Quem estacionar ilegalmente nas vias públicas, terá de pagar multas mais elevadas a partir de Fevereiro pela remoção e recolha dos veículos, contudo, para os motociclistas, a medida será incapaz de resolver o problema fundamental da falta de lugares de estacionamento, sobretudo na Zona Central e Norte. Alguns motociclistas dizem que chegam a ser multados quatro vezes por semana por deixar os veículos em sítios indevidos. Para Lam U Tou, presidente da Associação da Sinergia de Macau, a solução passará por mobilizar recursos públicos para transformar alguns lugares destinados a automóveis em espaços para motociclos
Rima Cui
A partir de 1 de Fevereiro, o Executivo vai aumentar as taxas cobradas pela remoção e recolha de veículos estacionados ilegalmente nas vias públicas. Confrontados com a subida que chega às 750 patacas na taxa aplicada para remover motociclos deixados na linha amarela, muitos cidadãos criticam a medida, considerando-a “inútil”. Transeuntes ouvidos pela TRIBUNA insistiram em realçar as “grandes dificuldades” encontradas no estacionamento.
“O estacionamento nas ruas está cada vez mais difícil, porque nem sequer existe um lugar disponível. No centro da cidade e na Zona Norte é impossível encontrar em lugar de estacionamento que respeite a lei”, reclamou a motociclista Cheang de forma apressada, enquanto removia o motociclo que deixara à beira do passeio para comprar um café na Zona Central.
Em declarações a este jornal, Cheang confessou que, em situações destas, costuma colocar o veículo no passeio, mas já foi multada muitas vezes pela polícia.
Na sua opinião, a actualização das taxas para remoção de viaturas bloqueadas não atingirá o objectivo. “De certeza que não é suficiente para atingir o objectivo desejado e também não vai resolver o problema fundamental da falta de lugares de estacionamento”, criticou, manifestando o desejo de ver adicionados mais lugares de estacionamento pela cidade.
Na mesma zona, Jim aproveitou uns minutos para comer uma sopa de caril com bolas de peixe e falar com este jornal, sem sequer tirar o capacete. Com o motociclo estacionado à beira da rua, o jovem queixou-se igualmente da “impossibilidade” de estacionar o veículo legalmente nas ruas e da frequência elevada com que é multado por “não haver uma solução”.
Com apenas três dias passados em 2018, Jim já foi multado uma vez este ano. Em 2017, foi multado quatro vezes e, segundo contou, muitos colegas seus chegam a ser autuados quatro vezes por semana, devido a estacionamento ilegal.
Para o motociclista, o problema é “inerente” e “não vai ser resolvido por mais que o Governo tente”, já que a área de Macau é demasiada reduzida e a taxa de crescimento dos veículos demasiado elevada.
Apesar de não ver com bons olhos o novo tarifário, o jovem salientou: “nós cidadãos não podemos discordar com uma regra já estipulada pelo Governo; a única coisa que podemos fazer é seguir”.
Por sua vez, Ho, dono de uma loja de reparação de motociclos, apontou que, nas conversas com os clientes, ouve muitas queixas sobre a falta de lugares de estacionamento. “Será inútil depender meramente da subida dos preços para assustar as pessoas. Mas, seja como for, os cidadãos precisam de usar motociclos, é impossível toda a gente andar de autocarro. Agora todos os cidadãos de Macau suspiram porque não há outro remédio”, lamentou.
Ali perto, numa beira de passeio onde estava estacionada uma fila apinhada de motociclos, a TRIBUNA encontrou um condutor a tentar arduamente inserir a mota num pequeno espaço disponível. Depois de 10 minutos de esforços em vão, desistiu e foi tentar a sorte noutro local.
Disparidade de recursos entre carros e motociclos
Lam U Tou
Durante a reportagem, a TRIBUNA deparou-se com Lam U Tou, presidente da Associação da Sinergia de Macau. Na sua análise, a medida do Governo vai ter um “impacto brutal”, sobretudo nos motociclistas e irá gerar insatisfação nos cidadãos, pois a actualização das taxas surgiu de uma só vez e em grande proporção.
Na sua observação, a disponibilidade dos lugares de estacionamento para automóveis ligeiros, incluindo nas ruas, parques privados, espaços industriais e comerciais é suficiente, e existem até alguns em excesso. Em contrapartida, a falta de lugares para motociclos é muito grande, frisou, instando as autoridades a envidar esforços para procurarem soluções no sentido de aumentar os lugares para motos e, ao mesmo tempo, melhorar o actual sistema de gestão.
Para Lam U Tou, o Governo deve mobilizar os recursos existentes para reduzir a disparidade entre lugares para automóveis e motociclos, sendo esta uma “tarefa prioritária”. Mesmo assim, lamentou que o Executivo actualize as tarifas com frequência, mas sem nunca dar a promessa aos cidadãos de aumentar os lugares de estacionamento, nem apresentar um planeamento global para a questão.
“Já mencionei muitas vezes que a procura de motociclos e carros é forte e não vai diminuir com a aplicação de medidas económicas. O problema não é meramente a dificuldade em estacionar, mas uma questão de movimentação na cidade em geral”, sublinhou Lam U Tou.
Apesar de tudo, o líder associativo reconhece que se as taxas cobradas por estacionamento ilegal fossem demasiados mais baixas poderiam estimular esse comportamento à margem da lei.



