Inaugurada no Venetian com grande expectativa e promessas de qualidade de serviços, a Clínica Malo foi encerrada pelos Serviços de Saúde, após anos de vida atribulada, que sabe-se agora, foi sempre deficitária. Na verdade, de Malo, a Clínica já pouco tinha desde a entrada do grupo Taivex de Xangai a não ser manter o nome, mas durante todos estes anos, nas suas deslocações a Macau, foi Paulo Malo quem falou sempre em nome do desenvolvimento do projecto
Como na altura a imprensa local foi informando, o projecto inicial era mais pequeno que o actual. Consistia em ter uma clínica com 1.000 a 1.500 metros quadrados onde se instauraria uma unidade dentária com alguém de referência em Portugal e no mundo.
É assim que, a certa altura se acabam por concretizar os contactos com o dr. Paulo Malo, fundador do Grupo Malo como sendo o melhor posicionado para ocupar o espaço, que passaria a incluir uma unidade de wellness com clínica e bem-estar.
Para dirigir o projecto foi convidado o médico dr. José Peres de Sousa, ex-director no Hospital S. Januário que, devido à sua experiência de gestão clínica, hospitalar em Macau, onde é residente permanente há muitos anos, tinha as condições para avançar com o projecto. Na altura, houve rumores que inicialmente o referido médico terá mostrado algumas resistências por o projecto ser demasiado ousado para a realidade de Macau.
Não se sabe como apareceu o Venetian na equação. Terá sido pela atracção do espaço a largas massas de visitantes, o que teoricamente ajudaria a um mais fácil lançamento promocional do projecto.
De qualquer modo, o primeiro passo era fazer um acordo com a Sands, proprietária do Venetian, quer sobre o arrendamento do espaço quer na vertente de prestar cuidados de assistência médica aos funcionários da empresa.
A um “pecado original” juntam-se outros problemas
E segundo as nossas fontes aqui surgiu o “pecado original”.
As rendas no Venetian eram altíssimas e, apesar da prestação do serviço aos seus empregados, a empresa não se terá mostrado disposta a baixar o preço. As negociações foram-se efectuando, sabe-se hoje, sem resultados, apesar de se tornarem mais prementes quando já se estava na fase de construção do Spa e da clínica. Mas nunca se terá chegado a uma conclusão, o que colocou o projecto num equilíbrio instável.
Para criar ainda mais problemas financeiros, os custos de construção e decoração dos espaços dispararam, porque o Venetian exigiu o máximo de qualidade em termos de materiais, o que, segundo fontes do Jornal TRIBUNA DE MACAU, que não desejaram ser identificadas, “duplicou os custos de construção previstos”.
É convicção das nossas fontes que “aqui começam os problemas financeiros da empresa”, acrescidos ao facto de, ainda hoje, sem saber porque razão, “o Spa que inicialmente estava previsto ter 3.000 metros quadrados, com área húmidas e quartos, foi aumentado, estendendo-se para zona que inicialmente estava prevista ser ocupada num futuro desenvolvimento da clínica”.
O Spa abriu as portas quase um ano mais cedo que a clínica e logo na abertura – Julho de 2009 – se percebeu que tinha um número excessivo de quartos, (realmente 54 era optimismo demasiado), e que o projecto estava “inquinado” pela tentação do marketing – inicialmente a promoção anunciava “o maior Spa do Mundo”.
Quanto à clínica, que abriu em Maio de 2010, tudo faz crer que terá sido pensada com uma dimensão considerável, como se fosse um hospital de dia, para o qual recebeu o Certificado da Direcção dos Serviços de Saúde.
Foi então explicado à imprensa que o projecto se baseava em três pilares: a clínica dentária, em que o Grupo Malo tinha boa reputação em Portugal e que se esperava poder sustentar a companhia nos primeiros tempos, atendendo a que a especialidade dentária se desenvolve mais rapidamente; o pilar do bem-estar (wellness), cirurgia plástica e tratamentos de dermo-cosmética e o pilar do hospital que desenvolveria especialidades e iria apostar nos check-ups de qualidade.
A actividade começou a ser desenvolvida com um grupo de especialistas que cobriam várias áreas fundamentais da saúde, em especial as unidades de oftalmologia e nefrologia que tinham reduzida implantação em Macau.
Então o grupo Malo era maioritário na empresa e Paulo Malo tomava todas as decisões. Em deslocações frequentes a Macau, dava entrevistas e conferências de imprensa (algumas ao Jornal TRIBUNA DE MACAU) em que sempre anunciava o seu optimismo e a sua perspectiva de alargamento do projecto e extensão a outros pontos da Ásia.
O panorama financeiro, então, já parecia diferente e quanto mais Paulo Malo falava, mais dúvidas existiam, porque cedo houve rumores de problemas com a Sands, por atraso no pagamento de rendas.
Unidade dentária e Spa sem o sucesso esperado
O excesso do custo de obras de toda a estrutura obrigou então ao recurso ao crédito bancário.
Estava-se então em meados de 2012, e apesar do crescimento das receitas, soube-se que a unidade dentária não conseguia crescer o suficiente e que os rendimentos do Spa não suportavam os custos operacionais e financeiros devidos aos bancos.
As rendas continuavam a ser negociadas sem haver pagamento, mas a qualidade dos serviços começava a dar nome e atrair mais clientes, o que dava também nome ao Venetian. As negociações tiveram momentos de tensão, mas na maior parte delas “havia compreensão”, disseram-nos, explicando que “parecia haver interesse de ambas as partes”.
Porém, uma visita ao hospital de Sheldon Adelson – o fundador e principal accionista da Sands – veio dar um novo imagem à então designada Clínica Malo. O bilionário e visionário que lançou a ideia do Cotai Strip ficou muito bem surpreendido por ver a qualidade das instalações que se encontravam no Venetian. Casado pela segunda vez com uma médica, Miriam Ochshorn Adelson, o que estava previsto ser uma breve visita de 15 minutos demorou quatro horas e Sheldon propôs-se ali fazer todos os exames, pensando-se que o interesse do “patrão” criava condições favoráveis para resolver o problema das rendas.
Nada chegou ao papel e em 2013 o Grupo Malo foi incapaz de cumprir obrigações com o Venetian, tendo surgido uma carta do Venetian a dar um prazo para resolver dívidas em atraso.
De Clínica Malo a TaivexMalo e seguintes
Na tentativa de resolver o problema com o Venetian e com os bancos, Paulo Malo pôs-se à procura de investidores e em 2103 surge a empresa Taivex de Xangai, com ramificações em Taiwan para resolver as dívidas ao Venetian e os bancos. Em Setembro desse ano, a Clínica Malo passa a chamar-se TaivexMalo em que Malo já não é o principal accionista, apesar de manter o nome.
De acordo com as nossas fontes, estabelece-se então um novo acordo com o Venetian (que esperara para poder receber as rendas anteriores). A Sands esquecia as dívidas e aceitava não só não cobrar rendas durante um ano como baixar os valores então pedidos.
Em troca das rendas em atraso, o Grupo TaivexMalo deu o SPA. Como nos explicaram, nominalmente o Venetian não podia ter um SPA pelo que recorreu a um arrendamento comercial por três anos, renovável em meados de 2016, mas que, segundo soubemos, não foi renovado, o que levou ao encerramento do Spa. E apesar de terem sido baixadas, mesmo assim, as rendas continuaram a ser elevadas – cerca 1,6 milhões de Hong Kong dólares em taxas de administração.
Com a TaivexMalo, já sem Paulo Malo ao leme, disseram-nos que em 2013 e 2014 terá havido algum desenvolvimento, demonstrado pela maior procura clínica.
Mas os encargos financeiros eram muito altos e passado algum tempo, em 2014, foi necessário encontrar novas soluções. Em resultado, apenas cerca de um ano e meio depois, a TaivexMalo volta a mudar de mãos integrando novos investidores de Xangai.
Com eles, surge um novo director executivo com uma forma de gestão muito diferente, o que se percebeu uma vez que o director não tinha conhecimentos ou qualquer ligação à parte hospitalar.
Paulo Malo, porém, apresenta diferente imagem.
Em Abril de 2014, à margem de um seminário e de uma cirurgia dentária benemérita, o médico disse a Liane Ferreira do Jornal TRIBUNA DE MACAU que “a Clínica Malo está a registar resultados positivos no território” destacando que “o crescimento do projecto em Macau (…) está na ordem dos dois dígitos em todas as áreas médicas” e acrescentando que o grupo “tem perspectivas para aumentar os serviços disponíveis à oftalmologia e diagnóstico do cancro”.
E sobre a sociedade com a Taivex, e em forma de balanço, afirmou que “o balanço é excelente”. “Neste momento estamos com uma expansão brutal. Aumentámos a nossa capacidade em quase quatro vezes, de departamentos e serviços, e estamos a receber pacientes do Japão, Singapura e Tailândia, que normalmente é um destino médico”.
Mas tudo isto, que suscitou dúvidas em Macau, estava longe da verdade. O acordo com o Venetian que retirou o Spa do projecto, alterou um dos pilares do projecto inicial e os problemas financeiros continuaram ou até se terão agravado.
Por isso, em 2015 a sociedade integra um segundo grupo de investidores de Xangai. Mas esta integração de um montante de capital desconhecido não consegue resolver os problemas financeiros e o Grupo TaivexMalo busca novos investidores.
Vindo não se sabe de onde, o optimismo de Paulo Malo continuava a ser expresso na imprensa local. A Inês de Almeida do Jornal TRIBUNA DE MACAU o fundador do Grupo Malo, anuncia que, “o Malo Group está agora a facturar mais do que nunca na RAEM, sendo que as receitas deste ano superaram o cômputo geral dos anos anteriores”, garantindo que no próximo ano será inaugurada uma nova clínica, desta vez na Península. “Vamos fazer uma segunda clínica em Macau, ainda não posso dizer onde, mas está a ser criada neste momento”. “Se tudo correr bem, antes do Verão abrimos”.
Na mesma entrevista em que se alarga em afirmações sobre os serviços prestados no Venetian, que não tinham qualquer relação com o que se ia sabendo cá fora sobre a situação da empresa, Paulo Malo explica que “o Governo de Macau não aposta no turismo de saúde, o que é um erro grave, porque as pessoas vão à Tailândia fazer um ‘check-up’ e depois não há mais nada a oferecer em Banguecoque”, alertando para a existência em Macau de espectáculos e da gastronomia. Isso para concluir que “há aqui todas as vantagens de agregação de mais-valias, mas o Governo ainda não percebeu isso, o que é uma pena”.
Nenhum destes projectos em Macau se materializou.
Novo investidor ligado à indústria farmacêutica
Num impasse, em 2016, é integrado um grupo chinês, desta vez ligado à industria farmacêutica de Tianjin, contudo, mantendo-se o nome TaivexMalo. Ao que soubemos, inicialmente criou algumas expectativas dentro do pessoal, porque era um grupo forte economicamente e cotado na Bolsa de Shenzhen.
Garantem-nos, no entanto, que foi sol de pouca dura. Sem conhecimentos de gestão hospitalar, este grupo fez com que houvesse uma degradação no trabalho, o número de especialistas no hospital e o tipo de serviço que estavam a prestar passaram a não ser os mais adequados à unidade de saúde de um hospital de dia, começaram a sair médicos e enfermeiros e apareceram pessoas não qualificadas em part-time.
O director clínico que acompanhara todas as anteriores soluções, ainda que com cada vez com maior preocupação bateu com a porta. Estávamos em Outubro de 2016, quando o dr José Peres de Sousa rescindiu o contrato.
Algum tempo depois começaram os rumores e os Serviços de Saúde fizeram várias inspecções que, segundo aqueles Serviços, estiveram na base do encerramento da TaivexMalo, por enquanto temporário, mas que todas as fontes que contactámos acham ser irreversível.
J.R.D.



