Ao longo do ano passado não foram apresentados quaisquer pedidos relacionados com o projecto-piloto de excursões de iates entre Macau e Zhongshan, lançado em Novembro de 2016. A DSAMA justifica a tendência com o facto de ser o primeiro projecto do género no país e ressalva que, embora tenha sido aprovado, ainda há obstáculos, nomeadamente os custos associados. Henrique-Silva chama a atenção para o problema das tarifas e da falta de marinas. Já Anthony Wong acredita que a estratégia estava “condenada ao fracasso” desde o início

 

Inês Almeida

 

Depois de nos primeiros meses de implementação a Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água (DSAMA) ter recebido sete pedidos no âmbito do projecto-piloto de excursões de iates entre Macau e Zhongshan, ao longo do ano passado não foram apresentadas quaisquer solicitações.

Numa resposta à TRIBUNA DE MACAU, a DSAMA justifica a tendência com o facto de ser um projecto recente. “O Projecto-Piloto de Excursões de Iates entre Macau e Zhongshan é o primeiro deste género no país e também na região. Embora tenha sido dado luz verde em termos de políticas, ainda há obstáculos”, argumenta o organismo.

As barreiras apontadas pela DSAMA incluem o facto de os iates oriundos de Macau “serem obrigados a pagar às autoridades da China Continental uma taxa aduaneira antes de entrarem” em território chinês. Por seu turno, os barcos de recreio do Continente têm de pagar às autoridades de Macau “milhares de renminbis” para entrar no território.

“Os departamentos da China Continental estão a explorar a possibilidade de permitir que organizações ligadas ao sector paguem as taxas aduaneiras pelos proprietários dos iates e de baixar as taxas”, sublinhou a DSAMA.

Henrique-Silva (Bibito), proprietário da “Macau Sailing”, chama a atenção para o mesmo problema. “As tarifas são muito altas, o que inviabiliza que este esquema funcione”, sublinhou em declarações à TRIBUNA DE MACAU. “Por outro lado, Macau neste momento não tem condições para receber barcos, pela falta de marinas e sítios para os colocar”.

“A China está a desenvolver bastante [esta área] e Zhuhai está a criar várias opções de marinas. E há um acordo a ser firmado entre Hong Kong e Zhuhai, que não sei em que ponto está, para que barcos de Hong Kong possam ser estacionados em Zhuhai, que era uma coisa que para Macau também seria simpática”, destacou “Bibito” Henrique-Silva.

“Há muita gente que gostaria de ter barcos mas depois não teria sítio para os pôr. Hoje em dia, há opções que não têm de ser permanentes, que não têm de sair muito caras e podem criar situações provisórias até que, com o tempo, se construam marinas de uma forma mais permanente”, defendeu.

Para tal, vários espaços podem ser utilizados. “Desde em Coloane, no canal do COTAI, por exemplo, em frente ao Museu de Ciência, entre os Novos Aterros que estão a ser construídos e que são zonas bastante protegidas”.

Questionado sobre os benefícios de potenciar este sector, o responsável da “Macau Sailing” defende que, desde logo, “um turista que nos chega num iate é um bocadinho diferente do que chega num autocarro, numa excursão, para dar uma volta de um dia”. “Primeiro, é outro nível de turista, depois, barcos dão a qualquer cidade outro charme”. “Podia-se desenvolver muito mais esta indústria náutico-turística”, frisou.

Por seu turno, Anthony Wong defende que a estratégia estava “condenada ao fracasso” tendo em conta que “não há dados que comprovem o que foi proposto”. “Mesmo que o esquema funcione, o que não está a acontecer, só vai beneficiar algumas pessoas mais ricas”.

O académico da Universidade Cidade de Macau entende que o problema surge desde logo do facto de as autoridades “não compreenderem o comportamento de consumo dos visitantes e as necessidades de diversificação ao nível do turismo”. “Não é um problema de promoção mas sim de posicionamento e de criação de produtos turísticos”.

Anthony Wong lamenta ainda que este não seja “um caso isolado”. “Há tantos outros casos que já falharam e pelos quais ninguém se responsabiliza”, como as excursões em carreiras circulares no Centro Histórico. “Este caso só mostra os problemas ao nível do planeamento do turismo em Macau”, lamenta.

 

O que está planeado

O Plano Geral do Turismo, apresentado pela Direcção dos Serviços de Turismo (DST) no ano passado define vários planos relacionados com este projecto-piloto.

Ao nível das infra-estruturas, a DST propõe-se a “construir, sob o ponto de vista da estética, comodidade, conforto e outros elementos, um terminal de longo prazo, instalações de infra-estruturas para imigração, bem como a expansão de um novo ancoradouro de iates, com o objectivo de aumentar a atractividade do projecto e permitir a recepção de mais barcos de recreio que chegam a Macau”.

Além disso, o Executivo pretende “levar a cabo o planeamento e gestão marítima de acordo com as disposições sobre a utilização das áreas marítimas” e “implementar o projecto de aluguer de embarcações de iate e desenvolver mais as excursões marítimas com o objectivo de mostrar a imagem única da cidade de Macau”.

Em particular, os objectivos prevêem a promoção de “actividades de recreação mais ricas com aluguer de barcos de recreio, como exposições culturais de barcos de pesca” e “analisar a introdução de algumas actividades a bordo”.

O plano inclui ainda a intenção de aumentar o número de cidades cobertas pelo esquema. “Cobrir gradualmente mais cidades de Guangdong, especialmente em Zhuhai, Hengqin, Shenzhen, Qianhai e Nansha”.