A pressão na compra de casa contribui para que os jovens de Macau sejam menos activos na sociedade, entende o presidente da Aliança de Instituição do Povo de Macau, sublinhando que a expressão “escravos da habitação” reflecte precisamente essa ideia. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Nick Lei pede mais atenção à situação da classe média, penalizada pelos elevados preços da habitação, e considera que os dirigentes da Administração não são os que conhecem melhor os problemas sociais, porque não ouvem a população. Lamentando a falta de jovens com espírito de dedicação ao voluntariado, o presidente da associação criada por Chan Meng Kam adianta ainda que, a curto prazo, vai ser constituído um grupo de trabalho dedicado aos assuntos das mulheres e crianças, com foco na sensibilização para a igualdade de género e dos direitos das trabalhadoras

 

Viviana Chan

 

– Como se tem desenvolvido a Aliança de Povo de Instituição de Macau nos últimos tempos?

– Temos um total de seis departamentos subordinados: a comissão para os assuntos prediais; a comissão para assuntos de saúde, que gere duas clínicas; a comissão para os assuntos juvenis; a comissão para os assuntos dos membros, cuja função é organizar actividades para os membros e recolher opiniões, entre outras coisas. Recentemente, foi criada uma nova comissão para os assuntos sociais, que se dedica a esse tema, está mais atenta aos cidadãos e trabalha também nas consultas públicas sobre as políticas do Governo. Verificámos, por exemplo, que muitos residentes desconhecem onde podem apresentar queixas sobre problemas domésticos. Temos ainda um departamento de relações públicas, responsável por escrever e editar a revista da associação, através do acompanhamento das nossas actividades. Temos sete centros de serviços espalhados por todo o território, como por exemplo, o centro de serviços de Seac Pai Van, cujo bairro tem cada vez mais moradores e as próprias instalações têm vindo a melhorar. A associação tem-se desenvolvido muito, mas como a nossa sede está situada na Zona Norte, dava a impressão de que servíamos apenas os moradores dessa área, pelo que queremos mudar esta impressão. Não queria que as pessoas nos identificassem como sendo uma associação da Zona Norte, que só serve os seus conterrâneos. Por isso, agora temos centros de serviços espalhados em zonas diferentes.

 

– Como é que passou a integrar esta associação criada por Chan Meng Kam?

– O maior motivo para desistir do trabalho anterior e integrar a associação foi Chan Meng Kam, que conheci no final de 2016. No nosso primeiro encontro, ele partilhou algumas experiências pessoais e, na sua opinião, os jovens de Macau devem pensar mais para poder contribuir mais para a sociedade. Como naquela altura, era funcionário público, julgo que Chan Meng Kam só podia falar comigo sobre coisas superficiais. Enfatizou várias vezes a visão dele sobre os jovens. A conversa que teve comigo acabou por mudar muitas ideias que tinha. Depois de vários encontros com Chan Meng Kam, surgiu a oportunidade de participar, porque a associação também está sempre a recrutar pessoas que querem muito ajudar os outros. Era funcionário público, trabalhava para servir a população, mas creio que aquilo que os funcionários públicos fazem é diferente do trabalho das associações, sobretudo porque esses trabalhadores não se deslocam à rua para ouvir a opinião das pessoas. Aliás, o grupo dos trabalhadores da Função Pública não é o que melhor conhece os problemas da sociedade. As pessoas dizem e brincam que os dirigentes do Governo ficam sentados no escritório a fazer as políticas, que apenas sabem das coisas através dos relatórios, ficando de alguma forma afastados da população. Fui funcionário público durante sete anos, sempre fiz voluntariado e quis ajudar os outros e Chan Meng Kam deu-me esta oportunidade de participar na Aliança.

 

– Foi funcionário público em que serviço?

– Trabalhei nos Serviços de Saúde e no tribunal.

 

– Acredita então que os dirigentes da Administração apenas conhecem parcialmente a realidade quando definem as políticas?

– Como referi, muitas políticas são implementadas com base em relatórios, reuniões internas, etc. As pessoas raramente vão ao terreno para conhecer a realidade das situações. Não podemos excluir a possibilidade de os funcionários públicos observarem essas questões fora do seu tempo de serviço, mas suponho que se não forem aos locais, podem chegar a conclusões a partir de um ponto de vista parcial. Como sabemos, uma moeda tem duas faces e é difícil julgar uma coisa que só vem com uma face. Na associação, temos um fórum para debater vários assuntos e essa plataforma pode ajudar-nos a perceber melhor a opinião das pessoas.

 

– Este ano, a associação comemora 10 anos. Qual é o balanço que faz dos trabalhos na qualidade de presidente?

– É uma associação muito pragmática, trabalha muito nos edifícios e na área da saúde. Quando Chan Meng Kam ainda era deputado, os trabalhos comunitários eram divulgados na imprensa e isso criou a impressão de que a associação é sempre muito corajosa na defesa dos seus objectivos, que está sempre na linha frente. Identifico-me bem com este estilo de trabalho. Ao longo de uma década, a associação cresceu muito. No início, não tinha muitos trabalhadores, os serviços não eram muito abrangentes, mas a cada mandato da direcção foram implementadas ideias diferentes. Juntamente com os esforços dos funcionários, agora já temos duas clínicas e fundámos recentemente uma associação subordinada, para jovens. Penso que o desenvolvimento da associação ao longo de dez anos foi melhorando passo a passo.

 

– Quais são as expectativas para o futuro?

– É essencial manter o nosso estilo pragmático. No futuro, precisamos de trabalhar mais no sentido de ser inovadores. Creio que consolidar apenas os serviços prediais e de saúde não será suficiente. Por exemplo, os trabalhos relacionados com os jovens são uma tarefa a que tanto o país como o Governo da RAEM atribuem muita importância. É inegável que os jovens serão a maior força impulsionadora do desenvolvimento da sociedade, por isso, a cada mandato da direcção temos a responsabilidade de pensar como é que devemos formar a juventude, dando-lhes oportunidades. É importante que os jovens de Macau participem na sociedade. Apesar da situação apresentar melhorias, os jovens de Macau não estão muito ligados ao que acontece na sociedade. Espero que a nossa actividade possa ajudar a mudar isso, ao envolver elementos de debate político.

 

– Identifica-se culturalmente com a associação? Tem origens em Fujian?

– Os meus pais são de Fujian, mas eu nasci e cresci em Macau. Por isso, percebo mas não falo o dialecto de Fujian. As pessoas podem pensar que a associação se dedica a servir a comunidade dessa região, mas queria aproveitar esta oportunidade para clarificar que entre 70% e 80% dos membros da associação e mais de 80% dos trabalhadores não têm origens em Fujian. O nosso âmbito de serviço é muito claro: destina-se a todos os residentes. Por isso, estamos a trabalhar para fundar centros de serviços em diferentes bairros.

 

– Foi candidato nas eleições legislativas de 2017. Como viveu essa experiência?

– As pessoas pensam que o período da campanha eleitoral é muito ocupado e isso é verdade, mas ao mesmo tempo não é. Nessa altura, trabalhamos mais para apelar ao voto, vamos aos bairros, mas o trabalho diário também é cansativo. Os cidadãos não votam em nós só pelo que fazemos na época de campanha, pois valorizam o trabalho diário.

 

– Houve alguma alteração ou mudança na associação decorrente do facto de Chan Meng Kam ter deixado de ser deputado?

– Chan Meng Kam continua a estar muito atento à associação e a nós. O fundador salienta sempre que vai apoiar mais os jovens e faz exactamente isso. Veja-se a deputada Song Pek Kei, que é nova, e os membros da direcção que, na sua maioria, são jovens. Si Ka Lon também é relativamente jovem. Julgo que, em comparação com as outras grandes associações, os membros da direcção têm uma idade mais baixa. Com esta iniciativa, pretendemos formar mais jovens talentos e profissionais. É verdade que, em comparação com antigamente, temos muitos profissionais jovens, mas ao mesmo tempo é uma tarefa desafiante encontrar jovens que queiram dedicar-se ao voluntariado e consequentemente ajudar as pessoas na sociedade. Acredito que todas as associações no território têm enfrentado essa dificuldade.

 

– Quais são os planos futuros da Aliança de Instituição do Povo de Macau?

– Temos alguns planos a curto prazo, como a criação de um grupo de trabalho para prestar mais atenção às mulheres e crianças. Actualmente, a população feminina supera a masculina em Macau e precisamos de dar mais ênfase ao tema da igualdade dos direitos das trabalhadoras. Embora a sociedade esteja de acordo com a igualdade de género, pode acontecer o contrário do que nós desejamos. Gostaríamos de promover medidas que sejam favoráveis às famílias, como as licenças de maternidade e de paternidade.

 

– Mas, uma das características da cultura de Fujian é o machismo. Nesse contexto, como pretendem promover a igualdade de género?

– A nossa intenção é fazer tudo pelo bem-estar das mulheres no território. Não sou machista (risos). Antes demais, quando promovemos uma ideia, temos de a  respeitar. Estamos a trabalhar na sensibilização da igualdade de género e também defendemos que as mulheres devem receber o mesmo que os homens no local de trabalho.

 

-Como funciona a interacção entre a associação e os deputados?

– Os trabalhos são divididos, porque os deputados têm muitas reuniões na AL, e isso inclui muito trabalho de estudo, pesquisa, análise, etc. Ao mesmo tempo, como a grande função dos deputados é ouvir a população, nós recolhemos opiniões dos cidadãos, através de mensagens de WeChat, e-mail, chamadas e outros métodos. Nesse sentido, precisa de haver uma cooperação entre a associação e os deputados. Quando as opiniões são recolhidas, reunimos com os deputados para falar sobre essa situação. Para além isso, e a título de exemplo, acabámos de organizar uma actividade conjunta para celebrar o Dia da Mãe e os deputados foram aos bairros connosco.

 

– A associação tem criticado muito as políticas do Governo. Na sua opinião, quais são as prioridades governativas?

– Habitação, serviços de saúde e transportes. A habitação e os transportes são os problemas mais graves na sociedade. Como já referi, é difícil motivar os jovens a participar na sociedade em Macau e isso está associado, indirectamente, ao problema da habitação. Muitos jovens concluem cursos técnicos, mas não conseguem seguir essas carreiras, porque precisam de pagar uma casa. Acabam por escolher um emprego em que ganham bem, mas de que não gostam. Mesmo que a família possa ajudar no primeiro pagamento da casa, os jovens de Macau continuam a estar sujeitos à compra de habitação. Recentemente surgiu a expressão “escravos da habitação”, e isso é verdade. Nesse sentido, estamos atentos às políticas de habitação pública e privada. Além disso, no que respeita à recente polémica sobre o aumento das tarifas de autocarros, algumas pessoas podem pensar que não faz diferença aumentar uma pataca por viagem (quem paga com Macau Pass), mas agrava as despesas da classe carenciada. Uma família pode pagar centenas ou milhares de patacas em transportes anualmente.

 

-Qual encara a fusão da TCM e da Nova Era?

-A meu ver, o pré-requisito da fusão é que não afecte os trabalhadores. Depois, se a fusão puder melhorar a coordenação das carreiras e a gestão dos autocarros não estou contra esta ideia.

 

-O empresário Kevin Ho disse que não há especulação imobiliária em Macau. Concorda?

– Claro que não concordo com esta ideia. Pode dizer-se que agora a especulação imobiliária não é tão radical como antigamente, mas o problema continua. A situação melhorou, no entanto, as pessoas estão numa fase de observação. Se negarmos a existência de especulação, não estaremos a explicar a subida radical dos preços das casas em Macau. Temos de prestar mais atenção à classe média. Em Fevereiro, o Governo lançou medidas para facilitar os empréstimos para a compra de habitação, mas isso só vai ter efeitos parciais. Os preços das casas continuam a ser elevados.

 

– Quais são as funções da recém-criada equipa de voluntários para casos de catástrofes?

– O grupo chama-se “equipa de serviço para segurança” e é composto por mais de 50 voluntários. A passagem do tufão “Hato” mostrou que o Governo tem problemas de coordenação. Esta equipa une pessoas com habilitações em diferentes áreas e com capacidade para apoiar em casos emergentes. Os voluntários são formados para reagir a certas situações e incluem engenheiros, arquitectos, canalizadores, electricistas, responsáveis pela comunicação com a polícia e bombeiros.