Hoje em dia, a evocação de Luís Gonzaga Gomes reveste-se de significado especial pois o trabalho que desenvolveu pode servir de modelo para os jovens macaenses que queiram conhecer, preservar e defender a sua identidade. Quem o diz é Han Lili, académica do Instituto Politécnico de Macau cuja tese de doutoramento se foca no ilustre historiador, escritor e sinólogo macaense. A decisão de escrever sobre Luís Gonzaga Gomes resultou, em primeiro lugar, da “curiosidade” pelas placas indicativas dos nomes das ruas de Macau
Inês Almeida
A académica Han Lili, que lecciona no Instituto Politécnico de Macau (IPM), é autora de uma tese de doutoramento intitulada “Luís Gonzaga Gomes, Filho da Terra: divulgador e tradutor de imagens da China e de Macau” na qual analisa em detalhe o trabalho da importante personalidade da cultura local em diversas áreas. Nomeadamente o seu papel numa altura de crise da identidade macaense.
“As iniciativas de Gonzaga Gomes, tão organizadas e direccionadas, não resultaram de situações espontâneas ou improvisadas, nem simplesmente de gostos pessoais, mas espelharam uma estratégia colectiva consciente. No contexto difícil das décadas em apreço [1940 a 1970], Gonzaga Gomes assumiu um papel histórico de mediador/tradutor, partilhando conhecimentos sobre as duas culturas e sociedades, cumprindo a sua missão como ‘filho da terra’ e consolidando, assim, a sua própria identidade”, frisou Han Lili em declarações à TRIBUNA DE MACAU. “É também por esta razão que Luís Gonzaga Gomes se tornou uma figura incontornável para os investigadores que estudam a comunidade macaense do século XX”, acrescentou.
A docente do IPM refere que o trabalho desenvolvido por Gonzaga Gomes teve impacto na singularização da identidade macaense por vários motivos. “A identidade macaense enriquece, tal como Gonzaga Gomes faz, na negociação dos dois capitais de ‘portugalidade’ e ‘chinesices’: em primeiro lugar, integra os factores culturais da China na cultura macaense, tal como os elementos de geomância e superstições”.
Além disso, Gonzaga Gomes “empenha-se dedicadamente na recuperação da História de Macau, que envolve as actividades dos portugueses e as suas relações com a China”, destacando a “simultânea autonomia de Macau como uma ponte entre o mundo oriental e o mundo ocidental através das suas actividades editoriais e obras traduzidas e não traduzidas”. No fundo, “com estas iniciativas proactivas, Gonzaga Gomes destaca uma imagem única e autónoma de Macau, assinalando, ao mesmo tempo o dualismo da identidade macaense”.
Hoje em dia, destaca Han Lili “a evocação desta figura ilustre reveste-se de significado especial: a dedicação e a diligência de Luís Gonzaga Gomes, filho da terra, poderão servir de modelo para as novas gerações macaenses que queiram conhecer, preservar e defender a sua identidade que já se estabelece, desenvolve e consolida e merecerá projecção para uma maior dimensão”.
A tese de doutoramento focada em Luís Gonzaga Gomes “foi resultado da curiosidade sobre as placas das ruas”, contou a académica. “Em Macau há diversas avenidas e ruas com designações seleccionadas em homenagem de personalidades ilustres do território, como por exemplo Avenida de Venceslau de Morais, Rua de Pedro Nolasco da Silva, de Camilo Pessanha. O IPM, onde trabalho, está sediado na Rua de Luís Gonzaga Gomes”.
“Numa primeira pesquisa breve, despertada pela curiosidade profissional, os resultados são surpreendentes: sendo um escritor e tradutor macaense muito produtivo, Luís Gonzaga Gomes é indiscutivelmente uma figura macaense incontornável no âmbito da história e da cultura em Macau no século XX, especialmente no diálogo intercultural luso-chinês”, defende Han Lili.
Luís Gonzaga Gomes “deixa um vasto leque de estudos e traduções, escreve para mais de vinte jornais macaenses e internacionais e participa nos diversos círculos culturais e musicais de Macau”. “É para comemorar os seus contributos para a sociedade que o seu nome é atribuído a uma rua da zona dos Novos Aterros do Porto Exterior onde se encontra actualmente o IPM. Este descobrimento preliminar desperta a minha maior curiosidade. Portanto, acabei por apresentar uma proposta de tese de doutoramento acerca de Luís Gonzaga Gomes e das suas obras”.
Uma grande riqueza
As traduções temáticas feitas por Luís Gonzaga Gomes sobre a China e Macau “constituem uma grande riqueza para estudos referentes à China e Macau e aos seus habitantes como sobre a língua, escrita, civilização, história, cultura, arte e costumes, pois apresentam imagens da China e Macau a partir de diferentes perspectivas oriental e ocidental, incluindo as dos primeiros jesuítas, de literatos e filósofos chineses e de mandarins do Império Qing”.
Todas as obras de tradução de Gonzaga Gomes sobre a China e o território têm o português como “língua de chegada”, isto é, destinam-se ao público de língua portuguesa e servem o interesse dos agentes de matriz portuguesa e macaense, com que Gonzaga Gomes se identifica, refere a tese de doutoramento.
À TRIBUNA DE MACAU, Han Lili explicou que há diversos estudos que analisam a identidade macaense e mudanças ao longo do tempo, contudo, “não abordam de maneira clara e directa a identidade de papel, nem a identidade pessoal, o que justifica a necessidade de aprofundar o conhecimento da identidade macaense a partir destas vertentes”. “Para levar a cabo esta finalidade, revela-se pertinente um estudo de caso de uma figura macaense representativa numa determinada época essencial no desenvolvimento da identidade macaense. O seu desempenho, actuações e trabalhos devem, em muito, contribuir para a construção da identidade e corresponder às expectativas colectivas macaenses”.
A partir de uma nova classificação das obras de Luís Gonzaga Gomes feita por ocasião do estudo de Han Lili, foi possível identificar 232 obras sobre a China e Macau e 33 acerca da Europa, incluindo 21 sobre Portugal. Na categoria da China e Macau registam-se 30 traduções e 202 obras não-traduzidas.
“Nestas iniciativas de projecção das imagens da China e de Macau, operacionaliza-se o papel de Gonzaga Gomes enquanto divulgador e tradutor. A escolha de materiais de Luís Gonzaga Gomes reflecte as estratégias ideológicas da então elite macaense, preenchendo as expectativas colectivas da comunidade, o que posteriormente culminou na vagarosa aproximação entre os macaenses e os chineses, na década de 1960. As relações entre os dois grupos passaram a ser de diálogo cooperante e entraram numa nova fase”, apontou a docente do IPM.
Para este trabalho, Han Lili recorreu ao Arquivo de Macau, à Biblioteca Central e a Biblioteca Nacional, em Lisboa. Foram ainda consultadas a imprensa periódica de matriz portuguesa em Macau nas décadas de 1940 a 1960, e as 23 publicações pela “Colecção Notícias de Macau”.



