A Feira Internacional de Macau e a Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa continuam a atrair empresários portugueses que procuram não apenas oportunidades de dar a conhecer os produtos que comercializam como também encontrar parceiros que potenciem outro tipo de negócio, em Macau, Hong Kong e na China

 

Inês Almeida

 

Até amanhã, são cerca de 1.000 as empresas e instituições expositoras que ocupam os 24.000 metros quadrados destinados à Feira Internacional de Macau (MIF, na sigla inglesa) e à Exposição de Produtos e Serviços dos Países de Língua Portuguesa (PLPEX). Entre as companhias vindas de Portugal, o entusiasmo é geral, quer entre estreantes quer entre quem já conhece os cantos à casa.

O CEO da Casa Angola Internacional já marca presença no evento há mais de uma década. “Voltamos sempre com coisas novas. Começámos a desenvolver no início do ano um projecto de fumeiro tradicional. Ou seja, fomos buscar aquele produto regional português em que o pequeno produtor vende normalmente na sua área de residência e esse ‘know how’ e começámos a ajudar os pequenos produtores a exportar”, destacou Rui Moreira em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

O mercado do território é explorado pela empresa já há algum tempo e a preocupação é sempre perceber “o que faz falta”. “Esse é sempre o nosso objectivo, analisarmos como está o mercado em Macau e quais são as potencialidades para outros produtos portugueses”, apontou.

Foi depois de quatro participações que a empresa de Rui Moreira conseguiu estabelecer uma parceria com um importador local que gere supermercados. “Trabalhamos com ele e o nosso objectivo é desenvolver cada vez mais essa dinâmica dos produtos portugueses que ele tem no supermercado, sobretudo dando o produto a degustar, quer a residentes, quer a potenciais visitantes da China porque muitas vezes não compram porque não conhecem”.

Rui Moreira, CEO da Casa Angola Internacional

“A principal preocupação é dar o produto a conhecer, a provar, para perceberem o que é e poderem comprar se gostarem. De outra forma, o produto ia estar lá na prateleira, ia ter um mercado muito limitado. Assim, conseguimos dar o produto a degustar e abranger um mercado muito melhor”, sustentou Rui Moreira.

Chegar ao mercado da China Continental é um dos objectivos da Casa Angola Internacional, no entanto, ressalva Rui Moreira, “por norma, o visitante chinês não é importador”. “É um curioso dos produtos portugueses, um potencial comprador como consumidor, mas ainda não encontramos um potencial importador”.

Também Pepe Moura espera reforçar os contactos com a China Continental. É a segunda vez que o CEO da “Status Brand Events” participa no evento. “Estamos neste projecto de internacionalização do Portugal 2020, em que esta é uma das feiras que estrategicamente nos interessa estar presentes para captar também investimento, não só de Portugal mas do resto da Europa, na área dos eventos que é muito diversa. Macau, apesar de ainda ter uma ligação grande a Portugal pertence à China, mas é sempre um bom veículo de entrada no mercado chinês”, salientou.

Nesse sentido, nesta segunda participação no evento, Pepe Moura pretende “solidificar alguns contactos feitos na primeira, porque apesar de Macau ter uma ligação grande a Portugal, há uma grande distância”. “O mundo está mais próximo mas, ao mesmo tempo, também são países que têm alguma distância. Para os negócios se concretizarem tem de haver mais do que um primeiro contacto. Portanto, estamos cá pelo segundo ano para solidificar os negócios com Macau e com a China”, sublinhou Pepe Moura.

 

Novos clientes

A “Branco Carvalho Neto” é presença já assídua. Este ano, como nas edições anteriores, “apresenta as várias marcas que representa a nível de vinhos, queijos, licores, gins, enchidos, chocolates, inclusive a marca mais antiga de chocolate de Portugal, biscoitos, patés, uma grande fama de produtos portugueses de alta qualidade a preços bastantes competitivos no mercado”, explicou Ana Courela, representante da empresa.

“A nossa procura passa muito por novos clientes, novos parceiros que queiram promover a marca noutros países de forma a expandir. A ideia é cada vez mais ir para novos países e novos mercados. Sabemos que Macau e este tipo de eventos nos ajuda a chegar a outro tipo de mercados, não só a Macau à China e a Hong Kong. Abre bastantes portas”, acrescentou Ana Courela.

Pepe Moura, CEO da “Status Brand Events”

Embora ontem ao início da tarde fosse cedo para falar de receptividade aos produtos, Ana Courela demonstrava um espírito optimista. “As pessoas estão interessadas, curiosas sobre o produto, querem saber mais sobre onde ele veio, sobre a história, e acho que isso é bom em termos de promoção dos produtos”. “Estamos no primeiro dia de feira, esperemos que continue igual ou melhor, tanto em termos de clientes como de parceiros que possam eventualmente surgir”.

Sandra Almeida está em Macau pela primeira vez com intenções semelhantes. “Viemos experienciar e tentar perceber o que é que podemos trazer para Macau e o que Macau pode também procurar. Viemos apresentar frutas desidratadas 100% naturais. Somos do Oeste de Portugal e temos frutas e legumes desidratados, sem adição de açúcar, e viemos apresentar ao mercado produtos com texturas e sabores que conseguem mesmo ir à realidade tanto da pêra, como da maçã ou do dióspiro, portanto, trazer os autênticos sabor da fruta”, explicou à TRIBUNA DE MACAU a representante da empresa “Desidrata”.

“Este tipo de produto tem a oportunidade de ter vários segmentos de mercado, nomeadamente o ‘grab and go’, que é de levar, mesmo a nível de ‘catering’, tanto nos hotéis como nos restaurantes, ou até como presente”.

A vinda para Macau foi também vista como um modo de conquistar o “gigante” que é a China. “Muitas vezes vemos a China como um bicho demasiado grande para alcançar, contudo, achámos que Macau seria uma óptima porta de entrada para percebermos até que ponto pode ser interessante e qual é a validação dada aos próprios produtos”, indicou Sandra Almeida.

Em Maio, representantes da empresa estiveram um mês em Xangai. “São coisas diferentes mas já há um trabalho de casa desde então. Não viemos às escuras, mas há sempre muita coisa para aprender”, defendeu a representante da “Desidrata” quando questionada sobre se tinha sido feito algum estudo de mercado anterior à vinda.

Ana Courela, da “Branco Carvalho Neto”

De qualquer modo, garante, as expectativas para o evento “são sempre boas”. “O objectivo é encontrar distribuidores que possam pegar nestes produtos de forma a, pelo menos, deixar aqui a marca em Macau”.

A “Meethink” também se estreou este ano no evento. “Não tínhamos contacto com o mercado do Oriente e, dado que a nossa empresa faz ‘business development’ para empresas portuguesas, ou seja, estruturamos toda a internacionalização para as empresas portuguesas, resolvemos convidar um conjunto de parceiros para estarem connosco, neste caso, três empresas. Esperamos conseguir alguns contactos para negócios no futuro”, sublinhou o sócio-gerente da companhia.

Assim, em Macau marcam presença “uma empresa que produz enchidos tradicionais, de Abrantes, que é a ‘Margaridos’ temos outra que produz acessórios de moda em cortiça, a ‘Montado’, e temos uma imobiliária do Algarve com um produto específico para investidores internacionais no mercado imobiliário em Portugal”, explicou Carlos Silva.

Com a participação esperam “encontrar investidores, distribuidores e importadores para os produtos”. “Estamos numa função um bocadinho diversa, mas o objectivo é encontrar negócio para cada uma das empresas que trouxemos”.

 

Material didáctico e empresas de mudanças

De Portugal vieram também oito empresas unidas numa única delegação liderada por Guilherme Marques. As companhias inserem-se nos mais diversos sectores, desde os serviços às tecnologias e à consultoria na área farmacêutica. No entanto, há “três situações especiais”. Uma delas já marcou presença na MIF no ano passado.

“Temos o caso de uma empresa que se chama estúdio didáctico que tem uma caneta que faz leitura num livro pré-produzido e depois emite sons. Já participaram no ano passado. É um produto muito direccionado para países de expressão portuguesa porque o produto está a fazer a leitura em Português e, à partida, é um produto que tem tido sucesso no mercado por ser uma boa experiência para ensinar as crianças nos primeiros passos da leitura e da dicção”, explicou Guilherme Marques à TRIBUNA DE MACAU.

A empresa comercializa já em Portugal um atlas que posteriormente chegará aos mercados internacionais. “É um globo que também faz a leitura e explica a parte geográfica dos países e da geografia humana, fazendo uma descrição de vários países. Estamos a falar de um produto que tem tido grande aceitação e o mercado de Macau recebeu com muito entusiasmo o produto do ano passado”. Guilherme Marques assegura que já estão a decorrer negociações no sentido de trazer o produto para a RAEM.

Na MIF está também uma empresa semelhante à “Uber” mas para serviços de transportes de mercadorias. Assim, numa plataforma é destacada a disponibilidade de carga de determinados meios de transporte e é possível fazer uma pesquisa dos serviços disponíveis e preços. “É uma plataforma que vai funcionar, à partida, em ‘tablet’ e ‘smartphone’ e que vai permitir às pessoas procurarem soluções para transportar as mercadorias”.

Sandra Almeida, da “Desidrata”

Este género de serviço “já está a funcionar muito bem em França” e começa a dar os primeiros passos em Portugal. “É um projecto muito interessante e, de facto, eles estão disponíveis para criar uma parceria ou para, efectivamente, transporem o ‘know how’ deles para um parceiro tecnológico para se fazer a implementação neste triângulo Hong Kong-Macau-China, porque Macau é o centro de todo este triângulo que é importante para este tipo de produtos”.

Há ainda uma empresa ligada ao ramo da alimentação saudável que “está a produzir produtos de origem biológica para comercializar” no mercado da região, nomeadamente produtos com características que apelam a quem “olha muito para as questões da saúde”.

Todas estas empresas estão sobretudo à procura de mercado e de uma parceira com alguém nesta zona do globo ou da oportunidade de apresentar os produtos directamente ao consumidor. “Esta feira tem-se mostrado interessante porque aparecem alguns clientes finais e que aproximam o produtor do consumidor final”.

As expectativas para os dois restantes dias do evento “são bastante grandes” uma vez que “é uma feira com dimensão”. “Hoje [ontem] é o primeiro dia. Os primeiros dias nunca têm sido muito fortes porque há a cerimónia de abertura e algumas conferências paralelas que têm tirado algumas pessoas da área de exposição, mas há uma grande expectativa em relação aos dois próximos dias porque as próprias representações dos vários países têm trazido um grande volume de interacção entre pessoas para o espaço de exposição”, sublinhou Guilherme Marques.