Alunos do segundo ano da Licenciatura em Português da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau protagonizaram ontem a peça de teatro “O Colar” de Sophia de Mello Breyner Andresen. Fátima Almeida, professora responsável pela actuação, explica os desafios de encontrar um texto adequado ao nível de língua dos estudantes. Por sua vez, os protagonistas do espectáculo sublinham que a peça lhes permitiu aprender novas palavras em Português e ter uma relação mais próxima
Inês Almeida
O auditório da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau (UCTM) transformou-se ontem para se tornar no palco da peça de teatro “O Colar”, de Sophia de Mello Breyner Andresen, encenada por 29 alunos do segundo ano da Licenciatura em Português. Os jovens que participaram no espectáculo fazem um balanço positivo da experiência.
“Eu sou um cantor que é um conquistador e há uma menina, chamada Vanina, que se apaixona por mim. Mas, eu sou um homem que não quer casar, então, afasto-a. Ela fica muito triste”, indicou Vitória, que representou o papel de Pietro.
Vitória confessou à TRIBUNA DE MACAU ter ficado muito feliz por participar na peça por considerar que se trata de “uma boa oportunidade para praticar o Português”. “O texto era mais ou menos difícil mas, depois de praticarmos, estamos preparados”, sublinhou a estudante que considera a história “um pouco triste” uma vez que “a heroína não tem um fim muito feliz”.
Por sua vez Angela interpretou Vanina. “Sou uma menina inocente, muito viva e impetuosa”, explicou, acrescentando que considerou o papel adequado à sua personalidade. “Representar este papel não me assusta. Não acho que seja muito difícil, mas também não é muito simples. O mais complicado são algumas expressões faciais porque, para representar o papel, tenho de ficar zangada, triste, mas naturalmente não sou assim. É um pouco difícil para mim”.
Com esta peça, além de alguns conhecimentos sobre o estilo de vida dos habitantes de Veneza de antigamente, Angela diz ter aprendido “alguns modos de escrever e gramática”. “A nossa professora também nos ensinou algumas figuras de estilo. É muito bom”.
Jacinta, que interpretou o papel de empregada de Vanina, diz-se muito feliz por participar na peça de teatro por ser “uma muito boa experiência para saber mais sobre Português e a cultura portuguesa”. “Esta peça também é literatura portuguesa, portanto, pode mostrar muitos aspectos da cultura”.
Além disso, “aprendi várias palavras e expressões em Português, além de aprender a actuar e interpretar o papel da minha personagem”, frisou.
Iris, que representou o papel do Comendador, contou que começou por ler o texto e tentar compreender os pensamentos da personagem além do modo como ele deveria agir e vestir-se. “Ele é velho, gordo, tem muito dinheiro e está apaixonado por uma mulher muito jovem”, indicou Iris descrevendo a sua personagem. Com esta peça, defende, além de ter aprendido novas palavras em Português, passou a ter uma relação mais próxima com os colegas de turma.
Preparar todo este espectáculo foi um trabalho desafiante, conforme reconheceu a professora responsável. “O mais difícil foi decidir que peça poderíamos fazer, que peça seria adequada para os alunos do segundo ano nesta altura e permitia o maior número de participações. Todos participaram. Todos praticaram uma personagem. Uma personagem era feita por vários alunos e sempre que há oportunidade, em palco, isso acontece”, explicou Fátima Almeida à TRIBUNA DE MACAU.
Antes disso, foi preciso escolher o texto. “Dei cinco textos aos alunos e dividi-os por grupos e eles representaram uma cena na aula. No final, decidimos votar por qual achávamos que era mais interessante, mais fácil, e permitia mais pessoas participar. Quase todos escolheram ‘O Colar’”. Para a professora esta peça é adequada por vários motivos.
“Primeiro, é uma oportunidade de conhecerem a autora que escreveu vários livros que, para o nível deles, são adequados, por isso, começámos por conhecer a autora e isso permitiu-nos entrar em coisas mais específicas sobre a Língua Portuguesa como ter noção do que são figuras de estilo e de que os textos vão ter sempre um estilo e uma linguagem”, frisou.
Relação mais próxima
Além da aprendizagem que possibilitou, a peça de teatro teve outro efeito positivo: uma maior proximidade entre os estudantes. “A relação deles ficou mais próxima, o que também é muito positivo para aprenderem Português uns com os outros”.
Os ensaios para a peça ocuparam metade do semestre. “Dividimos o semestre em duas partes: uma seria para estudar a peça, e por isso é que também tivemos de treinar depois das aulas, sobretudo nas últimas semanas, três ou quatro vezes por semana. Eles fizeram um teste também sobre a peça porque estudámos a peça na aula, as cenas mais importantes, as personagens, características, relação entre elas, as figuras de estilo”, explicou Fátima Almeida.
Noutro momento do semestre, o foco será o texto jornalístico. “Vamos dar outro estilo, que são as notícias, para começarem a entender e estarem aptos a ler notícias de jornais e terem acesso a vários tipos de texto e de compreensão da Língua Portuguesa”.
Questionada sobre o principal desafio de concretizar este espectáculo, a professora apontou que “o mais difícil foi ter a certeza de que, apesar de ter sido uma escolha de todos, ao mesmo tempo que os desafiava, não estava a pedir algo que fosse demasiado para eles”. “Não queria que simplesmente decorassem, queria que percebessem a peça. Deixa-me feliz que alguns deles digam que aprenderam novas palavras, que queriam perceber o que a personagem pensava primeiro, porque esse era o objectivo, mais do que decorarem um texto para apresentarem”.
“Ao início pensei que se calhar devíamos nós ter criado uma peça, ter feito uma coisa mais simples, não tão longa. Fica-se sempre com a dúvida de estar a pedir o razoável para conseguirem aprender e desafiar-se”, destacou Fátima Almeida.
Cinema e palestras em português
A peça de teatro de ontem inseriu-se no programa da “Semana Cultural” da UCTM que inclui ainda palestras e cinema, explicou o coordenador da licenciatura em Português. “Além desta peça temos três seminários. Convidámos três professores, da Universidade de Macau (UM), Universidade Cidade de Macau e do Instituto Politécnico de Macau (IPM), para fazer uma apresentação sobre os estudos relacionados com a tradução, as relações entre a China e os países de Língua Portuguesa”, indicou Francisco Song à TRIBUNA DE MACAU.
Do IPM virá Han Lili para falar sobre a tradução entre Português e Chinês em Macau. “Outra professora da UM vai falar sobre como estudar Português na Universidade e como aproveitar os recursos em Macau para aperfeiçoar o nível de Português”.
Além disso, foi organizado um festival de cinema com filmes dos países lusófonos. “Há um filme do Brasil e outro sobre a Revolução dos Cravos”.
Esta semana tem como objectivo incentivar os alunos, destaca Francisco Song, “porque se só lerem e estudarem a partir do manual vão ficar aborrecidos”.



