Em busca de alternativas que rentabilizem os seus negócios face à crise na Europa, empresários portugueses continuam hoje a utilizar Macau como porta de entrada para a Ásia
Luís Américo e Marco Gomes são chefes de cozinha e donos de vários restaurantes no norte de Portugal e abriram este mês em Macau um espaço de sabores portugueses em parceria com um hotel do território, que poderá ser uma rampa de lançamento para uma expansão na Ásia e uma forma de contornarem os efeitos da crise europeia.
“O nosso Governo está a matar o sector da restauração e isso reflecte-se com a saída de vários profissionais para o estrangeiro (…), vemo-nos completamente atados com as políticas actuais e nestes últimos dois anos já fecharam mais restaurantes do que nos últimos 10”, lamentou Marco Gomes em declarações à agência Lusa.
Marco Gomes constata que “só com muita vontade, empenho e amor” o tem conseguido, pois “não se consegue ganhar dinheiro com esta política, lutar para sobreviver é como estamos em Portugal”.
Luís Américo mantém “semiaberto” o seu restaurante no Porto, por “haver maior dificuldade em fazer vingar um restaurante com uma cozinha mais elaborada e com um custo superior” e decidiu abrir há dois anos outros dois estabelecimentos para “combater este sentimento de crise”.
Perante “a elevada taxa de desemprego de Portugal e uma carga fiscal brutal”, acrescentou, “quem quiser trabalhar de forma honesta não consegue e há que procurar alternativas”.
Por isso, esta dupla de cozinheiros começou a “olhar de forma cada vez mais interessada para a Ásia como futuro”, tendo surgido a possibilidade de abrirem o restaurante “Fado” em Macau, havendo planos para expandir a marca na China, quando se assinalam 500 anos da chegada do primeiro português ao Império do Meio, em 1513.
“Como estamos a abrir um projecto em Macau, temos recebido dezenas e dezenas de pedidos de pessoas que querem trabalhar no território, pelo facto de ser uma ‘ex-colónia’ portuguesa e uma porta de entrada privilegiada para a Ásia face às notícias sobre a economia da região”, constatou Luís Américo.
Ao reconhecer que “toda a gente está a tentar neste momento encontrar uma oportunidade fora do país”, este empresário observa que “Macau aparece nas primeiras opções de muita gente ao nível da Ásia”.
Esta situação verifica-se no sector da hotelaria e restauração, já que Macau é hoje a capital mundial do jogo e tem cerca de 100 hotéis, como noutras áreas como a arquitectura e advocacia, as que tradicionalmente são mais procuradas por portugueses no território.
Maria José de Freitas tem um gabinete de arquitectura em Macau e disse que recebe “praticamente todos os dias currículos de portugueses, tanto de recém-formados como com quatro ou cinco anos de experiência e até de arquitectos seniores e mesmo de engenheiros e advogados”.
“Sabemos que a situação em Portugal não está fácil, mas aqui curiosamente nesta área também não está, porque não há praticamente encomendas do Governo nem dos grandes casinos, por isso quem tem a sorte de ter clientes particulares vai-se aguentando”, constatou.
Se houvesse mais projectos, defendeu, “seria benéfico contratar profissionais de Portugal”, até porque, “havendo muita massa crítica disponível no país, era aquela ocasião de ouro para trazer os melhores e pensar numa cidade para o futuro, pois esta seria uma forma de preservar a identidade de Macau, que resulta de uma confluência cultural entre o ocidente e o oriente”.
O advogado Rui Cunha diz receber também diariamente currículos de portugueses, considerando que seria “útil” absorver a experiência e conhecimento “valiosos” destes profissionais, mas reconhece a necessidade de se fazer um “balanço entre os que vêm e os que cá estão” dada a pequena dimensão do mercado, que tem menos de 600 mil habitantes.
JTM/Lusa



