Oitenta idosos que vivem sozinhos na Zona Norte recebem semanalmente alimentos oferecidos pelo “Projecto Agape” da Sociedade de Beneficência Sun Tou Tong, instituição ligada à Igreja Evangélica de Macau. Ao Jornal TRIBUNA DE MACAU, a secretária-geral da instituição explicou que, além do apoio alimentar, esta iniciativa garante um acompanhamento a longo prazo dos idosos. Por outro lado, Kandy Si apela à criação de mais serviços de acompanhamento na consulta médica para famílias com idosos

Na Zona Norte de Macau, 80 idosos financeiramente vulneráveis que vivem sozinhos contam com um plano de apoio designado por “Vegetais de carinho”. Na retina fica a imagem do pastor Leong, também idoso, que arrasta uma caixa de compras para entregar os alimentos ao domicílio.
“O montante que esses alimentos envolvem não é elevado. O mais importante não é oferecer vegetais, mas sim o carinho por detrás desta iniciativa”, sublinha Kandy Si, secretária-geral do “Projecto Agape” da Sociedade de Beneficência Sun Tou Tong de Macau, em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.
Através da angariação de verbas, o “Agape” apoia os trabalhos que as 12 igrejas da Igreja Evangélica de Macau desejam desenvolver. Para Kandy Si, o programa “Vegetais de carinho” é uma das vertentes mais emblemáticas do projecto.
A história nasceu em Setembro de 2021, quando o pastor Leong, da Igreja Evangélica Iao Hon, costumava sentar-se sozinho nos jardins na Zona Norte. “Também conversava com os idosos que encontrava nesses jardins. Assim, o pastor Leong percebeu as necessidades daqueles idosos”, conta Kandy Si.
O pastor constatou que vivem na Zona Norte muitos idosos isolados que “podem não ser tão pobres ao ponto de não conseguirem comprar comida, mas que sentem realmente solidão”. Desse modo, a Igreja Evangélica Iao Hon começou a promover a iniciativa semanal – “Vegetais de carinho”, com um orçamento “não muito elevado”, que consiste na compra de ovos, arroz, óleo ou vegetais. Alguns idosos sem dificuldades de mobilidade optam por se deslocar à igreja para receber os alimentos, enquanto pastores ou Irmãos e Irmãs garantem a entrega aos que têm dificuldades físicas.
Pouco a pouco, com o “Projecto Agape” a assumir o financiamento, o número de beneficiários desse programa subiu de 58 para 80.
Perdeu a memória, mas lembra-se do pastor
Kandy Si contou ainda uma história que a comoveu. “Um idoso, beneficiário desse projecto, foi diagnosticado com demência, esquecendo-se de muitas coisas, incluindo da própria mulher. Mas ainda se lembra do pastor Leong e da igreja”, destaca.
“O pastor Leong também tem uma idade avançada. Dedicou muito tempo para estabelecer contacto com esses idosos. Tinha pensado em bater de porta em porta para descobrir os idosos com necessidades, mas previu uma atitude de resistência entre as pessoas. Actualmente, ainda insiste em comprar vegetais pessoalmente para poder escolher os de boa qualidade. Costuma arrastar uma caixa para fazer essas compras, juntamente com a mulher, que é doente, bem como um idoso com mais de 80 anos, constituindo a nossa equipa de entrega de vegetais”, esclarece.
No ano passado, a instituição transformou a silhueta do pastor, a arrastar uma caixa, num autocolante em estilo de desenho animado, que foi depois colocado na caixa de donativos da instituição. “Produzimos ainda alguns vídeos de pequena duração, interpretados pelos próprios pastores, para os jovens verem”, acrescenta.
Algumas pessoas questionaram membros da instituição sobre a definição de “pessoa necessitada”. “De facto, também não percebemos muito bem”, admite a secretária-geral do “Projecto Agape”. “Mas os pastores ensinam-nos que, embora o montante do apoio não seja elevado, o mais importante é, através desses alimentos, podermos estabelecer contacto e amizade com eles, e acompanhá-los”, acentua.
“Nem todos os idosos vivem sem condições para comprar alimentos, mas eles precisam de ser vistos”, defende Kandy Si, lembrando os “sorrisos” dos idosos quando vão à igreja, “não pelos alimentos gratuitos, mas por verem alguém disposto a falar com eles”.
A Igreja Evangélica Iao Hon também promove, duas vezes por mês, uma actividade de música gospel, convidando idosos a participar, bem como o Domingo do Evangelho realizado mensalmente, altura em que se cozinha para idosos. Por sua vez, a Igreja Evangélica Mennum (ligada à comunidade falante do dialecto Minnan), presta o serviço comunitário “Momentos felizes” na Zona Norte, oferecendo semanalmente almoços e lanches simples a idosos. Este serviço conta normalmente com 30 a 50 idosos participantes.
Questionada sobre a forma como a instituição avalia os projectos como “bem-sucedidos”, a responsável afirma que “somos igrejas, mas não queremos usar a religião como troca”. “É bom eles aceitarem [a religião]. Mesmo em caso contrário, continuaremos a oferecê-los alimentos”, frisa, apontando “os sorrisos dos idosos” como “o maior ganho”.
“Sensação de impotência” vinda de um canto invisível
Para além da entrega de alimentos, Kandy Si revela que “deseja muito” promover um programa para ajudar idosos a arrumar as suas casas, ainda que anteveja “muitas dificuldades”. “Alguns idosos costumam acumular objectos nas casas, que se tornam tão desarrumadas que nem sequer há um caminho e eles próprios só conseguem dormir num espaço muito estreito”, descreve.
A responsável já discutiu o problema com assistentes sociais para tentar perceber os motivos de a sociedade se “preocupar pouco com esta situação”. Os assistentes responderam que “como não há perigo para a vida, isto não é considerado como um trabalho prioritário”.
Além de ter organizado mais de 20 sessões de partilha de técnicas para arrumar a casa, Kandy Si criou uma equipa, que, no entanto, acabou por deixar de promover mais trabalhos relevantes devido à falta de tempo da própria promotora.
“Sinto-me muito impotente. Sei que o ambiente habitacional pode afectar bastante as suas emoções e saúde, e os seus filhos têm também esta sensação de impotência… acredito que isto deverá ser um projecto de longo prazo, muito significativo, mas ao mesmo tempo, muito difícil. Seria bom se mais pessoas pudessem ver [esta necessidade]”, vinca.
Kandy Si já tentou levar crianças a ajudar um idoso a arrumar a casa, nomeadamente a encontrar medicamentos fora do prazo de validade. “Não é uma simples limpeza ou organização de coisas. Antes disso, é necessário conversar com eles para perceber as razões do armazenamento e os poder orientar gradualmente. De facto, alguns idosos gastaram muito dinheiro nas compras por causa da solidão”, aponta.
Sendo também pregadora da Igreja Evangélica Mennum, Kandy Si lançou nesse espaço religioso uma venda solidária de objectos em segunda mão, para o mesmo fim.
O “Projecto Agape” criou ainda o “Fundo em prol do amor”, consciente de que “algumas famílias podem encontrar situações inesperadas, mas têm de esperar algum tempo antes de o Governo aprovar os seus pedidos de subsídio”. “Pretendemos colmatar essa lacuna temporal para que pessoas com dificuldades possam ter apoio durante a espera”, afirma.
No espaço de cinco ou seis anos, o Fundo ajudou mais de 50 famílias. Numa família, há três crianças residentes e a mãe não tem Bilhete de Identidade de Residente porque não foi registado o casamento e o “marido” já faleceu. Este caso gerou discussões na instituição, que acabou por conceder apoio financeiro à família. “O nosso fundo é muito pequeno. Embora tenhamos pensado, se aceitássemos pedidos de trabalhadores não residentes, não conseguiríamos suportar esta carga adicional”, lamenta.
A instituição apoia ainda famílias com crianças com necessidades educativas especiais, incluindo muitas monoparentais. Em específico, as igrejas concedem financiamento para tratamento precoce, reforço de estudos e formações profissionais básicas para as crianças necessitadas. Todavia, só conseguem disponibilizar um número relativamente reduzido de vagas, devido aos recursos limitados.
Na entrevista ao JTM, Kandy Si confessou ainda que tem “muitos sonhos”. “Será que, no futuro, poderemos convidar nutricionistas a ajudar os idosos? Quanto mais desfavorecida for uma família, menos consciente estará sobre a importância de uma alimentação equilibrada. Por outro lado, espero que haja mais serviços de acompanhamento na consulta médica para as famílias com idosos porque existe uma grande necessidade neste aspecto”, defende.
“Além disso, continuaremos a procurar [idosos isolados com necessidades]. O número de 80 de beneficiários [dos ‘Vegetais de carinho’] é muito pouco”, acentua, revelando inclusive que a Igreja Evangélica San Kio, na qual “trabalham muitos jovens”, manifestou igualmente a intenção de lançar o mesmo programa de apoio.



