Sílvia Mohr é uma das conselheiras do outro lado do telefone da linha “Esperança para a Vida” da Caritas, que está em funcionamento desde Junho de 2015. À TRIBUNA DE MACAU salienta que falar de suicídio ainda é tabu e a maioria das pessoas pensa que os problemas de alguém em dificuldade nunca são tão sérios quanto o descrito. A psicóloga explica como detectar sinais de alarme e destaca que ouvir é essencial para ajudar quem não deseja morrer, mas “quer acabar com a dor que sente, um problema que não vê como resolver”
Liane Ferreira
É numa pequena sala com directrizes coladas na parede sobre como falar com pessoas em angústia e um computador que Sílvia Mohr atende as chamadas da linha “Esperança para a Vida (“Expat Lifehope Hotline”, em inglês). Este serviço da Caritas em inglês e português ajuda grupos populacionais não falantes de chinês.
“A linha recebe chamadas de pessoas com dificuldades clássicas, ligadas a relacionamentos familiares, abandono de um dos cônjuges ou dificuldades económicas daí derivadas. Também temos desentendimentos gerados por ciúmes e falta de comunicação”, começou por explicar à TRIBUNA, adicionando casos relacionados com stress no trabalho.
“Sentimentos de solidão e isolamento também são razões comuns. Muitas das pessoas já estão num nível muito elevado de stress quando nos procuram, demonstrando sinais de possível depressão clínica”, frisou a conselheira.
Mas, existem ainda casos extremos. “Falar sobre suicídio não é uma tarefa fácil, ainda existe um tabu muito grande. As pessoas que enfrentam dificuldades em continuar a viver, normalmente não dizem directamente que se querem suicidar. Porém, grande parte dá avisos sobre suas intenções”, afirmou.
“Na maioria das vezes, pessoas próximas percebem que existe uma insatisfação, mas acham que ‘não é tão sério’ como a pessoa em dificuldade descreve”, referiu Sílvia Mohr, sublinhando a importância de estar atento a certos sinais de alerta.
Mudanças de comportamento, isolamento, autonegligência, tristeza profunda, sentimentos de vazio, raiva, medo ou irritabilidade, são alguns dos alertas. Mas, importa ainda ter em conta frases inquietantes: “a minha vida não tem sentido”; “seria melhor se não existisse”; “não aguento mais viver assim”; “vão ficar melhor sem mim” ou “quero desaparecer” são alguns exemplos apontados por Sílvia Mohr, alertando ainda para mudanças inesperadas, como a perda de um ente querido ou o desemprego.
A estes factores pode juntar-se o consumo de álcool e drogas, porque “é um facto que pessoas em depressão procuram amenizar a dor emocional com substâncias do género”.
“Melhoras repentinas de alguém que estava muito triste e de repente se mostra forte e determinado, que anda a arrumar e doar coisas, a fazer ajustes financeiros e a despedir-se de familiares, podem ser sinais de que a pessoa já decidiu acabar com a própria vida”, indicou.
Ouvir sem crítica ou julgamento
Assim, quando se percebem estes sintomas, a psicóloga destaca ser importante alguém colocar-se à inteira disposição da pessoa fragilizada para “garantir que não se sente sozinho”.
“É fundamental ouvir a sua dor e angústia sem tentar encontrar soluções, simplesmente reconhecer que o que essa pessoa tem passado é real e doloroso”, disse, acrescentando que pode sugerir acompanhá-la a consultas médicas ou psicológicas. Na sua perspectiva, deve ser criado um mecanismo de apoio onde família e amigos possam estar atentos, mostrando-se presentes, porque o “melhor remédio para o combate ao isolamento é o apoio emocional dos amigos, familiares e da comunidade”.
“Ouca, ouça e ouça tudo o que essa pessoa tem para falar sem críticas ou julgamentos. Tenha a mente aberta”, exorta.
Sílvia Mohr confessa questionar-se “porque é as pessoas aceitam que uma gripe pode matar e um transtorno mental não”. A vergonha continua a “atrapalhar muito” na procura de ajuda psicológica e psiquiátrica.
“Quem tenta suicídio não quer morrer, muito pelo contrário, quer acabar com a dor que sente, com o problema que não sabe como solucionar. De acordo com as pesquisas, cerca de 10% das pessoas que tentam uma vez, acabam por se matar. Por isso, é fundamental o acompanhamento para prevenir uma nova tentativa”, refere.
Segundo a psicóloga, “infelizmente existem pessoas que não aceitam que isto é uma condição clínica e necessita de cuidados profissionais”. “Pessoas que contemplam suicídio estão num estado deplorável de falta de esperança, num lugar escuro e com muita dor”, explica.
Questionada sobre a existência de algum tipo de preconceito relativamente a sobreviventes, Sílvia Mohr destaca que enfrentam “muita condenação pessoal, vergonha e insegurança”.
Analisando o caso que apresentamos na reportagem de hoje (ver peça nas página 2 e 3), considera que é uma situação muito delicada que leva tempo a recuperar, não estando em causa apenas o “sentimento de perda e culpa, mas também o fracasso”. O tratamento psiquiátrico com aconselhamento psicológico é fundamental para a reabilitação da pessoa, assim como a reintegração na sociedade e o regresso ao quotidiano.
“Porém, este tratamento não é tão rápido como curar uma gripe. Leva tempo, anos até e muito possivelmente precisará de um sistema de apoio toda a vida”, conclui a conselheira.
Conselhos para melhorar o estado emocional
*Adquira hábitos saudáveis, respeitando o corpo.
*Meditar ou exercitar a fé pode ser extremamente importante para influenciar a tranquilidade dos pensamentos.
*Diga “basta” a pensamentos negativos. Procure distrair-se, cantar ou ouvir música para o cérebro receber mensagens positivas.
*Tenha um grupo de pessoas com quem possa contar, um amigo/a chegado para desabafar.
*Aprenda algo novo todos os dias.
*Caso reconheça que está a ser difícil manter um equilíbrio emocional, procure ajuda profissional.
RAEM com baixa taxa de suicídio
No primeiro trimestre de 2017 foram sinalizados 29 casos de suicídio, incluindo 14 tentativas, de acordo com os dados mais recentes anunciados pelo Departamento de Serviços Familiares e Comunitários do Instituto de Acção Social, em Julho do ano transacto. A TRIBUNA contactou os Serviços de Saúde (SSM) no sentido de obter dados mais actualizados, no entanto, até ao fecho desta edição não houve resposta. Por outro lado, em 2016, registaram-se 63 casos de suicídio em Macau, envolvendo 52 residentes (32 homens e 20 mulheres), segundo dados dos SSM divulgados no Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, no âmbito do qual o organismo referiu que Macau é “uma cidade com uma baixa taxa de suicídio”. Ainda assim, considerando que “um caso já é demais”, admitiu ser “necessário que o Governo e comunidade trabalhem juntos para proteger vidas preciosas do suicídio”. Nesse sentido, os SSM apelaram aos cidadãos para “estarem atentos às pessoas que lhes são próximas, ajudando mais, ouvindo mais, encorajando as pessoas com problemas emocionais a recorrerem à ajuda dos profissionais de saúde”.



