A Congregação para a Evangelização dos Povos do Vaticano instituiu em Macau o Colégio “Redemptoris Mater” para a formação de sacerdotes, que decorrerá em parceria com a Universidade de São José. Para o padre Luís Sequeira, este Colégio espelha uma tentativa de abertura a outras culturas e permite que missionários levem o conhecimento de Deus a outros países aqui à volta. Já Peter Stilwell encara a iniciativa como uma forma de renovar o clero do território

 

Inês Almeida*

 

Foi oficialmente instituído em Macau o Colégio “Redemptoris Mater” por iniciativa da Congregação para Evangelização dos Povos do Vaticano. O objectivo da instituição é disseminar o catolicismo na Ásia e o Colégio será guiado pelo “caminho neocatecumenal”, itinerário de formação cristã criado em 1964, de acordo com a Agência Fides, do Vaticano.

O Colégio surge depois de ter sido assinado um decreto pelo prefeito da Congregação, Cardeal Fernando Filoni, a 29 de Junho, e deve abrir portas em Setembro com um primeiro núcleo de estudantes provenientes de várias partes do mundo. O Estatuto do Colégio indica que depende directamente da Congregação para Evangelização dos Povos e manterá contacto com o Bispo de Macau, podendo ter secções em outros lugares ou países.

Funcionando como um “seminário maior”, o objectivo será preparar futuros padres para a evangelização na Ásia. “[A escola] é fruto da criatividade apostólica que olha para a evangelização da Ásia e expressa uma vontade de descentralização da congregação”, disse o Cardeal Filoni, que esteve em Macau este ano para “abençoar” as novas instalações da Universidade de São José (USJ).

Esta iniciativa pretende responder ao apelo do Papa João Paulo II que, na Carta Encíclica “Redemptoris missio” indicava a Ásia como uma área “para a qual deveria orientar-se principalmente a missio ad gentes” e ao desejo do Papa Francisco que convidou a Igreja a “sair” sempre para proclamar o Evangelho. Assim, os sacerdotes formados “poderão ser enviados, a juízo do Prefeito da Congregação, às dioceses que solicitarem”, em diferentes territórios e nações asiáticas.

No que respeita à escolha de Macau para instalação do Colégio, Fernando Filoni sublinhou, em entrevista publicada pela Agência Fides e pelo “Osservatore Romano”, que o território representa historicamente “a porta ou uma ponte para a missão da Igreja no Oriente”. “Nos séculos passados, [Macau] foi um lugar de atracção cultural e religiosa, como território governado pela coroa portuguesa. É bem conhecida a sua importância como centro de promoção para a evangelização no Extremo Oriente”, destacou.

Em Macau estiveram missionários como Matteo Ricci, Alessandro Valignano e Francisco Xavier. “Basta pensar que, em 1576, recém-criada, a Diocese de Macau estendia-se, pelo menos no papel, e por um certo tempo, à China, ao Japão, ao Vietname e ao arquipélago Malaio, como era chamado”, refere a agência Fides, sublinhando que “Macau tornou-se assim um grande centro de formação e propulsão missionária”.

Esta vocação hoje é necessária até para renovar o Clero da RAEM, acredita o reitor da USJ. “Soube que iria ser montada aqui uma escola e que os alunos viriam para a nossa Faculdade de Estudos da Religião. Penso que estão orientados alguns alunos para vir em Setembro. A ideia é trazer alunos que já estavam em seminários noutros pontos”, explicou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU. Assim, este colégio funcionará com pessoas em diferentes fases da sua formação.

Esta aprendizagem tem duas vertentes: uma intelectual e outra espiritual e pastoral, que é a fase em que os candidatos a padres aprendem a trabalhar nas paróquias. “O que vai acontecer é que esse seminário encarrega-se da parte espiritual e pastoral e da ligação com a Diocese, e os alunos frequentam a Universidade como quaisquer outros”, referiu Peter Stilwell.

A formação para padre abrange cinco anos de formação académica e um ano pastoral. “Hoje em dia, a Santa Sé pede que as Dioceses façam uma espécie de ano propedêutico, de formação espiritual, para que os que batem à porta dos seminários possam perceber se é mesmo isso que querem”. Os cinco anos de formação académica dividem-se em dois de Filosofia e Línguas e três focados na Teologia.

Segundo Peter Stilwell, o primeiro grupo deve ser composto por “seis ou oito alunos”. “Faz sentido. Abrir uma casa com menos que esse número depois torna-se penoso para os que lá estão. Se forem só dois ou três, depois há um que acha que já não tem vocação e sai, ficam só dois”.

Questionado sobre o impacto do novo Colégio na presença da Igreja Católica em Macau, Peter Stilwell foca-se na questão da renovação de gerações no clero. “Com a acção do Bispo tem havido um aumento do número de alunos que frequentam o novo seminário, mas são cinco ou seis. Quantos deles irão chegar até ao fim não se sabe, portanto, ao olharmos para a história de Macau, há muitos anos que não havia vocações ou gente a formar-se em Teologia para ser padre em Macau. Havia um problema de envelhecimento do clero existente e não havia clero novo para substituir”. O novo Colégio vem suprir essas necessidades da Diocese até porque ela “é pequena”, destacou Peter Stilwell.

 

Abertura a outras culturas

Para o padre Luís Sequeira, a abertura do Colégio é um passo em frente ao nível da abertura a outras culturas. “Este é um seminário internacional, chamado Colégio, ligado à Congregação para a Evangelização dos Povos, numa tentativa, mais uma vez, de abertura a outras culturas e outros países e no sentido de ter missionários nesta zona que possam exercer o seu trabalho, tendo em conta que Macau foi sempre essa plataforma de formação e de partida e chegada de missionários”, frisou o sacerdote em declarações ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

O objectivo é pegar numa ideia passada e dar-lhe um toque mais presente”, em particular devido à influência do movimento a que se chama “caminho neocatecumenal” e que tem “esta força de carisma muito particular, de estar aberto a todos os povos e culturas”.

O sacerdote foi chamado para ajudar na formação espiritual do grupo de futuros padres que chegará a Macau. “Em Setembro, depois de uma grande assembleia de jovens, alguns virão para Macau”, indicou, explicando que a formação espiritual passa por acompanhar os jovens que vão chegar. “No seminário, muitos jesuítas não foram só professores mas também directores espirituais, que são aqueles que acompanham mais a formação interior das pessoas. As pessoas responsáveis perguntaram se podia ajudar nessa formação mais espiritual, interior”, indicou Luís Sequeira.

Questionado sobre o efeito que o novo Colégio poderá ter na presença da Igreja em Macau, o sacerdote frisou que a nova instituição “é uma sementezinha de algo que sempre a Diocese de Macau teve”. “Não esquecer que a Diocese de Macau foi a Diocese-mãe de centenas de outras no Oriente. Portanto, nesse sentido, é um sinal de vitalidade de Macau na sua colaboração com a evangelização e conhecimento de Deus nestas terras”, apontou o sacerdote.

Já no que respeita às relações entre a China e o Vaticano, embora haja uma abertura tanto da estrutura e vida da comunidade cristã na China como a outros povos, “é preciso as coisas serem entendidas de parte a parte”. “Há necessidade de tempo para as coisas amadurecerem”, acredita o padre Luís Sequeira.

O Jornal TRIBUNA DE MACAU tentou ainda obter uma reacção do Bispo, D. Stephen Lee, porém, sem sucesso até ao fecho desta edição.

 

*com Agências