Os membros do júri do Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau mostraram agrado pelo foco competitivo do evento dar apoio a realizadores novos. No caminho de apreciação dos trabalhos de talentos emergentes, tiveram ontem uma pausa para reflectir sobre os seus próprios trabalhos iniciais, e a pressão que surgiu após o sucesso

 

Salomé Fernandes

 

Na terceira edição, o Festival Internacional de Cinema e Cerimónia de Entrega de Prémios de Macau (IFFAM, na sigla inglesa), não tem a mesma visibilidade que outros certames do género, mas o espírito que mantém agrada aos jurados. “Sinto que as pessoas são profissionais e calorosas. Frequentemente, quanto maior o festival, mais isso fica de fora. Torna-se menos pessoal e humano, enquanto tenta ser mais profissional e competitivo. E é maravilhoso fazer parte de um festival que está no seu terceiro ano e tem essa sensação de inocência e humanidade”, frisou Tillotama Shome.

Inicialmente apavorada quando descobriu a lista de co-jurados, receando que fossem intimidantes dado o seu talento, acabou por sentir um ambiente “caloroso”. Danis Tanovic, por outro lado, descreveu ontem em conferência de imprensa como apreciou a descoberta da cidade.

“Este ainda é um dos maiores prazeres para mim: descobrir pessoas, tradições, comida. Tive a sorte de ter dois dias para visitar parte da velha Taipa e Macau. À parte dos grandes hotéis e casinos, que é impressionante de se ver – como Las Vegas em esteróides – aquilo que mais me atrai são os lugares onde se encontra a vida”, descreveu o realizador.

O momento serviu também para os realizadores regressarem às memórias dos seus próprios filmes iniciais, já que o IFFAM aceita apenas a concurso realizadores com a sua primeira ou segunda longa-metragem. Chen Kaige, presidente do júri, começou com “Yellow Earth”, filme de orçamento reduzido que lhe permitiu receber em troca o contacto com as “raízes da China”. “Vi o Rio Amarelo e os campos. E fiquei tão tocado pelas pessoas que lá viviam na pobreza. Viviam em pobreza mas tinham a sua dignidade, maravilhoso. Foi nessa altura que me apaixonei pela realização de filmes”, descreveu.

O realizador estudou em Pequim e seguiu para a fronteira a sudoeste, na província de Yunnan como um jovem intelectual durante a Revolução Cultural. Mais tarde, juntou-se ao Exército da Libertação do Povo. Foi em 1978 que seguiu para a Academia de Cinema de Pequim, junto de outros jovens “determinados a fazer algo diferente das gerações mais velhas”.

“Éramos muito confiantes em relação ao que queríamos fazer e como o iríamos fazer. Espero que os jovens realizadores de hoje sintam o mesmo, de que podem fazer melhor”, disse. Do que viu até agora, os filmes da nova geração “são muito poéticos, não se limitam a contar uma história”, admitindo haver novos talentos.

Mabel Cheung, de Hong Kong, atingiu sucesso com o seu primeiro filme, que realizou como tese para a Universidade de Nova Iorque. Chamava-se “Um Imigrante Ilegal” e valeu-lhe o prémio de melhor realizadora nos Prémios de Cinema de Hong Kong, bem como um prémio especial do júri no Festival de Cinema da Ásia Pacífico. Era então 1985.

“Usei um elenco amador, de imigrantes ilegais reais e gangs da ‘Chinatown’, que eram todos meu amigos e nunca imaginaram que fosse exibido num grande ecrã porque era apenas uma estudante. Mas consegui dinheiro de um estudo, um milhão de dólares de Hong Kong, que era muito para um filme estudantil, e quando regressei ao aeroporto de Nova Iorque todos os meus colegas me foram receber e queriam estar na minha equipa”, recordou.

Eram, descreveu, “destemidos”. Sem experiência e limite de tempo, ela e a sua equipa composta por colegas de turma podiam “esperar pelo ângulo certo do sol” aquando das gravações. E tinham liberdade para fazerem o que queriam. Algo que não se repetiu do mesmo modo depois de se profissionalizar.

 

Uma questão de confiança

A firmeza do início de carreira profissional nem sempre se mantém. “Com o tempo apercebemo-nos do quanto não sabemos. A confiança ao longo do tempo desaparece mas surge algo no seu lugar, que é curiosidade e conhecimento do mundo”, apontou Danis Tanovic. O realizador da Bósnia e vencedor dos Óscares, começou a apreciar essa sensação de descoberta, que lhe tira o aborrecimento que o contrário traria.

O sucesso de “No Man’s Land”, que o lançou para a fama, foi o passe necessário para se manter enquanto realizador. “Sendo da Bósnia creio que não teria qualquer carreira se não tivesse feito um filme que funcionou dessa maneira”, constatou. Em jeito de brincadeira, notou como “um mau filme na China tem 50 milhões de entradas”, algo a que um país pequeno como a Bósnia, com três milhões de pessoas, não pode aspirar. “Num país pequeno como o meu ou se cria algo que se torna global, ou há um número muito reduzido de pessoas a ver o filme”, disse.

Agora na posição de avaliação do trabalho alheio, considera que “não há forma de julgar filmes, para mim sempre fui ridículo”. Mas apesar de considerar a prática injusta reconhece ser também “importante dar um empurrão a alguém e isso requer uma decisão”. Comentando que a taxa de realizadores que continua após o primeiro filme desce para 20%, mostrou apreciação pelo reconhecimento do festival de realizadores novos. “Não gosto de saber de onde os filmes vêm, e é lindíssimo de cada vez que entramos no mundo de alguém, na sua opinião, na sua forma de ver as coisas”.

Paul Currie, realizador australiano, apontou que dos filmes vistos até ao momento “a qualidade do ponto de vista dos jovens realizadores é fantástica”. “Acho que é muito importante estar aberto a novas vozes, novas formas de contar histórias e ser encorajador da nova geração. Adoro que seja um festival com realizadores com os seus primeiros e segundos filmes. Estão numa altura crítica da sua carreira e ter um foco neles pode fazer uma enorme diferença”.

 

A perspectiva de uma actriz

“Para mim só actuar é um privilégio”, disparou Tillotama Shoma, actriz indiana que começou a carreira cinematográfica com “Monsoon Wedding”, em 2001. O caminho até lá foi de timidez e auto-desafio. Considerada pelos que não a conheciam como snobe por viver de forma bastante monossilábica, tentava esconder-se e não ser vista. Foi só quando viu actores em palco na universidade que o clique se deu. “Não só conseguiam falar, mas também provocar sensações. E pensei que se conseguisse fazer isso conseguiria fazer qualquer coisa. Para mim actuar é um acto de desafio, e continua a sê-lo”, declarou.

“Monsoon Wedding” surgiu no mesmo registo, já que a actriz pretendia quebrar os preconceitos e limitações que tinha, sentindo necessidade de expandir a sua ideia do que era o mundo. Quando começou não dispunha de conhecimentos técnicos. “Lavei a loiça muito bem, tentei ser o mais honesta possível porque senti que estavam a confiar em mim apesar de não ter experiência”, disse.

Seguiu-se outro filme e um segundo mestrado na Universidade de Nova Iorque, e posteriormente fez terapia através do drama numa prisão. Foi aí que aprendeu verdadeiramente, defende. “Foi a minha escola a sério, porque estão realmente a servir tempo e representação é como se experiencia o tempo. Aprendi com os prisioneiros as escolhas que podemos fazer a cada momento e as consequências que podem ter”. Anos mais tarde, sente-se intimidada “com muitas coisas na vida, mas não uma câmara”. Já participou em 25 filmes em diferentes línguas.

 

Pressão ascendente

Porém, criar uma carreira não é inerente a pressões. Após o seu primeiro filme, Tillotama Shoma deparou-se com convites para o mesmo papel. “Mas quantas formas diferentes há de se lavar a loiça? Decidi que não queria fazer isso, seria aborrecido. Tenho uma sensação de que o tempo é muito limitado. Comecei a falar e a conseguir expressar-me já com mais de 20 anos, por isso senti que se tivesse de gastar o meu tempo com uma actividade isso teria de mudar algo em mim”, confessou.

Sentindo-se forasteira internamente em resultado da migração que o trabalho do pai nas forças armadas exigia, pôde utilizar essa perspectiva de distância para tomar uma decisão. “Não me interessava se ninguém soubesse quem eu era. Lutar a insegurança de querer ser famosa, um sucesso, foi algo que pude pôr de lado porque já era tão bom ser actriz. (…) A questão era se já o tinha feito antes. Se me sentisse assustada e entusiasmada então era algo que tinha de fazer. E serviu-me bem”, concluiu.

O problema afecta também outras carreiras no mundo do cinema. Mabel Cheung felicitou a energia, ausência de um fardo e vontade de tentar dos jovens realizadores que participam no festival. É da sua opinião que todos devem encarar novos filmes dessa maneira: como primeiro, com os seus problemas e perdas de controlo.

Algo difícil, especialmente se a primeira longa metragem conquista prémios ou é um sucesso de bilheteira. Nesses casos, “as pessoas esperam que faça mais ou menos o mesmo”. “Tenho de ser muito certa de mim própria para dizer não. Porque se está a dizer que não a dinheiro, fama, e tem de se recomeçar tudo de novo, como um novo realizador”, apontou Mabel Cheung. “Se o primeiro é um sucesso torna-se mais difícil fazer o segundo porque se perde uma coisa: paz. E há muitas tentações. E é preciso aprender a dizer que não, embora seja difícil”, reforçou ainda Chen Kaige.

 

Yao Chen ambiciona continuar na China

A actriz em foco na edição deste ano, Yao Chen, mostrou-se firme em continuar a trabalhar no seu país de origem. Questionada sobre a possibilidade de ir para Hollywood, reconheceu que “representa um pico do cinema e se tivesse a oportunidade de fazer parte de um filme desses poderia aprender muitas coisas diferentes do passado”, acrescentando porém que prefere “fazer um filme chinês que possa obter reconhecimento internacional”. Yao Chen apontou que a indústria cinematográfica reconheceu a criatividade artística das actrizes, sublinhando a existência de profissionais de excelência no Oriente. Comparativamente a outros cinemas asiáticos, considera que o chinês tem diferenças e similaridades, mostrando as suas próprias características. Mas frisou que o tema do seu último filme “Found, Lost” pode ser compreendido por todas as mães.