Chegou a estar nos planos da Universidade de Macau avançar com uma Faculdade de Design, mas “restrições de recursos” levaram ao abandono do projecto, confirmou a instituição à TRIBUNA DE MACAU. Clara Brito, designer que chegou a aplaudir o projecto quando era dado como praticamente certo, lamenta este retrocesso, sustentando que seria uma mais-valia para o panorama do design local
Catarina Almeida
No ano lectivo 2014/15 constava do plano de trabalho da Universidade de Macau (UM) a intenção de criar uma Faculdade de Design. O projecto deveria, segundo referiu então o vice-reitor da UM Rui Martins, concretizar-se em 2015. Na altura, a universidade já tinha escolhido um edifício para albergar a nova faculdade faltando apenas o término do projecto académico.
Porém, passaram-se quatro anos, a ideia não avançou e, segundo referiu a UM a este jornal, a intenção deixou mesmo de constar dos planos académicos e estratégicos da instituição de ensino superior. “Após cuidada consideração, a universidade decidiu não avançar com o plano de criação de uma Faculdade de Design devido a restrições de recursos”, revelou.
A TRIBUNA DE MACAU tentou obter uma reacção junto do vice-reitor da Universidade de Macau, Rui Martins, que confirmou a posição da instituição académica, mas ressalvou que apesar de não haver planos para avançar com uma Faculdade foi criado um Centro que poderá responder a algumas necessidades associadas a esta área.
De acordo com o guia de curso do Gabinete de Apoio ao Ensino Superior (GAES), há várias licenciaturas de Design – abrangendo diferentes vertentes – oferecidas pelas diferentes instituições de ensino superior do território, embora a UM não faça parte deste rol.
Sob o “chapéu” da Universidade de São José (USJ), a Faculdade de Indústrias Criativas conta com um Departamento de Design, através do qual são disponibilizadas licenciaturas em Design e Design de Moda, havendo ainda a oportunidade de avançar para a especialização da área no Mestrado.
Já a Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM), através da Faculdade de Artes e Humanidades, oferece uma Licenciatura em Artes-Design de Artes direccionada para o design de produtos, paisagístico, interiores e comunicação visual. Também é possível seguir para Mestrado nesta área na UCTM e ainda Doutoramento.
Por outro lado, no Instituto Politécnico de Macau (IPM) as áreas profissionais de media digital, design espacial, comunicação gráfica e publicidade podem ser aprofundadas no quadro da Licenciatura em Design.
Muito embora a Universidade de Macau não ofereça nenhum curso de licenciatura, dispõe de um Centro de Artes e Design (CAD) que funciona sob a alçada da Faculdade de Ciências Sociais dirigida interinamente pelo vice-reitor para os Assuntos Académicos, Lionel Ni, junto de quem a TRIBUNA DE MACAU tentou por várias vezes obter mais detalhes sobre os respectivos projectos e planos, mas sem sucesso até ao fecho desta edição.
De acordo com a página electrónica oficial, o CAD foi criado para estabelecer uma “plataforma de intercâmbio e colaboração internacional de alta qualidade”. “Através da investigação interdisciplinar e do desenvolvimento de quadros de arte e design, procura também promover inovação no campo do design artístico de Macau”, lê-se.
O centro tem ainda como missão ajudar na promoção da diversificação económica do território, “melhorar o desenvolvimento das indústrias culturais e criativas e garantir uma vantagem competitiva saudável”. Para tal, o CAD colabora com “faculdades da UM, outras universidades e institutos de investigação locais e nacionais para lançar projectos de multimédia, design e artes inovadoras”.
Ao nível da formação, o Centro de Artes e Design colabora em estreita proximidade com o Departamento de Comunicação e Faculdade de Educação na “cultivação de quadros nas áreas de inovação interdisciplinar em arte e design, novos media e educação artística através de programas de pós-graduação e doutoramento”.
Um projecto que seria “pilar”
É com algum lamento que Clara Brito interpreta a desistência por parte da UM de avançar para a criação de uma Faculdade de Design – sobretudo sendo uma das “universidades mais instituídas até do território”. Segundo a designer local e uma das fundadoras da marca “LinesLab”, este projecto faria sentido sobretudo porque “Macau está a querer fazer um grande investimento ao nível das áreas das indústrias criativas”.
Clara Brito, que aplaudiu a intenção da Universidade quando em 2015 parecia ter “pernas para andar”, encara agora este recuo com alguma infelicidade já que seria uma “pilar base” para “depois haver um maior sucesso ao nível da implementação das indústrias criativas”, disse.
“Pode ser tendencioso, sendo eu da área criativa e do design, mas às vezes é difícil querer implementar uma lógica, pensamento e directrizes de design ou de criatividade quando depois as bases desse nível de pensamento não estão estruturadas, solidificadas e disseminadas. É fundamental não só pelas pessoas que possam estudar a área como toda a envolvência que isso cria num espectro um bocadinho mais amplo de transmissão desse tipo de cultura porque estamos a falar de cultura”, vincou Clara Brito.
Ademais, pesa também o poder institucional da Universidade de Macau, apesar de existirem outras oportunidades no panorama de ensino local – com a oferta de licenciaturas apenas. “A Universidade de Macau tem muito mais capacidade de atrair estudantes nomeadamente da China – sei que é uma fragilidade que a Universidade de São José tem – e daí falar que a implementação ou a capacidade de implementação de um curso de Design operado pela Universidade de Macau é completamente diferente”, bem como “o impacto a todos os níveis”, observou.
Portanto, tem a ver, em última análise, com o “papel que Macau pode ter sendo uma região com um cariz um bocadinho diferente e diferenciador em relação àquilo que é a China Continental e a ligação com o Ocidente por raízes culturais e históricas. Tudo o que poderia vir daí com a relação com estudantes da China Continental poderia ser uma alavancagem diferente no impacto”, rematou.
Em todo o caso, além da falta de uma Faculdade especializada no Design, Clara Brito entende que se tem de facto notado uma preferência pelo estrangeiro quando chega o momento de investir na formação – muito embora não seja uma realidade nua e crua, mas apenas uma observação, conforme ressalva. “Não estou completamente por dentro daquilo que é o meio académico – apesar de já ter dado aulas e de ter estado ligada sobretudo à USJ – mas o que posso pressentir um bocadinho melhor é alguma experiência ou aquilo que vou sentido sendo próxima de Macau, vivendo cá há muitos anos e trabalhando na área”, começou por referir.
“Os profissionais que trabalham na área e que querem ter uma formação de um nível mais qualificado normalmente vão estudar para fora e, por isso, qual é a estratégia? Se vão estudar para fora imagino que o que está cá dentro não os satisfaz, têm outras ambições ou querem ganhar outras ligações. Se realmente a aposta nas indústrias criativas é uma prioridade – e pelo menos parece ser falada como sendo – e se há pessoas que vão para fora é porque não sentem que a oferta de cá seja suficiente. Alguma falha existe para que as pessoas procurem fora”, explicou.
Por outro lado, a designer entende que, apesar de existirem algumas ofertas ao nível da arquitectura, design de moda, “não existe um ecossistema e um ambiente que seja suficientemente rico e fortalecido que depois se reflicta no desenho da cidade e de muita coisa que a cidade poderia criar por si. De facto, Macau tem essa alavancagem e essa capacidade mas nem todas as universidades que oferecem esses cursos têm”, rematou.



