As bancas de roupa do Edifício de Vendilhões do Iao Hon são compostas maioritariamente por vendedores idosos, alguns neste negócio há mais de 30 anos. Apesar da dedicação, nota-se uma perda clara de dinamismo comercial devido ao impacto da Internet e vulgarização dos telemóveis, segundo defendem. Para os comerciantes, nem as festividades do Ano Novo Lunar poderão melhorar a situação. No entanto, há quem mantenha a determinação e persistência, recusando abandonar um investimento feito para “toda a vida”

 

Rima Cui

 

Quando se entra no rés-do-chão do Edifício de Vendilhões do Iao Hon, saltam à vista as bancas de roupa, que “pintam” todo o andar com camisolas de lã para idosas, casacos para homens, pijamas, roupa interior e roupas de bebés. Embora os produtos pendurados e dispostos nas bancas tenham cores vivas e chamativas, o local atrai poucos clientes. “Estão a perder-se cada vez mais clientes”, lamentou um negociante em voz baixa e com olhar de desespero.

À TRIBUNA DE MACAU, Yip, vendedor de vestuário para homem há 30 anos, confirmou o cenário cinzento: “não está fácil”. Yip aponta o dedo à expansão da Internet que levou grande parte das pessoas a criar o hábito de comprar roupa online.

Com preços inferiores a 100 patacas, tanto para camisolas como para calças, o comerciante entende que ali se vende a roupa mais barata de Macau.

Os idosos que moram nas imediações são os principais clientes do mercado, ainda que o período festivo do Ano Novo Lunar possa contribuir para uma subida das compras dos clientes chineses. Porém, até agora, a aproximação das festividades ainda não proporcionou sequer um ligeiro aumento nos negócios dos vendedores que ocupam o rés-do-chão do mercado.

“Na Internet há muitas promoções, algumas com muita antecedência, e os filhos gastam muito dinheiro na compra de roupa, antes dos pais se decidirem”, analisa Yip.

Há um ano que a sua banca se mudou para o edifício, o que também afectou as vendas. Quando estava no exterior era mais fácil fazer negócio, porque passavam mais pessoas e algumas acabavam por comprar, mesmo que não fosse essa a sua intenção inicial.

Após se ter instalado Edifício de Vendilhões do Iao Hon, o volume de negócios de Yip caiu cerca de 50%, devido ao impacto da Internet e à evolução das funções dos telemóveis. Mesmo quando esporadicamente a situação melhorou, o lucro máximo apenas atingiu poucos milhares de patacas por mês.

Conforme constatou este jornal, nas tardes dos dias úteis há tão poucos clientes que vários vendedores chegam a adormecer. Os que se mantêm mais “activos” lêem o jornal ou concentram-se nalgum jogo no telemóvel.

Embora alguns vendedores escrevam claramente no papelão que cada camisola custa 19 patacas, a mensagem não vinga e pouco interessa a quem por ali circula, que nem sequer abranda o passo.

Ng, dona de uma banca de camisolas de lã para senhoras, lamentou “a realidade difícil” de ter menos de 10 clientes por dia.

“Normalmente, ganho 300 a 500 patacas por dia”, disse. A idosa que trabalha na banca há 31 anos, salientou que, nos últimos anos, o período do Ano Novo Chinês já não tem estimulado vendas, como acontecia antigamente.

 

Persistir num negócio

para toda a vida

Quando a TRIBUNA DE MACAU se dirige a Cheang, dono da banca de pijamas e roupa interior, encontra-o deprimido, porque até às 16h00, ainda não teve um cliente.

“Muitas pessoas atribuem a culpa da grande queda nas vendas ao desenvolvimento da Internet, mas acho que há causas mais complicadas. É o resultado da evolução da sociedade e não há solução”, referiu, entre suspiros.

Cheang tem mais de 60 anos e não pensa na reforma, porque começou a ser vendilhão há três décadas e não tem planos para abandonar essa actividade. “Não vou desistir de um negócio em que investi toda a minha vida”, frisou.

Para o comerciante, as temperaturas também são um factor importante que influencia as vendas, porque nos dias mais agradáveis, as receitas podem crescer até um pouco mais de mil patacas.

“Nós, vendilhões, somos todos idosos e precisamos de nos sustentar. Se não fizermos isto, também não vamos encontrar um emprego”, acrescentou.

Apesar do decréscimo das vendas, Cheang está satisfeito com a vida actual porque tem o seu próprio negócio, recebe um subsídio de 2.000 patacas por mês do Governo e ainda está isento do pagamento de renda por operação da banca. Além disso, gosta da flexibilidade de que beneficia por ser vendedor de roupa, pois pode fechar a banca sem problemas, quando está doente ou o tempo não ajuda.

A banca de Cheang tem muitos clientes conhecidos, que confiam na qualidade da roupa. “A qualidade dos pijamas que vendo aqui é melhor do que nos supermercados”, garantiu.

Por outro lado, revelou que é prática comum os clientes regatearem os preços. Por exemplo, num conjunto de pijamas vendido por 80 patacas, chegam a pedir 10 patacas de desconto.

Para além deste mercado, existem mais zonas no território onde os cidadãos de idade avançada costumam comprar roupa, nomeadamente nas bancas perto da Rua dos Mercadores e na zona dos Três Candeeiros.