Desde o aparecimento da “Abelha da China” a imprensa no território “foi sempre muito viva” mas nunca antes houve um florescimento da comunicação social como a partir dos anos 80 quando apareceu a Tribuna de Macau, o Jornal de Macau e depois o Macau Hoje e o Ponto Final, defende João Guedes. Considerando que, do ponto de vista político, a imprensa portuguesa na RAEM “tem um papel importantíssimo”, o jornalista e investigador salienta que nesse campo o Jornal TRIBUNA DE MACAU surge como uma publicação equilibrada, que dá voz a vários sectores de opinião e não alinha “em campanhas ditadas pela cabeça quente”

 

Inês Almeida

 

João Guedes chegou a Macau em 1980 e encontrou a imprensa portuguesa do território numa situação muito diferente da actual. “Havia a Gazeta Macaense e o Clarim, o semanário da Igreja que ainda hoje existe”, recorda. “A Gazeta Macaense era dirigida por Leonel Borralho, jornalista a tempo inteiro, mas com um tipo de jornalismo muito ‘sui generis’, tinha um entendimento do jornalismo muito próprio”, explicou ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Isto, até à chegada da Tribuna de Macau “que inaugura o jornalismo profissional em Macau na imprensa, porque o jornalismo profissional já tinha sido inaugurado uns tempos antes, na rádio”. Neste campo, o jornalista e investigador sublinha que a Rádio fazia algo “interessante”: “por falta de órgãos de comunicação social verdadeiramente profissionais, fazia um boletim diário que era distribuído pelos serviços públicos porque a comunidade portuguesa era esmagadoramente constituída por funcionários públicos”.

Então, “aparece José Rocha Diniz com um projecto muito profissional e pioneiro que era a Tribuna de Macau onde tive a honra e o prazer de colaborar no início”, um período “interessantíssimo”. Na altura, João Guedes “ainda era novato na profissão e nunca tinha trabalhado num jornal”. “Havia uma grande falta de meios, mas gostei bastante dessa experiência, embora ela tivesse sido muito curta porque trabalhei lá nem chegou a um ano”.

“As instalações eram muito pequeninas mas com um equipamento muito moderno”, relembra, apontando que “ainda não havia computadores, mas aquelas já eram máquinas muito avançadas para o tempo”. “Escrevia-se, depois os textos eram batidos por um dactilógrafo, numas máquinas especiais, eram revistos, voltavam a ser batidos e, então, colocados num papel especial e fazia-se a chamada maquete do jornal”.

De fora, ficavam apenas a primeira e a última páginas, concluídas mais tarde. “Era um processo que demorava muito tempo, não havia as facilidades de hoje”, sublinhou João Guedes. “Eu e José Rocha Diniz éramos os únicos profissionais e assim fizemos um jornal que representou uma pedrada no charco de Macau do início dos anos 80”.

A partir daí, deu-se um “boom” que nunca tinha acontecido. “Nunca houve um florescimento da comunicação social como a partir dos anos 80 porque aparece a Tribuna de Macau, logo a seguir o Jornal de Macau, depois o Macau Hoje e o Ponto Final. Chegámos a ter cinco ou seis jornais em funcionamento, além da rádio e da televisão”, destaca.

O mais curioso, defende João Guedes, é que “havia uma expectativa generalizada de que tudo isto desapareceria com a transição em 1999, mas aconteceu o contrário. Todos os jornais se mantiveram, o único que desapareceu foi a Gazeta Macaense mas não por causa da transferência de soberania”, explicou.

A partir daí não houve grandes diferenças, a não ser questões de pormenor, na forma de se fazer jornalismo. Como exemplo, João Guedes apontou o facto de antes de 1999 a comunidade portuguesa quase não ouvir a chinesa. “Depois passou a ouvir, mas por uma razão muito simples: a comunidade chinesa assumiu o poder político, portanto, era uma realidade inegável”.

“De resto não houve alterações sensíveis, excepto o Macau Hoje, que passou a ser Hoje Macau por razões muito próprias que tiveram a ver com o seu director, que era uma pessoa muito especial”, indica.

 

Um papel político que excede dimensões

Hoje em dia, João Guedes acredita que, do ponto de vista político, “a imprensa portuguesa tem um papel importantíssimo que excede largamente as dimensões de Macau porque economicamente não é justificável a existência da imprensa portuguesa, portanto, ela existe porque a importância política da comunidade é, de facto, inegável”.

Neste campo, o Jornal TRIBUNA DE MACAU “tem um papel muito importante, mas claro que sou suspeito porque tenho uma ligação antiga”, afirma, antes de frisar que “sempre foi um jornal com um equilíbrio muito grande durante toda a sua história e estamos a falar do jornal que mais tempo durou na história da imprensa de Macau”.

Até então o que mais tempo tinha durado era “O Independente”, um jornal do século XIX, “mas o Jornal Tribuna de Macau já o ultrapassou”.

Além disso, “é um jornal muito equilibrado, que nunca excedeu os limites do bom senso, e tem tido uma coisa muito importante: tem sido um jornal verdadeiramente democrático que dá voz a vários sectores de opinião, nomeadamente os ligados ao [antigo] Jornal de Macau, que era um jornal de facção, e hoje tem abrigo no Jornal Tribuna de Macau sempre que necessário”.

Apesar de ressalvar que tal não significa que outros “não tenham o mesmo grau de democraticidade”, João Guedes salienta que “a Tribuna tem e mostra” isso. “É um equilíbrio no sentido de, principalmente, não alinhar em campanhas ditadas pela cabeça quente”.

Em termos de evolução ao longo do tempo, João Guedes acredita que o jornal tem tido “uma constância bastante grande, coerência, tem-se adaptado graficamente aos novos conceitos e é um jornal noticioso”. “Uma pessoa abre aquelas páginas e tem notícias, pode estar a ler o que aconteceu no dia anterior aqui por Macau e pelo mundo”, destaca.