O trânsito é um dos maiores problemas da RAEM moderna, fomentado pelo acréscimo de 111% entre 2000 e 2018 no número de viaturas num território limitado geograficamente. Em 19 anos, a região conta com mais uma travessia sobre o rio, um novo e mega terminal de passageiros, no entanto do Metro Ligeiro apenas as estações e os testes das carruagens são uma realidade. Para Vizeu Pinheiro, o território está a “rebentar pelas costuras”, são necessários corredores pedonais, vias exclusivas de autocarros e a adopção de autocarros eléctricos. Além disso, sugere uma ligação do comboio rápido de Zhuhai ao COTAI para desviar os turistas directamente para aquela zona. Por sua vez, Wong Seng Fat defende que deveria haver uma aposta séria em sistemas de gestão inteligente do trânsito, de forma a prever pontos críticos. A seu ver, o Governo tem de ser mais activo e criar quotas de autocarros turísticos que passam nas Portas do Cerco

 

Liane Ferreira

 

Muito mudou em Macau em 19 anos. O trânsito passou a ser uma preocupação para a população e, independentemente de se andar de carro ou transportes públicos, é quase impossível não apanhar um engarrafamento durante o dia. Para tal, contribui o aumento do número de veículos, que mais do que duplicaram, quando apenas existem mais 52 quilómetros de vias públicas (325,3km).

Em 2000, Macau contava com 113.067 veículos e no final do terceiro trimestre deste ano com 238.792, o que representa um acréscimo de 111,2%. É de referir que 2016 foi o ano em que mais veículos circulavam nas estradas locais, 250.450, no entanto desde aí, verificou-se um decréscimo de 3,53% em 2017, para 241.611, o equivalente a menos 8.839 viaturas. Essa foi a primeira vez na história da RAEM que se registou um decréscimo neste campo, algo que deverá repetir-se este ano.

Para um território com a dimensão de Macau e onde a velocidade média é baixa, é relevante referir que no primeiro ano da RAEM existiam 82 automóveis com cilindrada entre 6001 centímetros cúbicos (CC) e mais de 8001CC, número que subiu para 230, no final de 2017. Carros destas cilindradas são por exemplo o Rolls Royce Phantom, conhecido por pertencer à frota do Hotel 13 e que tem um motor de 6.749 CC.

 

 

19 anos sem Metro

Conta o Livro do Ano do início da era da RAEM que as vias públicas tinham um comprimento total de 273,3 quilómetros. Passados 19 anos, tem mais 52 quilómetros de vias públicas e a extensão da rede rodoviária ganhou 94,4 quilómetros até ao final de 2017, a adicionar aos 333,1 quilómetros existentes até então.

No ano de 2000, o território tinha apenas duas pontes a ligar a Península à Taipa: a Nobre de Carvalho e a da Amizade. A Ponte Flor de Lótus, um investimento conjunto de Macau e Zhuhai, foi inaugurada em Março de 2000. Já a primeira pedra da Ponte de Sai Van só seria lançada a 7 de Outubro de 2002 e a obra inaugurada a 19 de Dezembro de 2004, pelo Presidente Hu Jintao. Em Outubro deste ano, foi inaugurada a maior de todas as pontes, ligando Hong Kong, Zhuhai e Macau.

Actualmente, discute-se a construção de uma quarta ponte a ligar a Taipa e os novos aterros da zona A, bem como um túnel subaquático. Estas obras juntamente com o desenvolvimento da construção nos aterros prometem mais uma vez transfigurar a paisagem de Macau.

No entanto, o que os anos 2000 e 2018 têm em comum é a ausência do sistema de Metro Ligeiro. Embora sob a tutela do Secretário para as Obras Públicas e Transportes, Raimundo do Rosário, o projecto tenha sofrido avanços, continua a não estar em circulação, embora o Governo espere inaugurar a Linha da Taipa em 2019. Das despesas iniciais previstas de 4.120 milhões, o montante subiu para 16,4 mil milhões e ainda não se sabe o futuro da linha na Península. Esta obra tornou-se numa das maiores “pedras no sapato” do Executivo anterior, do actual e do próximo.

 

Por terra e por mar

Em termos de transportes públicos, a Sociedade de Transportes Colectivos de Macau (TCM) tinha no início da RAEM 210 autocarros e a Transportes Urbanos de Macau (Transmac) 334, totalizando 544 autocarros públicos. Ambas, mantêm-se actualmente e a TCM até absorveu a Nova Era este Verão, contabilizando-se até final de Setembro deste ano 910 autocarros públicos, mais 366 do que há 19 anos.

No que diz respeito aos passageiros de autocarros, no final de 2017, tinham sido transportados 210,8 milhões, quando em 2001 as duas empresas serviram um total de 77,6 milhões de pessoas, equivalente a mais 133,2 milhões de passageiros.

Relativamente aos táxis, no final de 2001, havia em Macau 650 “normais”, 100 rádio-táxis amarelos e 5.953 condutores com licença. Face à realidade actual, não é de estranhar que existam 1.491 táxis, 91 especiais e 17.589 taxistas, mais 195% do que em 2011.

Quando a RAEM tinha acabado de se formar, existiam dois terminais marítimos: o de Passageiros do Porto Exterior e Yuet Tung do Porto Interior com transportes para Hong Kong e para a China. O movimento entre as RAE envolveu então 68.281 embarcações.

Em 2018, as águas são mais movimentadas, pois o território conta com o novo terminal de passageiros da Taipa, os 16 cais de embarque e múltiplos destinos: Hong Kong (Sheung Wan, Tuen Mun, Tsim Sha Tsui e Aeroporto Internacional de Hong Kong) Fuyong e Shekou (Shenzheng) e Jiangmen.

No ano passado, 113.378 embarcações circularam entre Macau e Hong Kong e outras 25.508 entre o Interior da China a RAEM.

Apesar de, por vezes, ficarem no esquecimento, as Oficinas Navais continuam em funcionamento. Aliás, no ano transacto construíram seis embarcações para o Governo e concluíram trabalhos de manutenção em 388.

 

Aeroporto cada vez mais internacional

Outra infra-estrutura de transporte alvo de rápido crescimento é o Aeroporto Internacional de Macau. Se em 2000 recebeu 3,8 milhões de passageiros, no final de 2017 contavam-se 7,16 milhões, e as estimativas oficiais apontam para mais de oito milhões este ano.

Para além disso, o número de voos comerciais subiu de 24.334 em 2000 para 54.842 em 2017.

A companhia aérea de bandeira da RAEM, a Air Macau, passou também dos 8 aviões e 14 destinos para 17 aeronaves e 26 destinos. Mantêm-se apenas uma empresa de transporte de helicópteros e outra de aviação privada, tendo saído a Jet Asia Limited para dar lugar à Companhia de Transportes Aéreos de Comércio Internacional.

A Autoridade de Aviação Civil emitiu licenças para um total de 121 pilotos em 2000 e 208 no ano passado.

 

Sistema no limite

“Ainda há muito para fazer, Macau está a rebentar pelas costuras”, começa por dizer Vizeu Pinheiro à TRIBUNA DE MACAU, notando serem necessários lugares de estacionamento. Para este problema, sugere a construção de parques debaixo dos lagos e do reservatório.

Além disso, “é preciso realmente apostar no monorail ou numa solução, já que nestes anos não avançou e é um grande fracasso em termos de planeamento de transportes”.

Por considerar que a eficácia do projecto poderá ser reduzida, tendo em conta que o estudo prévio é de 2003 e as obras começaram em 2011, o arquitecto recomenda que se pensem em alternativas, como trazer o comboio rápido de Zhuhai directamente para o COTAI. Tal iria evitar os engarrafamentos na zona norte e nessa linha do território. “Assumindo que os transportes de massa são para turistas isso já ia libertar imensos autocarros de turismo que são mais do que os transportes públicos”, salientou.

O arquitecto recomenda a criação de “zonas pedonais porque a única maneira de ter tantos turistas e cidadãos a andar nas ruas de Macau é com corredores pedonais agradáveis com protecção da chuva”. “Parece ser incompatível [com Macau], mas não é. Há espaço para isso”, destacou.

Alargar ainda mais a circulação de carros de Macau à Ilha da Montanha também seria útil para aumentar o território.

A seu ver, “os transportes públicos funcionam, só precisam de reforços e de ter mais faixas exclusivas, como há na Barra”. Mas, a frota devia ser substituída por autocarros eléctricos, como em Zhuhai e Shenzhen, sendo uma grande ajuda para o meio ambiente. Daí que, os carros provados também deveriam ser eléctricos.

 

Governo tem de ser mais activo

Em declarações a este jornal, Wong Seng Fat, vice-presidente do Conselho Consultivo do Trânsito, apontou que o plano inicial previa a conclusão da obra de construção do Metro Ligeiro, em 2005, de modo a responder à procura gerada pelos Jogos da Ásia Oriental. “Se este plano fosse concretizado, a Macau de hoje, uma cidade internacional, enfrentaria pouca pressão de trânsito”, disse.

“Acredito que apesar de ter provocado muita polémica, o sistema do Metro Ligeiro tem de ter ligação entre a Barra e a Taipa e a ligação entre as Portas do Cerco e as imediações do Terminal do Pac On”, adiantou.

Olhando para o passado, afirmou que “desde a liberalização do jogo, a construção de hotéis de grande dimensão deu azo ao aumento exponencial de visitantes e trabalhadores não residentes, que as instalações de trânsito nunca conseguem dar resposta”. Notando que apesar de haver uma fronteira perto do COTAI, os turistas continuam a preferir as Portas do Cerco, salientou que essa situação conduziu à elevada circulação de “shuttle-bus” e autocarros.

Para o mesmo responsável, devem ser construídas mais instalações de tráfego tridimensional para substituir as rotundas, que já não são suficientes.

“No futuro, o sector do jogo vai ser cada vez mais diversificado e muitos hotéis vão abrir parques temáticos. Os elementos turísticos vão aumentar também, mas mesmo com a melhoria das instalações e a recolha de dados com base no projecto de cidade inteligente, o efeito não será ideal”, concluiu, referindo que o sistema inteligente tem de avançar, mas trata-se “sobretudo de uma medida passiva”.

Wong Seng Fat considera que o “Governo tem de tomar mais iniciativa, por exemplo, depois de prever o grande aumento no volume de veículos daqui a um mês numa certa zona, para poder fixar uma medida temporária de proibição da circulação de veículos ligeiros e autocarros turísticos na zona”.

Além disso, destaca que o Executivo precisa de dedicar muitos esforços à comunicação com o sector do turismo da China Continental. Segundo sugeriu, poderia ser limitado o número de autocarros turísticos que usam a fronteira das Portas do Cerco diariamente, concedendo quotas limitadas.

“Em relação às políticas de trânsito nos passados 19 anos, acho que os Serviços para os Assuntos de Tráfego já tentaram o possível. Mas têm sido muito passivas, porque não existem as instalações devidas. Esta parte cabe à Obras Públicas e ao Gabinete de Desenvolvimento de Infra-estruturas. Os três organismo têm de reforçar a colaboração no futuro. Além disso, o Governo deve dedicar-se mais ao aproveitamento da cidade inteligente”, destacou.

Em termos de sistema pedonal, foi categórico ao dizer que tem de ser melhorado. “Antes de 1999, as pessoas costumavam caminhar pela cidade, porém, hoje em dia, andam sempre de autocarro mesmo que a distância seja muito pequena”, declarou.

Por outro lado, chamou a atenção aos cidadãos e aos sectores ligados aos transportes para colaborarem mais com as autoridades.