Zoe Tang, activista e representante da Anima que se demitiu na semana passada, apresentou uma queixa junto do Comissariado Contra a Corrupção alegando falhas no tratamento e alojamento dos galgos. Albano Martins rejeita qualquer tipo de envolvimento pessoal e da associação nas afirmações de Zoe Tang criticando, sobretudo, o facto deste comportamento estar a “prejudicar todos os nossos esforços”

 

Catarina Almeida *

 

O Comissariado Contra a Corrupção (CCAC) recebeu ontem uma queixa sobre a forma de “tratamento e alojamento dos galgos”, confirmou o organismo à TRIBUNA DE MACAU na sequência de informações vinculadas ontem nesse sentido pela imprensa chinesa de Hong Kong.

Todavia, questionado sobre o autor(es) e alvos da queixa, o organismo liderado por André Cheong não teceu quaisquer dados garantindo, porém, que irá “acompanhar o caso de acordo com os procedimentos legais”.

Na base da queixa estão acusações tecidas por Zoe Tang – antiga representante da Sociedade Protectora dos Animais de Macau (Anima) – sobre a gestão dos 532 galgos no Canídromo, nomeadamente o prazo de 60 dias para retirar os animais do espaço e ainda os cuidados veterinários. Problemas que segundo alega envolvem a Anima e o seu presidente, Albano Martins. Porém, ressalve-se, não há para já uma confirmação contra quem é que Zoe Tang terá movido a queixa sabendo-se apenas o assunto da mesma.

De acordo com a revista “Next”, publicada na antiga colónia britânica de Hong Kong, Zoe Tang revelou ter apresentado uma queixa no CCAC por dizer sentir-se “usada” em todo este processo. Em causa, alega, estará o encontro acidental da na altura representante da Anima com alguém de uma clínica veterinária que lhe terá tentado vender um medicamento no âmbito de uma “cooperação encoberta”.

Já em declarações à “MASTV”, Zoe Tang garantiu: “o meu antigo chefe [Albano Martins] sempre disse que o IACM fica responsável pelos veterinários, mas porque é que esta clínica me propôs o preço?”.

A ex-representante da Anima iniciou uma recolha de assinaturas online pedindo a autorização do Chefe do Executivo, presidente do Conselho de Administração do IACM, Secretário para a Economia e as Finanças e de Albano Martins para que os voluntários possam deslocar-se diariamente ao Canídromo para ajudar. Até o fecho desta edição, tinham sido recolhidas 2.344 assinaturas.

O presidente da Anima nega qualquer envolvimento nas situações reportadas por Zoe Tang – único membro da associação no Canídromo para fazer a identificação dos animais, mas onde deixou de aparecer a partir de sexta-feira. “Não tenho ideia de nada disso. Sei apenas que ela teve uma conversa comigo um dia antes de desaparecer completamente. […] No sábado fui avisado pelo IACM de que não estava ninguém [no Canídromo] para receber os animais o que gerou uma confusão dos diabos!”, lamentou em declarações a este jornal.

“Quase que ficámos sem um supervisor – apareceram lá visitantes a dar bonecadas aos galgos, que nunca se pegaram à luta, e tiveram a primeira briga. Um deles até foi internado por causa de uma estupidez. Se eu soubesse que ela não ia eu tinha contratado outra pessoa para lá estar. Portanto, é a chamada irresponsabilidade”, lamenta.

Quanto às alegações proferidas aos media, e indicações de que poderá ser um dos visados na queixa, Albano Martins reage, recorrendo à ironia: “De facto, eu fui comprado pelos galgos. Compraram-me para os salvar. Ouvi de uma jornalista a mesma questão e disse que teria imenso prazer e gozo em comentar isso porque eles vão ter de falar língua de cão para perguntar aos galgos quanto é que me pagaram para eu ser corrupto”.

“Considero Zoe Tang uma amante dos animais, mas a sua atitude está a destruir a sua própria credibilidade como activista dos direitos dos animais e a prejudicar todos os nossos esforços”, lamentou Albano Martins. Zoe Tang colaborava com a associação há quase cinco anos – período durante o qual pediu a demissão pelo menos quatro vezes porque, explica Albano Martins, “é incapaz de manter os assuntos interpessoais em momentos de crise”.

Não obstante ser “uma belíssima senhora”, “quando perde as estribeiras só diz asneiras. Espero que não se venha a magoar com as asneiras que está a dizer”, vinca.

 

Afastamento gerou atraso

Com o afastamento da activista, ficou por terminar a identificação dos 532 galgos. Um trabalho fundamental para o processo de adopção que Zoe Tang tinha a seu cargo, além de gerir os canis, limpezas e os voluntários. Mas, desde a saída sem aviso prévio à direcção da Anima, Zoe Tang recusou-se a dar essas informações. “Está a obrigar-nos a fazer, de novo, o levantamento por inteiro – está a atrasar todo o processo de adopções por causa dessa história de que alguém que é corrupto e, olha, devo ser eu se calhar”, critica. A Anima tem, no entanto, uma lista feita pelo IACM sobre os galgos mas que não é inteiramente a mais correcta devido a todas as movimentações de animais registadas até agora.

No fundo, o presidente da Anima critica que todo este episódio esteja a provocar impacto nos animais, nomeadamente no que às adopções diz respeito. Em todo o caso, Albano Martins diz mesmo que se Zoe Tang tinha conhecimento de que se “passou alguma coisa no Canídromo” é “dever dela denunciar”.

Contudo, “envolver a Anima numa situação dessas é envolver-se também ela nisso porque era a única que lá estava. Não há outras hipóteses. Há qualquer coisa na tradução que não deve funcionar e acho tão absurdo que ela tenha feito uma declaração [de corrupção] desse tipo. Mas pronto, já estou vacinado…”.