Dumplings” são obrigatórios nas mesas do norte
Dumplings” são obrigatórios nas mesas do norte

Nesta altura do Ano Novo Lunar, alguns cidadãos oriundos da China Continental, regressam às terras natais, mas também há quem permaneça em Macau. Nas mesas, apesar de serem muito diferentes entre regiões, os pratos têm um ponto em comum: a entoação dos seus nomes chineses é semelhante a palavras como “boa sorte”, “riqueza” ou “saúde”. A TRIBUNA DE MACAU foi conhecer as tradições gastronómicas do Ano Novo seguidas por comunidades do norte, centro e sul da China que vivem na RAEM, bem como da macaense, num retorno inevitável às memórias familiares. Entre palavras sobre o tempo precioso do passado, há saudades presentes no coração, mas bênçãos e tradições para transmitir

 

Rima Cui*

 

Numa terra de múltiplas culturas, o Ano Novo Chinês é o festival que mais mobiliza a população de Macau. Mais do que as luzes que iluminam as bermas das estradas, é sinónimo de reunião familiar em torno da mesa. E em Macau, há muitas mesas ligadas a comunidades com tradições gastronómicas e raízes culturais diferentes. A TRIBUNA DE MACAU foi conhecer os costumes de quatro comunidades, numa viagem onde os sabores e as memórias caminham de mãos dadas em direcção às bênçãos do novo ano.

 

“Dumplings” do Norte na memória

Mesa do norte da China tem de ser variada

“Quando era criança, não podíamos ficar em casa, tínhamos de voltar à terra todos anos para o Ano Novo. Na altura, não gostava nada deste ritual”, confessa Wong Man Kei, segurança cuja família imigrou para Macau há muitos anos, deixando para trás a terra natal, Jinghai, vila no sudoeste de Tianjin, cidade do Norte da China. Agora na casa dos 30 anos, percebe que o Ano Novo Chinês não é um festival banal, pois proporciona um período para a reunião familiar mais preciosa de todo o calendário lunar. Os pratos servidos na mesa não servem apenas para saciar a fome, mas contêm bênçãos e o carinho dos outros membros da família.

Wong conta que costumava regressar à casa da bisavó, numa aldeia de Jinghai. Por muito ocupados que todos estivessem a visita era obrigatória. “Na altura, o comboio andava muito devagar. A viagem durava um dia e uma noite inteira”, descreve.

Nas suas memórias, ainda vê a bisavó, na altura com mais de 80 anos, calmamente sentada num pequeno banco à porta da casa, esperando a família que vivia longe. Apesar de ser a criança mais importante, Wong Man Kei não gostava do reencontro, porque a casa não tinha condições. Não tinha onde tomar banho e até se via obrigada a usar a casa de banho pública.

As pessoas de Tianjin costumam exagerar, dizendo com humor que celebram dois meses de Ano Novo. De facto, as preparações formais começam no dia 29 do último mês do calendário lunar, data em que compete aos homens da família colar com uma mistura de arroz cozido os dísticos de boa sorte nas janelas, portas e cozinhas, acabando por enfeitar toda a casa de vermelho.

“No dia 30 do calendário lunar, as avós e as tias-avós enchiam a cozinha da bisavó, cozinhavam o dia inteiro, porque o jantar da véspera do Ano Novo tem de ser abundante em ricos pratos. Tem de haver carne, galinha inteira, peixe, camarões e até coelho”, indica, acrescentando que, como a China era muito pobre, as pessoas só podiam comer bem no Ano Novo.

“Nesta refeição também comemos ‘dumplings’, que para as pessoas do Norte são obrigatórios”, salienta. A sua família costuma preparar dois tipos de ‘dumplings’, um com carne e outro com vegetais. O primeiro pode ser servido no  jantar, mas o vegetariano é guardado para mais tarde.

No Centro da China, a mesa tem peixe e carne

Para os “dumplings” serem mais saborosos em Tianjin são acompanhados por um vinagre especial. Colocam-se dentes de alhos numa garrafa de vinagre preta com quase dois meses de antecedência. “Os alhos também podem ser comidos e ficam verdes, parecem pedras de jade”, conta, com um sorriso.

As crianças adoram a véspera do Ano Novo porque podem ficar acordadas até tarde. Afinal, à meia-noite é hora de lançar foguetes, receber “lai-sis” e comer os “dumplings” vegetarianos.

“Até hoje, ainda ouço o aviso dos mais velhos para comer um “dumpling’ vegetariano à meia-noite para não passar fome no Ano Novo”, relembra. Embora tentasse resistir à superstição, fingindo dormir, a bisavó não desistia e ia devagar até ao quarto pôr um na boca da bisneta.

“O primeiro dia do Novo Ano era sempre de azáfama e confusão, com o barulho de foguetes lançados durante mais de três horas, os ‘lai-sis’ e as bênçãos gritadas pelos vizinhos ajoelhados perante a bisavó. Era tudo animadíssimo!”.

As refeições do Ano Novo Lunar reflectem o amor dos habitantes do Norte da China por cereais, havendo mesmo uma expressão sintomática: “Dumplings no primeiro dia, massa no segundo e ‘Hezi’ no terceiro”. Com formato de Sol, os “hezi” são “dumplings” que significam reunião familiar.

No quinto dia, os “dumplings” também voltam à mesa, mas com significado distinto. Nesse dia, as mulheres picam os recheios com força, porque são considerados “más pessoas”.

Para além disso, é proibido cortar o cabelo em Janeiro, senão os tios morrem, diz a tradição do Norte. Assim, mal chega o primeiro dia de Fevereiro do calendário lunar, os cabeleireiros recebem multidões de clientes, e logo depois é preciso comer um bolo salgado também feito com farinha.

“No início, sentia que o tempo passava devagar, mas depois do primeiro dia do Ano Novo, o tempo corria num piscar de olhos. Nas despedidas, a bisavó agarrava a minha mão e olhava-me calada com uma expressão pesada, mas não chorava”, recorda.

Wong Man Kei sempre acreditou que o ritual continuaria a repetir-se, mas a pouco e pouco, nota que os pratos abundantes se tornaram num simples “hotpot” e o valor das notas no envelope vermelho multiplicou-se.

Entretanto, a bisavó também deixou de esperar os netos no pequeno banco e desde há cinco anos que nunca mais regressaram a Jinghai. “Parece que todas as tradições e momentos animados partiram com a bisavó”, lamenta Wong Man Kei, acrescentando que agora, em sua casa continuam a comer-se “dumplings”, mas o sabor não é o mesmo. “Queria mesmo ter um Ano Novo como antigamente, só mais uma vez”, confessa.

 

“Montanha e rio” reflectidos à mesa

Há 10 anos no território, Huang Hanbing veio de Wuhan, capital da Província de Hubei, conhecida pela variedade gastronómica. No Ano Novo regressa à terra natal, porque “todas as famílias preparam pratos ricos para receber familiares e amigos”.

No centro do país, Wuhan é abençoada pelo Rio Yangtzé e por montanhas. Por isso, ao contrário de outras cidades que partilham a mesma latitude, servem-se pratos de peixe e carne. Por exemplo, em Lhasa come-se carne de vaca e iaque e a cidade de Shaoxing é conhecida por uma refeição com mais de 10 pratos de peixe.

“Fat coi” tem uma pronúncia igual a “enriquecer”

“Segundo as tradições de Wuhan, no Ano Novo, comem-se almôndegas fritas de carne de porco. Em mandarim, redondo é ‘Yuan’ que tem a mesma pronúncia da palavra ‘reunir’. Por isso, comer almôndegas significa a reunião familiar”, explica Huang Hanbing.

Agora em Macau também mantém o hábito de colocar na mesa presunto chinês e salchichas caseiras. “Secamos e penduramos as salchichas em casa, porque representa fortuna em casa”. O mais interessante é que, embora o prato de peixe tenha de estar na mesa, não se pode comer, porque em chinês, peixe é ‘Yu’ e pronuncia-se ‘extra’, pelo que ‘ter um peixe’ é igual a ‘ter fortuna extra todos os anos’.

De acordo com Huang, as pessoas de Wuhan são tradicionais. “Como Wuhan é uma zona interior, os jovens gostam do Ano Novo, porque só nesta altura têm férias e tempo para comer, beber muito em casa e jogar mahjong”.

 

Forte desejo de “fortuna”

“A maioria da população de Macau é das Províncias de Guangdong e Fujian, representativas do Sul da China, conhecidas pelas inúmeras, antigas e exigentes tradições”, diz por sua vez Mickey Hung, conhecedor das tradições e mestre de “feng shui”.

O especialista salienta que, neste período tão importante, o Ano Novo Lunar em Macau é composto por muitas regras especiais, muitas das quais relacionadas com a pronunciação em chinês. Para garantir a boa sorte, há mesmo pratos proibidos nesta altura.

Em resumo, a população chinesa come pratos cujos nomes escritos têm sons homófonos para atrair boa sorte. Há também uma afeição especial entre as regras de comer e a “fortuna”, muito ligada ao sector do jogo.

“No Ano Novo Chinês, as pessoas que operam salas em casinos ou procuram ganhar nesses estabelecimentos não hesitam em comer mão de porco, porque tem uma ligação à procura de riqueza”, frisou.

Para ganhar e ao mesmo tempo conseguir fortuna extra, ou seja, para ter “Jeng” e “Jyu”, a população prepara o prato “Leng Jyu” (anchova). É também muito popular o consumo de “Fat coi” (uma espécie de fungo preto parecido ao cabelo), pois a pronúncia é igual a “enriquecer” em cantonês.

“Há 400 anos, Macau era um porto de pesca, onde o peixe salgado era muito consumido. Como a confecção de peixe salgado necessita de papel branco para enrolar à volta da cabeça do peixe, este acto faz lembrar os panos usados para enrolar os mortos. Por isso, consideram que o consumo de peixe salgado trará azar. Mesmo que se coma em dias normais, é afastado da mesa no festival chinês mais importante”, destacou Mickey Hung.

A pêra, uma fruta comum no dia-a-dia, também está na lista negra do Ano Novo Lunar. “Pêra em cantonês é “lei”, que é parecido com o som de separação, pelo que, numa ocasião de reunião familiar, não se pode comer algo com um significado contrário”, alertou.

Na cidade do jogo, como as pessoas desejam fortuna, até receiam comer sopa de arroz neste festival, isto porque antigamente no Sul da China só os pobres comiam sopa de arroz para o alimento durar mais tempo. “Quem come sopa de arroz no Ano Novo terá um mau ano de finanças”, aponta o especialista.

Por outro lado, segundo Mickey Hung, em Macau, as celebrações são diferentes entre jovens e idosos. Na véspera, a maioria dos jovens prefere ir à rua para ver as iluminações, as pessoas de meia idade vão aos templos acender incenso, enquanto os idosos ficam em casa à espera da chegada do Novo Ano e a adorar os antepassados.

O primeiro dia do Ano Novo é dedicado aos “lai-sis”. Desde que uma pessoa não seja casada pode receber os envelopes vermelhos, não apenas de familiares, mas também de amigos, colegas e vizinhos.

Para além disso, os idosos continuam a cozinhar em casa, mas as novas gerações começam a levar os pais a comer “dim sum” nos restaurantes.

Para os chineses do Norte e do Centro, o primeiro dia é obviamente o mais significativo. Todavia, para a população local o segundo dia é o mais importante porque marca a “abertura do ano”. As ruas ficam congestionadas por pessoas e realizam-se a Dança do Leão e do Dragão e a Parada. “Também há pessoas que aproveitam para ir ao casino”, nota Mickey Hung.

O segundo dia é ainda conhecido em qualquer parte da China como o “dia do genro”. No passado, era o único dia no ano inteiro em que a filha casada podia voltar à casa dos pais.

Marina de Senna Fernandes recordou o Ano Novo com a mãe

Depois de dois dias calmos, a cidade volta a ficar animada no quinto dia, uma vez que a tradição do Sul dita ser a melhor altura para “receber a sorte trazida pelos cinco Deuses da fortuna”. Os patrões dos casinos costumam visitar os mestres de “feng shui” pedindo ajuda para os deuses permanecerem mais tempo. Ao fim do sétimo dia, termina o Ano Novo Lunar.

“Apesar de Macau ser pequeno, concentra no território 650 mil habitantes, dos quais 94% são chineses. Assim, o Ano Novo Chinês é o dia mais importante para a população local e toda a cidade tem uma atmosfera festiva”, sublinha o especialista, com muito orgulho.

 

“Tão importante” como o Natal

Nas celebrações em Macau, a comunidade macaense também valoriza o festival tradicional chinês, colocando-o ao mesmo nível do Natal. “Somos macaenses, temos as duas culturas incorporadas em nós. Não há forma de desligar”, salienta Marina de Senna Fernandes, filha do célebre escritor e advogado, Henrique de Senna Fernandes.

Embora haja famílias ligadas mais às tradições portuguesas e ocidentais e outras com hábitos mais chegados à comunidade chinesa, garante que na sua família “podemos fazer as duas ao mesmo tempo e orgulhamo-nos disso”. Entre os pais de Marina de Senna Fernandes, havia um “acordo” no sentido de que, como o pai era português macaense e a mãe chinesa, tinham de respeitar as tradições um do outro.

Ao ser questionada sobre a mesa do Ano Novo, abriu-se uma porta para o passado. “Quando a minha mãe era viva, o Ano Novo Chinês era celebrado a rigor. Preparava 12 pratos e era só ela a fazê-los”, recorda Marina de Senna Fernandes, entre sorrisos ternos, ao indicar que a mãe precisava de duas semanas para fazer as compras.

As receitas da mãe para o Ano Novo Lunar são diversificadas e abundantes em ingredientes. O “chai de bonzo” é provavelmente o “rei” dos 12 pratos, pois segundo testemunhou este jornal na cozinha da entrevistada, engloba mais de 20 ingredientes. Molho de arroz vermelho, cogumelo chinês, maçaroca, ‘orelha de rato’ (fungo preto amplamente consumido na comida chinesa), ervilhas, couve branca, massa de arroz e “fat coi” criam uma iguaria colorida.

A confecção do prato exige muita paciência, pois é preciso colocar em água muitos ingredientes separadamente para se expandirem. Quando chega à etapa de os cozer em água, tem de se preparar um tacho grande, adicionando os ingredientes pouco a pouco e mexendo constantemente a sopa, para não queimar.

Chai de Bonzo é o prato macaense de Ano Novo Lunar

“Quem faz o chai de bonzo em casa deseja que as bênçãos recaiam sobre toda a família. A minha mãe era muito nervosa, sempre que fazia, anunciava ‘olha que vou começar a fazer o chai. Não me venham pedir nada que estou a fazer o chai’”, recorda, notando que esse prato era sagrado para a família.

No entanto, como é difícil preparar o “chai” na perfeição, havia situações em que a mãe se esquecia de algum ingrediente ou algo não tinha ficado bem demolhado. “Ela ia ter com o meu pai ou comigo e dizia que o chai não estava bem e dizia uma série de coisas”, lembra.

Marina de Senna Fernandes não costuma fazer esse prato, porque deve ser confeccionado pela família do primogénito. Portanto, a cunhada assume essa tarefa, porque foi a primeira nora.

A par do “chai”, a mãe fazia “peixe recheado”, a “especialidade da casa”. “O peixe representa a boa saúde,  vitalidade e longevidade. É um peixe recheado frito. Tira-se a pele da carpa e toda a carne do peixe é picada. Leva algas, farinha, cogumelos chineses, chouriço chinês, presunto, tudo muito picadinho como se estivéssemos a fazer almôndegas mas em vez de fazer bolas, mete-se a mistura no peixe e ele vai fritar inteiro. Depois de estar pronto, corta-se em pedaços”, conta minuciosamente.

Na mesa há ainda camarões, leitão, chispe de porco com rebentos de bambu, que significa em chinês “sorte no jogo”, uma sopa de lótus feita com ossos de porco, naco de porco e polvo seco, uma sopa doce com bolas de arroz  recheadas com doce de sésamo. Todos pratos repletos dos melhores desejos para o novo ano.

Hoje, Marina de Senna Fernandes admite que reduziu a tradição dos “12” para os seis ou oito pratos por falta de tempo, mas adicionou à mesa um “hot pot” e um prato de caril.

Na geração mais nova da família, um dos seus filhos gosta muito de cozinhar e faz muitos pratos macaenses. Na sua perspectiva, é muito importante passar as tradições do Ano Novo Chinês de geração em geração. “Se queremos preservar as nossas tradições, temos de ensinar, transmitir e incentivar”, realça.

 

* com I.A.