quatro mil patacas pelas despesas de autorização de exibição de produtos na “Vila”, garantindo a oferta constante.
O espaço está em operação experimental desde meados de Junho e já se nota um bom desempenho financeiro, com o consumo médio dos visitantes a atingir 1.000 patacas por pessoa. Este facto dá confiança ao criador que acredita que, com o fluxo médio diário nos arredores da paragem de autocarro a rondar as 100 mil pessoas, já será suficiente se for capaz de atrair um por cento desse total.
Por outro lado, a “Vila” passou a ter uma nova imagem, deixando o dinossauro para trás para adoptar um gorila.
Licenciado em assistência social e com 20 anos de experiência como cantor, Lei Hon Cheong salientou que começou a trabalhar na área cultural e criativa há mais de uma década quando ainda não havia em Macau o conceito de “cultura e criatividade”.
No início da carreira, abriu espaços de reunião para jovens com jogos de mesa em edifícios industriais, tendo desenvolvido também projectos na Areia Preta e em Zhongshan.
No entanto, acabou por fechar quatro dos setes espaços da marca “Vila”, pretendendo encerrar em breve o projecto na Areia Preta. Rejeitando as restrições ao uso de edifícios industriais e desentendimentos com os senhorios, o antigo músico teve agora mais um “azar”, porque a alteração dos dirigentes do distrito em Zhongshan obrigou à suspensão do projecto.
“Sinto-me um equilibrista no campo cultural e criativo que pode cair a qualquer momento”, apontou, reconhecendo que ainda está longe do sucesso. Na sua perspectiva, sucesso significa que todos os artistas, vendedores e parceiros da “Vila Original” possam ganhar dinheiro.
Como pioneiro na área, Lei Hon Cheong confessou sentir-se pressionado por saber que o projecto traz muita esperança para a área. Porém, salientou que nunca quis ser “número um”.
“Muitos grandes empresários têm vontade de integrar elementos culturais e criativos nos seus projectos comerciais, assim aproveitamos para cooperar com eles no sentido de equilibrar as despesas de preparação da vila. Temos colaborado com as operadoras de jogo, como por exemplo, o Venetian que até nos convidou para abrir um espaço no resort. Ainda não aceitei, porque acho que o nosso nível de criatividade ainda não está naquele patamar”, explicou.
Mesmo assim, o “pai das vilas” acredita que reforçar a cooperação com as seis operadoras de jogo poderá ser a solução para ajudar o sector a desenvolver-se mais rapidamente.



