Os “Dóci Papiaçám di Macau” vão apresentar nos dias 19 e 20 de Maio, no Festival de Artes, uma peça de teatro que tem como objectivo mudar perspectivas sobre a gastronomia macaense, por norma vista apenas como caseira. “Qui di tacho?” conta a história de um jovem “chef” formado na Suíça convidado para trabalhar num restaurante que é propriedade de chineses do Continente que pretendem ter comida que se adapte “a todos os gostos”, incluindo gastronomia macaense ligeiramente alterada, revelou Miguel de Senna Fernandes à TRIBUNA DE MACAU
Inês Almeida
Depois de a RAEM ter sido integrada na Rede de Cidades Criativas da UNESCO no ramo da gastronomia, Miguel de Senna Fernandes entende que é “muito necessário ver o estado da própria gastronomia macaense porque ela é, de facto, a principal gastronomia a fazer com que Macau seja agraciado com este título”. Assim sendo, o papel e o modo como são vistas as iguarias típicas de Macau estarão no centro da peça deste ano dos “Dóci Papiaçám di Macau” no Festival de Artes, avançou Miguel de Senna Fernandes em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Em “Qui di tacho?”, em português “que é do tacho?”, “um jovem chef, Tuto, formado na Suíça é chamado para desempenhar funções num restaurante de Macau que é propriedade de um grupo de chineses do Continente que pretendem ter comida que se adapte a todos os gostos”. “É fundamental que haja um pouco de comida macaense, mas como eles gostam, não como a verdadeira. O jovem a princípio julgava ter a oportunidade de criar mas, afinal de contas, não cria coisa nenhuma e começa a sentir a necessidade de defender a sua própria gastronomia”, explicou o encenador.
A personagem principal é interpretada por Vítor Borges Lau, “um promissor actor”, que já antes trabalhou com o grupo. Os ensaios para o espectáculo que subirá ao palco nos dias 19 e 20 de Maio começaram ontem à noite. “Os ensaios começam esta noite [ontem]. Vamos fazer a primeira leitura”.
Miguel de Senna Fernandes espera que as pessoas gostem do espectáculo e que “toque a comunidade em relação a uma coisa aparentemente lúdica, leve, que é a própria gastronomia, mas que leve a que reflictam sobre a necessidade de levar as coisas macaenses com mais seriedade”.
“Quando falamos de gastronomia não podemos ter aquela imagem das velhas cozinheiras, com todo o respeito que merecem. Apostamos muito na nova geração. A verdade é que parte da nova geração de pessoas que vão para fora estudar e se tornam chefs, não quero generalizar, mas estão indiferentes em relação à sua própria gastronomia, têm uma atitude de condescendência e um certo paternalismo em relação à gastronomia macaense dizendo que é uma coisa de casa que não tem condições para ser apresentada numa mesa gourmet”.
Além disso, indicou Miguel de Senna Fernandes, a profissão de “chef” ganhou um certo estatuto. No entanto, no mundo existe mais que os “chefs” reconhecidos como Jamie Oliver ou Gordon Ramsay. “Nem todos aparecem naqueles concursos de culinária. O mundo não é isso”.
Nesse sentido, “é fundamental” que os jovens “vejam com outros olhos a sua própria gastronomia porque a gastronomia macaense terá o seu futuro e certamente vencerá em termos de sabor quando comparada a muitas”.
Assim, a peça é também uma chamada de atenção pois “há muitos jovens que sabem cozinhar, cozinham tão bem como os pais e os avós, mas alguns desprezam a sua própria gastronomia”. “Até podem comer, mas é uma coisa de casa e não se dá muita importância. É justamente nesta atitude de não se dar muita importância que está o perigo”, frisou Miguel de Senna Fernandes.
Este ano os “Dóci Papiaçám di Macau” comemoram 25 anos e esta é a 20ª participação no Festival de Artes de Macau.



