Apenas 30% dos pais educam com frequência os filhos sobre o abuso sexual, apurou um estudo desenvolvido pelo Centro de Aconselhamento Sobre o Jogo e de Apoio à Família de Sheng Kung Hui. Além disso, muitos progenitores mostram preconceitos em relação às vítimas, atribuindo-lhes mesmo a culpa por esse tipo de casos. Tendem também a desvalorizar toques e pedidos inapropriados por parte de pessoas em posições de poder

 

Rima Cui

 

Com o objectivo de reforçar o conhecimento e a identificação de actos de abuso sexual por parte dos progenitores, foi promovido um estudo, entre Maio e Junho, junto de 555 pais de crianças com idades entre os três e os 18 anos. “Apesar de, em geral, o inquérito ter concluído que a maioria dos pais conhece ‘um pouco’ sobre abuso sexual (70%), num nível mais profundo percebemos que têm um mau entendimento das situações”, afirmou o director da Família Afectuosa e Solidária-Centro de Aconselhamento Sobre o Jogo e de Apoio à Família de Sheng Kung Hui, entidade autora do estudo.

Em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, Ip Kam Po alertou que “hoje em dia, muitos progenitores atribuem a culpa do abuso sexual às vítimas, criticando os filhos, afectados pelos abusos, por terem vestido pouca roupa e saído à noite”. Nesse sentido, sublinhou que a intenção do estudo foi esclarecer os pais de que a responsabilidade do abuso sexual não deve ser assumida pelas vítimas.

Nos testes, metade dos inquiridos deu respostas incorrectas, como por exemplo: “resistir muito permite evitar o abuso”; “os agressores praticam o acto porque não conseguem controlar o desejo sexual” e “o abuso sexual deixa provas evidentes no corpo das vítimas”. Conceitos errados, frisou o director.

O responsável da associação mostra-se preocupado com outra conclusão: apenas 30% dos inquiridos educam com frequência os filhos sobre o abuso sexual.

Considerando que, hoje em dia, o maior entrave está na descentralização dos canais de conhecimentos, o Centro pretende sintetizar e organizar as informações, criando um sistema online. Dessa forma, os pais poderão ter acesso a todas as informações ligadas ao abuso sexual, como os regimes jurídicos, os sinais, impacto do abuso sexual e métodos para pedir apoio.

Preferindo não comentar se a situação de abuso sexual no território será grave ou não, o director salientou que, acima de tudo, importa que pais e vítimas tenham coragem de revelar os casos. Na sua opinião, há muitos casos escondidos de abuso sexual na sociedade e, em Macau inúmeras pessoas rejeitam tocar no assunto, persistindo um ambiente de pouca abertura para abordar o tema.

Por outro lado, o inquérito indica que os progenitores masculinos sentem-se mais envergonhados em falar do tema e são mesmo mais resistentes na abordagem.

 

Muitos preconceitos

Além disso, existe o preconceito entre os pais de que as crianças não devem contactar com esse tipo de assunto. Quando os filhos fazem questões sobre sexo, muitos pais ficam envergonhados e sentem dificuldades em dar respostas, optando normalmente por evitar o assunto ou apresentar explicações ambíguas.

No que diz respeito ao impacto do abuso sexual, para muitos inquiridos será mais possível que os filhos revelem sintomas como perda de auto-estima, depressão e transtorno de ansiedade. Uma pequena percentagem considera que as crianças vítimas de abuso sexual poderão não conseguir perceber o impacto real da situação e criar uma visão distorcida do sexo e das relações.

Na educação no seio da famílias, os progenitores dão menos importância ou, muitas vezes, nem sequer ensinam os filhos sobre casos que envolvam actos e pedidos inaceitáveis, como toques inapropriados por professores ou pessoas em posições de poder. Por outro lado, os pais também não dão a conhecer onde e como é que os filhos podem pedir ajuda.

Desde a criação do programa de “prevenção e apoio relativo ao risco de abuso sexual”, em Dezembro de 2015, a associação Sheng Kung Hui recebeu oito pedidos de apoio, na sua maioria envolvendo vítimas femininas. Os pedidos partiram principalmente de adultos.