Equipa de Macau integrou dois estilistas e professores
Equipa de Macau integrou dois estilistas e professores

O sector da moda local está apenas a dar os primeiros passos, por isso, há muito espaço para aprender e crescer. Como muitos outros em Macau, enfrenta problemas que incluem a falta de mão-de-obra, desde costureiros a assistentes, apontou a vice-directora geral do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia, à margem de um desfile em Hong Kong, onde dois graduados do programa de design de moda apresentaram as suas criações. Mickey Che e Jack Lin admitem não ter ainda noção dos desafios que terão de enfrentar, mas estão determinados em investir neste sonho

 

Inês Almeida*

Em Hong Kong

 

Holofotes acesos, câmaras apontadas, dezenas de pessoas à volta de uma pequena “passerelle” no Centro de Convenções e Exposições de Hong Kong e a música que marcou o passo das 10 modelos que deram o mote para o início do desfile do “MaConsef”, o programa de incubação na área da moda do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau (CPTTM).

Mickey Che e Jack Lin são recém-graduados do programa de moda do CPTTM

Durante cerca de 15 minutos, modelos apresentaram conjuntos que os estilistas pretendiam que fossem arrojados, com formas diferentes, ainda que em tons sóbrios: preto, branco, cinzento. A indumentária contrastava com os sapatos, quase sempre prateados brilhantes.

As peças foram criadas por dois graduados do programa do CPTTM, Mickey Che e Jack Lin, que no desfile de final de ano, ainda em Macau, se distinguiram de todos os colegas. A colecção de Mickey Lee, “Men in Blue”, venceu um prémio de “Tendências”. Já a de Jack Lin, “Future”, recebeu o Prémio de Excelência Académica e foi a vencedora do desfile de graduação. Para a vice-directora geral do CPTTM, os estudantes seleccionados para apresentar as peças em Hong Kong são exemplos de que a indústria da moda em Macau está no bom caminho, embora ainda numa fase inicial.

“Estamos apenas a começar a amadurecer. Temos muito para aprender e crescer. Como se pode ver pelo desfile, pelas peças, design, coordenação, [os designers] são muito bons. São apenas jovens de um projecto de incubação, por isso, é possível perceber que ainda há um longo caminho a percorrer”, frisou a vice-directora geral do CPTTM em declarações à TRIBUNA DE MACAU.

Ao nível da indústria da moda, como noutro tipo de pequenas e médias empresas, “há desafios devido à falta de trabalhadores”. “É difícil encontrar mão-de-obra para as empresas como costureiros e até assistentes. A maioria dos designers tem de tratar também da burocracia, logística e das questões ligadas ao Governo. Outros desafios prendem-se com o facto de terem de procurar muito para encontrar bons costureiros para colaborar com eles e transformar o desenho numa peça de roupa”, explicou Victoria Kuan.

Porém, ressalva, “este não é apenas um desafio em Macau”. A situação é igual em todo o mundo. “Qualquer designer tem de encarar todos estes desafios”.

No essencial, acredita a vice-directora, é preciso “ter uma boa gestão de tempo, ser consistente na crença e trabalhar muito, mesmo com ajuda”. “Digo sempre aos nossos colegas que é preciso deixar o designer concentrar-se no design, na inspiração, e nós ajudamos no que pudermos em termos de preparação de actividades, envolvimento em eventos de moda e outras actividades no exterior ou burocracia”.

Durante o curso, os jovens aprendem sobre criação de padrões, costura, negócios ligados ao sector da moda. Então, têm de criar uma colecção com cinco peças e no desfile de graduação há uma competição. Os melhor classificados são convidados a participar no projecto de incubação.

Dez estudantes concluíram a última edição do curso de “Design e Criação de Moda”. Ao longo dos seus 15 anos de existência contam-se entre 200 e 300 graduados.

Para Victoria Kuan, “é óbvio que o ambiente em Macau está melhor”. “O Governo tem promovido muito as indústrias criativas e temos o Festival de Moda de Macau há oito anos consecutivos na Feira Internacional de Macau. É uma plataforma muito boa para os designers locais se mostrarem”.

Além disso, salienta que o CPTTM costuma levar designers a feiras de moda no exterior. “Por exemplo, daqui a dois meses, também neste local [Centro de Convenções de Hong Kong], 12 designers de Macau vão mostrar o seu trabalho numa das mais famosas plataformas de design de moda ao nível da Ásia”. “Com todas estas oportunidades, as pessoas de Macau confiam nesta carreira e vão trabalhar muito no design de moda, o que é muito interessante”.

 

10 anos de incubação

O projecto de incubação de moda do CPTTM nasceu há 10 anos da intenção de dar aos estudantes a oportunidade de participar em desfiles, uma vez que após a graduação “estão um bocadinho perdidos até que possam começar o seu negócio”. “Damos-lhes uma plataforma, oportunidades de desenhar, procurar tecidos, oficinas, e guiamo-los no processo de criação de uma colecção”, referiu Victoria Kuan, acrescentando que as colecções apresentadas em Hong Kong demoraram cerca de 10 meses a ficar concluídas.

Este ano, o projecto de incubação do CPTTM levou a Hong Kong Jack Lin e Mickey Che que se juntaram para mostrar uma colecção de 10 peças e asseguram que querem continuar a trabalhar na área.

“Comecei a estudar na parte dos media, mas fui inspirado pela minha mãe porque ainda hoje é costureira. Ela influenciou-me muito nessa parte da costura”, contou Jack Lin à TRIBUNA DE MACAU. “Depois, tirei o curso de design no CPTTM e comecei a gostar mais deste tipo de trabalho. Mesmo antes já estava muito entusiasmado com a parte do design”.

No entanto, admitiu, logo durante o curso apercebeu-se de que o trabalho na área da moda “não era tão fácil como estava a pensar”. “É um processo que tem muitas fases e problemas que é preciso ultrapassar, com os professores e colegas”.

“O que penso em criar e o trabalho real é completamente diferente”, reconheceu, apontando este fenómeno também como uma dificuldade. “O desenho que crio e a peça já completa são totalmente diferentes. Uma coisa é desenhar, outra é concretizar o trabalho e ter uma peça que seja possível vestir. Não é só fazer um desenho. É preciso não parar de experimentar, mudar, para que o produto final possa ser usado”, frisou Jack Lin.

 

Investimento no design

Entretanto, o jovem abandonou o trabalho a tempo inteiro ligado aos media e concentrou-se apenas nos estudos e no design. Agora que terminou o curso diz-se “muito contente” e assegura que vai continuar “a lutar e a descobrir mais sobre o design”.

O projecto apresentado em Hong Kong juntou-o a Mickey Che cujo interesse pela moda surgiu do incentivo de uma professora. “Quando comecei a desenhar fiz desenhos de roupa, gostei, inscrevi-me no curso, comecei a ter mais interesse na moda e continuei”, explicou.

“O projecto é dos dois. Combinámos, pensámos, estudámos, reunimos com os professores e criámos estas peças. Entre quase 10 temas em que pensámos, escolhemos este”, explicou Jack Lin. Escolher o tecido a usar para a criação das peças também não foi fácil. Os designers locais acabaram por optar por um material habitualmente usado para fazer casacos combinando-o com renda para dar um aspecto “mais feminino”.

Mickey Che explicou que a inspiração para as peças apresentadas “surgiu do movimento ‘MeToo’”. “Será que a forma tradicional de um vestido é a única correcta? Não. Um vestido pode ser feito de várias maneiras, ter a gola redonda, alta, triangular. Não quero que as pessoas achem que um vestido tem de ser sempre de uma certa maneira, quero ter a oportunidade de mudar”, sublinhou à TRIBUNA DE MACAU. “A ideia é que uma mulher pode vestir-se de qualquer forma e isso não faz dela mais ou menos decente. Se uma pessoa se vestir, por exemplo, com um decote maior, já significa que é menos decente? Não”, acrescentou.

A maior dificuldade sentida durante todo o processo de criação teve a ver com explicar ao costureiro o que era preciso fazer. É preciso dizer “o que devia fazer, como é, porque é que há um corte aqui ou ali, porque tem de haver mistura entre vários tecidos e explicar como fazer”. “Isso foi difícil”, reconheceu. No entanto, os professores estiveram sempre lá para ajudar.

“A explicação do professor foi que é preciso um equilíbrio. Não pode ser tudo muito feminino ou muito masculino. Tem de haver um equilíbrio entre as duas coisas. Também não pode ser uma coisa muito complicada, elegante, porque estamos a falar de roupa casual”, apontou Jack Lin.

Por ainda estarem a dar os primeiros passos no ramo da moda, “é difícil saber” quais serão os principais desafios, reconheceu Mickey Che. Jack Lin passa a mesma mensagem: “Ainda não comecei, não sei quais vão ser os obstáculos, mas não vou parar de tentar com todos os meios, usando apoios do Governo, de amigos, para marcar presença na área do design”.

De qualquer modo, ambos os jovens mostram-se confiantes de que este evento em Hong Kong poderá abrir-lhes portas. “É mais uma plataforma para as pessoas de fora conhecerem a marca e ajudou a ter experiência de produção, marketing e promoção”, referiram os designers, que ainda não sabem se no futuro continuarão a trabalhar juntos.

O desfile do “MaConsef” integrou-se na Semana da Moda de Hong Kong para a Primavera/Verão.

 

* Jornalista viajou a convite do Centro de Produtividade e Transferência de Tecnologia de Macau