Há mais de 20 anos a viver em Macau, Joey Ho Chong I é pintora, curadora e fundadora da associação “Arts Empowering Lab”. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, diz não ser “difícil gerir uma associação artística, porque Macau continua a ser um sítio com muita sorte” e as gerações anteriores de artistas criaram boas bases. Apesar disso, admite que Macau ainda não é um “local maduro para as artes” e ainda há muito trabalho a fazer, incluindo na educação artística, que deveria ser direccionada à população em geral. Relativamente ao apoio do Governo ao sector, Joey Ho admite que houve investimento e encorajamento que trouxeram melhorias, mas ressalva ser necessário “ter mais paciência”, até porque “a arte não é uma área como a contabilidade”

                         

Liane Ferreira

 

-Qual é o seu papel na “Arts Empowering Lab”?

-Sou a fundadora da associação, criada há cerca de cinco anos. Um grupo de artistas, designers e pessoas com interesse em gestão juntou-se e decidimos avançar. Há uns anos era um grupo de pequena dimensão, mas tivemos sorte porque os artistas das gerações mais velhas apreciaram o nosso esforço e deram-nos muita informação útil. A nossa primeira exposição reuniu pintura, moda e ‘rock and roll’ e a segunda foi sobre fotografias antigas de Macau, mais concretamente sobre um português que viveu no território, Danilo Barreiros. Os descendentes dele vivem em Portugal, mas regressam todos os anos, porque gostam muito de Macau. Tinham muitas fotografias antigas e muito interessantes que mostram a sociedade chinesa da altura e eventos importantes.

 

-Porque é que decidiram criar a associação?

-Em Macau temos muitas associações diferentes e pensámos que podíamos ter mais capacidade e dinâmica se avançássemos sozinhos, porque quando estamos ligados a outra associação ou grupos, existem expectativas diferentes que não conseguimos atingir. Às vezes, quando cooperamos com outras pessoas, podem não gostar das ideias, por exemplo das fotos antigas. Por isso, decidimos gerir a nossa própria associação. Para além disso, quando jovens têm ideias novas, podem não ter investimento ou ajuda de outras associações, mas nós podemos ponderar e discutir. Agora, temos um evento interessante dedicado ao Porto Interior, com jovens que não pertencem à associação, mas com quem cooperamos.

 

-Tendo trabalhado no Albergue e sendo agora directora da “Arts Empowering Lab”, considera difícil gerir uma associação desta área?

-Não acho que seja difícil, porque Macau continua a ser um sítio com muita sorte. Muitos artistas com experiência construíram boas bases em termos de arte ou design. Hoje em dia, temos as chamadas indústrias criativas e o Governo investiu no sector, mas antes disso esses artistas trabalharam arduamente para criar um ambiente onde é possível fazer isso. Além disso, como Macau não é muito grande, especialmente quando comparado com outras cidades próximas, conseguimos concentrar os nossos esforços na área. Quando estava no Albergue, não tinha um salário alto, mas era muito apaixonada. Ainda me lembro das escadas no Albergue e de como pensava que tinha a oportunidade de conhecer novas pessoas e participar naqueles eventos. Estou muito grata por esse tempo, porque Carlos Marreiros é muito competente e conhece toda a gente do sector à volta do mundo e os amigos dele apoiavam muito e traziam muitos elementos novos. Como era eu que contactava com eles e fazia o acompanhamento dos projectos, podia conhecê-los e eram muito boas pessoas. Comparada com as personalidades desses seres humanos magníficos, a arte não parece assim tão importante, porque aprendemos muito com eles, com a sua personalidade e o seu conhecimento. Nessa altura, dormia três ou quatro horas por dia. Era demais para mim, e por isso dei um passo atrás, decidi fazer uma pausa para me recultivar em termos de cultura e outras coisas. Sou pintora, por isso também preciso de um tempo para mim.

 

-A associação enfrenta algum tipo de dificuldade?

-A nossa mentalidade e a atitude mudaram muito. Antigamente, havia uma preocupação sobre como sustentar uma associação deste tipo, mas depois surgiu este sítio [a Galeria At Light] e é um milagre. Mudei-me para esta zona de São Lázaro e, como costumava passar por este lindo edifício, pensava que, se algum dia conseguisse viver aqui, seria muito feliz. De repente, depois de pensar nisso, uma amiga disse-me que estavam à procura de alguém para gerir este sítio. O meu parceiro estava preocupado e questionava-se como é que íamos gerir isto, porém, acho que o primeiro passo deve ser fazer. Se estivermos sempre a calcular as consequências e como é que vai ou não ser, nunca iremos sair da zona de conforto.

 

-Então decidiram correr o risco e ficar com a galeria…

-Não diria arriscar, mas aproveitar a oportunidade. Eu e o meu parceiro gerimos a galeria, com o patrocínio da empresa de design, que aluga todo o edifício. Oferecem-nos este local gratuitamente. Somos muito sortudos. Queremos expandir e fazer projectos noutros locais, mas pretendemos que a galeria seja um ponto de partida fixo e permanente para os nossos eventos. O nosso calendário já está completo até ao próximo ano, porque as pessoas gostam muito do ambiente do edifício.

 

-Tendo em conta que já foi curadora de várias exposições e é pintora, como é que vê o desenvolvimento das artes em Macau?

-Na realidade, Macau tem uma longa história da arte. Quando voltamos atrás no tempo, e sem fazer muito esforço na pesquisa, ficamos a saber que o território foi o primeiro lugar onde surgiram quadros de pintura a óleo pela mão de Kwan Kiu Cheong, que pintava principalmente para venda, e de George Chinnery. Temos um background muito rico em termos de artes. Há algum tempo fui curadora de uma exposição em Pequim sobre as mudanças no Templo de A-Má e descobri que as primeiras fotografias tiradas na China foram em Macau e sobre o Templo de A-Má. Por isso, quanto mais longe vamos, descobrimos quão rica é a história da arte em Macau. Talvez por Macau não ser um sítio como as chamadas cidades culturais mundiais, o público em geral ignora esta história. Temos sempre os apaixonados por arte e as pessoas que gostam, mas agora devido ao encorajamento do Governo e às políticas vemos cada vez mais pessoas envolvidas nesta indústria. Mudou muito, mas não podemos dizer que Macau é um local maduro para as artes, ainda temos muito trabalho para fazer.

 

-Mas acha que o público em geral tem agora mais interesse?

-Sim, claro. Às vezes, são feitas muitas comparações entre Macau e outras cidades, mas não é justo. A população é pequena, mas a percentagem de apaixonados por arte é elevada. Além disso, mesmo os meus amigos em Pequim dizem-me que em qualquer exposição o grupo de pessoas é o mesmo. Isto é um facto que não se pode negar. Porém, as gerações mais velhas não são tão resistentes como antes, e não vão dizer: ‘não vais conseguir um emprego como pintor ou designer’. Há uma certa melhoria. Hoje em dia, como usamos o dinheiro para calcular tudo, é difícil dizer: ‘a arte é útil’. As dinastias acabaram, mas preservamos um vaso ou uma pintura e este é o poder da arte, o poder da nossa consciência de apreciar a beleza. Não podemos medir estas coisas. Outra melhoria passa também pelos espectáculos. Fui ver uma performance e a casa estava cheia, enquanto que antigamente as pessoas simplesmente não iam, não se importavam e só iam se tivessem bilhetes gratuitos. Mas, agora os Festivais de Artes e de Música também se desenvolveram e com eles a posição de Macau na Ásia. Também noto melhorias na área do design, onde o território é muito competitivo com outras cidades.

 

-Como é que avalia o apoio do Governo às indústrias criativas?

-Anteriormente, claro que criticávamos e questionávamos como é o que Governo não se focava na área, mas hoje precisamos de ter mais paciência. A arte não é uma área como a contabilidade, é preciso construir o prazer, o gosto por ela. É preciso tempo. Não podemos pedir para apoiar o sector, como se fôssemos melhores que os outros, não seria justo. Precisamos de tempo e melhorias. Por outro lado, apesar de Macau ser pequeno tem muitos sectores, não podemos pedir às pessoas responsáveis para perceberem de tudo – de pintura, cinema ou espectáculos. É uma área muito abrangente. Porém, temos de melhorar a educação para a arte, porque temos uma história muito rica. As pessoas não avançam com coragem para esta área, porque antigamente quem pintava também estava mais isolado da vida quotidiana.

 

-Fala de educação para a arte virada para as crianças ou em geral?

-Em geral. Podemos nascer com gosto pela arte, mas por vezes a nossa sociedade polui as crianças. Picasso dizia que toda a gente quer pintar como um mestre, mas os mestres querem pintar como as crianças. É um tópico vasto para discutir. Macau é uma cidade onde ainda se podem ver muitos edifícios antigos, mas é claro que podíamos ter mais se não os tivéssemos perdido para o desenvolvimento económico. O interessante é que quando se tem alguma coisa na mão, nunca se dá valor, mas quando se perde então valoriza-se. Por um lado, Macau perdeu muitas coisas, mas por outro lado, as pessoas estão a tentar encontrar a sua identidade, pensam que não devem ser relaxadas todos os dias. O passado já não volta, mas podemos repensar no porquê de ter acontecido dessa maneira. Temos de pensar, não podemos ser tão relaxados.

 

-É difícil ser-se artista em Macau?

-A minha resposta é como a do artista que temos aqui em exposição, Lai Sio Kit. Ele diz que é muito difícil vender quadros aqui e por isso não podemos relaxar. É pintor a tempo inteiro e também ensina, por isso tem as suas fontes de rendimento. Tive um professor na infância que também era artista e professor de arte na escola. Numa cidade com a escala de Macau é difícil vender.

 

-Os compradores são de Macau ou estrangeiros?

-Começamos a ver alguns coleccionadores de Macau. Na abertura desta exposição (“Tudo o que resta são memórias”) tivemos alguns coleccionadores locais, está a mudar. A situação não é tão dramática como um filme, muda todos os dias.

 

-No passado, participou na organização de muitos eventos de caridade. Considera Macau uma terra solidária e com compaixão?

-Macau não é superficial e continua a ser uma cidade compreensiva, com uma mentalidade compassiva. As pessoas criadas no território continuam a ter valores de entreajuda, são mesmo assim. Acho que este é um dos tesouros de Macau. Outras cidades não são assim, porque toda a gente anda apressada e tem medo de ser roubada, mas aqui as pessoas ainda têm esta qualidade. Lembro-me de alguns dos leilões de caridade em que participei e no primeiro no Albergue – quatro dias antes do evento não tínhamos vendido uma mesa, mas mal foi anunciado no jornal, vendemos tudo. Para além disso, acredito que o ser humano sobrevive porque é solidário, se formos apenas egoístas não sobreviveremos.

 

-Está a trabalhar em algum projecto novo? Alguma pintura?

-Sim, mas sinto-me envergonhada de falar, porque está a ir muito devagar! Estou a trabalhar numa colecção sobre sonhos. No ano passado, tive sonhos que me impressionaram muito e não consegui esquecer. Por isso, comecei a fazer um quadro e depois continuei.

 

-O que é que a inspira?

-É difícil dizer, porque nunca sei o que vou encontrar, é como um mundo desconhecido. Normalmente, se começo o primeiro, o resto flui mais facilmente. É como se fosse a primeira vez a apaixonar-nos, nunca sabemos o que vai acontecer, nem como interagir, mas depois do primeiro, os outros saem melhor.

 

-Há quem considere que pintar é um trabalho solitário. Concorda?

-Para mim é uma oportunidade para comunicar comigo mesma. Actualmente, existem muitos meios de comunicação, mas o mundo parece mais solitário do que antes. Temos tantas ferramentas, conhecemos tantas pessoas e pode parecer fácil ter amigos, mas depois esquecemo-nos de comunicar connosco mesmos. Uma das grandes qualidades da arte é que podemos falar connosco, através das formas que criamos. Algumas pessoas usam a pintura, outros a representação, mas todas são formas de comunicação. Se soubermos falar connosco próprios, também saberemos falar com os outros. Na maior parte das vezes existe uma grande ignorância das pessoas em relação a si próprias. A solidão talvez exista enquanto não podemos comunicar com outras pessoas, através dessa peça de arte, mas é um processo muito interessante. Pintar e escrever são processos muito interessantes, porque no princípio existem milhares de ideias, uma luta sobre o que escrever e como chegar a uma conclusão, mas quando se chega ao fim do processo de escrita é como conhecer um amigo novo.

 

-Como artista, como pintaria Macau? Que cores ou texturas usaria?

-Não sei. Na minha nova colecção uso laranjas e azuis. Macau é como um sonho para muitas pessoas, uns vão e vêm, outros ficam. Depende da interpretação de cada um. Não pintaria nenhuma paisagem ou edifícios, mas os meus sentimentos em relação à cidade.