A Universidade de Macau e a Universidade de São José receberam a primeira edição do Fórum dos Reitores das Instituições do Ensino Superior da China e dos Países de Língua Portuguesa, que contou com a presença de representantes de mais de 70 instituições. As oportunidades no quadro da Grande Baía foram o tema em destaque no primeiro dia e reitores das universidades portuguesas vêem, sobretudo, possibilidades na área do intercâmbio de alunos e professores e na cooperação ao nível da investigação
Inês Almeida
Representantes de mais de 70 instituições de ensino superior e de entidades na área da formação em Português estiveram reunidos, entre sexta-feira e sábado, na Universidade de Macau (UM) e na Universidade de São José para a 1ª edição do Fórum dos Reitores das Instituições do Ensino Superior da China e dos Países de Língua Portuguesa. “Este Fórum permite lançar pontes entre essas universidades de Língua Portuguesa e as universidades chinesas para fomentar ainda mais a cooperação internacional”, salientou o vice-reitor dos assuntos internacionais da UM à margem da inauguração do evento.
“Já há grandes intercâmbios e com este fórum isso vai-se intensificar”, frisou Rui Martins, apontando como áreas principais “o intercâmbio de alunos, docentes e lançamento de projectos de investigação que envolvam as instituições de ambos os lados”.
Os reitores vindos de Portugal demonstraram ter esperanças semelhantes. “A expectativa é que consigamos incentivar a cooperação, e, de alguma forma, transformar esta ideia da Língua Portuguesa no território chinês como uma mais-valia e aproveitar o grande desenvolvimento que a China tem tido, nomeadamente do ponto de vista tecnológico para também ajudar as universidades portuguesas a desenvolverem-se”, disse o presidente do Instituto Politécnico de Coimbra.
O objectivo principal “é conseguir trazer mais estudantes a conhecer a realidade de Macau e levar mais estudantes a conhecer a realidade de Coimbra”, sustentou Jorge dos Santos Conde. “Coimbra, pela sua história e antiguidade no ensino superior, é sempre uma mais-valia para o conhecimento e Macau é uma potência emergente de ensino superior que, com certeza, ajudará muito os alunos portugueses a conhecerem uma nova realidade”, apontou.
Ao mesmo tempo, importa desenvolver a colaboração “entre as universidades que falam Português e as que falam Chinês” até devido ao objectivo de manutenção ou incremento da presença da Língua Portuguesa na China.
“O Instituto Politécnico de Coimbra está agora a entrar nesta rota de cooperação com Macau e com a China, portanto, ainda não temos um número de estudantes que nos permita dizer que somos uma instituição importante”, admitiu, quando questionado sobre se o volume de estudantes oriundos do Continente chinês tem aumentado nos últimos anos. “Há vários [institutos] politécnicos em Portugal que são instituições importantes, por exemplo, o de Leiria ou Castelo Branco mas o Politécnico de Coimbra ainda não é uma instituição importante nesta cooperação”, admitiu.
Por sua vez, o presidente do Instituto Politécnico de Lisboa destacou a vontade de “estabelecer um intercâmbio com as instituições de ensino superior que estão espalhadas pelo mundo e que falam a mesma língua, neste caso, o Português”. “Entendemos que este espaço de abertura e diálogo entre uma potência mundial como a China e os países de expressão portuguesa é um espaço privilegiado para as relações internacionais, para o intercâmbio cultural e, fundamentalmente, para o ensino superior em Língua Chinesa e em Língua Portuguesa que se espraia por este mundo todo”, defendeu Elmano Margato, em declarações à TRIBUNA DE MACAU.
Ao Politécnico de Lisboa têm chegado “várias delegações de China”, referiu, assegurando que a instituição que lidera está aberta tanto a receber alunos chineses em Portugal nas oito escolas que compõem o instituto, como a enviar alunos portugueses para as universidades de Macau ou da China.
“Além disso, estamos a trabalhar na implementação de trabalhos de investigação conjuntos com a UM. Esperamos que isso frutifique e possa ir para a frente, especialmente no domínio da engenharia biomédica”. Também no Politécnico de Lisboa ainda “não é muito significativo” o número de estudantes chineses, indicou Elmano Margato.
Criar uma plataforma multilateral
Rui Vieira de Castro, reitor da Universidade do Minho, destacou como principal mais-valia do Fórum a possibilidade de uma comunicação não apenas de um para um. “As universidades dos Países de Língua Portuguesa têm, entre si, relações intensas. Há relações intensas também entre muitas das nossas instituições e universidades chinesas, mas elas são colocadas fundamentalmente numa base bilateral”.
Nesse sentido, o evento possibilita “a construção de uma plataforma mais estável e que permita consolidar, já numa base multilateral, as relações entre as várias instituições”. “Fundamentalmente, procuramos um conhecimento mútuo acrescido da realidade de cada uma das instituições, na perspectiva de encontrar caminhos que permitam consolidar as relações” nos campos em que são “consolidáveis”.
Aí inserem-se questões como “a busca de possibilidades de desenvolvimento de determinados programas, a mobilidade de estudantes e professores e julgo que o objectivo essencial é a procura de novas articulações no plano da investigação”, acredita Rui Vieira de Castro. “As universidades têm na investigação científica um eixo fundamental de actuação. A investigação é algo que se realiza, claramente, à escala global e, portanto, a abertura de novas possibilidades e relações é algo que interessa profundamente a todas as instituições”.
Daqui a 20 ou 30 anos, o que poderá advir desta maior cooperação? Para Rui Vieira de Castro, um mundo mais desenvolvido. “As instituições universitárias são lugares para onde convergem os recursos humanos mais qualificados dos países em que elas se inscrevem, são as instituições capazes de projectar o país e de fazê-lo de um modo sustentável. Aquilo que gostaria que o mundo fosse, por efeito da acção das universidades, seria um mundo mais harmonioso que o de hoje, também devido ao conhecimento entre diferentes povos, nações e culturas”.
O mundo seria também “mais sustentável, capaz de responder melhor àquilo que são os desafios decorrentes da complexificação das estruturas sociais, económicas” e esses desafios, declarou o reitor da Universidade do Minho, “são vencidos ou podem pôr em causa o próprio futuro da humanidade”, pelo que devem ter uma “resposta essencial” que venha da colaboração entre universidades.
A Universidade do Minho tem já uma relação próxima com algumas instituições do ensino superior chinesas há muitos anos. “Temos uma licenciatura em estudos orientais, um mestrado em estudos portugueses e chineses e o desenvolvimento desses dois programas de formação só é possível porque, por um lado, há este quadro de relações intensas entre a Universidade do Minho e as universidades chinesas, e porque há mobilidade de estudantes”.
Os estudantes destes mestrados têm de fazer um período de estudo na China. “Essa mobilidade é um factor absolutamente essencial para o sucesso destes programas mas a nossa ambição é muito maior do que essa”, garantiu Rui Vieira de Castro, ao defender que “tem de se aproveitar todo o potencial que as universidades chinesas têm hoje e o facto de, genericamente, as universidades portuguesas estarem muito bem colocadas nos ‘rankings’ internacionais”.
Para o reitor da Universidade do Minho, a ambição agora “tem de ser a de alargar o número de estudantes em mobilidade e, sobretudo, fazê-lo em todas as áreas científicas”. “Há aí um campo enorme de possibilidades à nossa frente”.
Na sexta-feira decorreu ainda uma sessão sobre o “Desenvolvimento e oportunidades do ensino superior da Grande Baía Guangdong-Hong Kong-Macau”, moderada por Rui Martins e com a participação de Jorge Ferrão, reitor da Universidade Pedagógica de Moçambique, Wang En Ke, reitor da South China Normal University, do reitor da Universidade Mandume Ya Ndemufayo, de Angola, e presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, Orlando Fernandes da Mata, Sandra Almeida, reitora da Universidade Federal de Minas Gerais, e Rui Vieira de Castro, da Universidade do Minho. Orlando Fernandes da Mata indicou que as suas expectativas para a iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ passam pela formação de “quadros altamente qualificados que dêem resposta às necessidades” de Angola e dos países envolvidos neste projecto.
“Um dos pontos onde temos de apostar seriamente é na Língua Portuguesa. É necessário que nos países que aderiram a este projecto haja domínio do Português e do Mandarim. Aí, os Institutos Confúcio têm um papel de extrema importância”, sustentou o reitor e presidente da Associação das Universidades de Língua Portuguesa.
UM cria “Cantinho do Português” e prepara software de tradução
A Universidade de Macau (UM) inaugurou o “Cantinho do Português” no segundo andar da sua biblioteca, numa cerimónia que contou com a presença do Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Além de providenciar informação sobre a cultura portuguesa, esta área vai acolher conversas temáticas e exposições. Há ainda uma zona audiovisual e outra para estudo. O reitor Song Yonghua frisou na ocasião que o Departamento de Português da UM “está a realizar uma série de reformas”, incluindo a melhoria da organização dos cursos de licenciatura, criação de bolsas para estudantes de Português, a prorrogação da duração dos estudos no estrangeiro dos alunos de licenciatura, a adição de disciplinas nos cursos de mestrado e o aumento do recrutamento de estudantes internacionais. Por outro lado, a UM quer lançar até ao final deste ano a nova geração de um “software” online de tradução Chinês-Português. Numa nota, a UM refere que o Laboratório de Processamento de Língua e Tradução Automática Chinês-Português já concluiu a fase de testes da nova geração da plataforma “inovadora” de tradução, devendo a versão piloto estar pronta a ser lançada para o mercado até ao fim de Dezembro.
Declaração conjunta vinca interesse na cooperação
As instituições participantes no Fórum dos Reitores das Instituições do Ensino Superior da China e dos Países da Língua Portuguesa assinaram uma declaração conjunta na qual se comprometem a intensificar a cooperação e o intercâmbio nas áreas da Educação, Cultura e Economia. No texto disponibilizado à agência Lusa, acordam em “incentivar a cooperação das indústrias inovadoras e criativas”, na China Continental, Macau, Hong Kong e países lusófonos. A declaração tem mais três pontos: promover Macau “como centro de intercâmbio cultural”, desenvolver a mobilidade de estudantes e profissionais, bem como “reforçar o planeamento conjunto, a longo prazo (…), no âmbito da iniciativa [chinesa] “Uma Faixa, Uma Rota”, de acordo com as necessidades de desenvolvimento das diversas partes envolvidas, e promover a cooperação nas áreas da educação, da cultura e do desenvolvimento económico”.



