No ano passado, cada pessoa em Macau produziu, em média, 2,13 quilos de lixo por dia, um aumento anual de 1,43%. Apesar de a produção de resíduos sólidos per capita ter vindo a crescer de ano para ano desde 2022, ainda não atingiu o nível de 2019. Ao mesmo tempo, a taxa de recolha de resíduos recicláveis caiu pelo quarto ano consecutivo, fixando-se em 21,1% em 2025, mostra o relatório do Estado do Ambiente. Por outro lado, a qualidade da água nas zonas costeiras piorou em geral, apesar de melhorias nalgumas vertentes
CATARINA PEREIRA
Embora em 2025 a qualidade ambiental global de Macau tenha continuado a “registar melhorias”, a verdade é que, no que respeita à produção de resíduos sólidos e à taxa de recolha de resíduos recicláveis, se verificou um agravamento. De acordo com o relatório do Estado do Ambiente, cada pessoa produziu, diariamente, 2,13 quilos de lixo, representando um aumento de 1,43%. Desde 2022 que a produção de resíduos sólidos per capita tem vindo a subir de ano para ano, porém o volume agora contabilizado não atinge ainda o de 2019, quando cada pessoa produzia 2,24 quilos de lixo diariamente.
No ano passado, de acordo com o relatório publicado ontem pela Direcção dos Serviços de Protecção Ambiental (DSPA), a quantidade de resíduos sólidos urbanos produzidos foi de 532.053 toneladas, traduzindo-se numa subida 1,0% face a 2024. É dito que, apesar de a população locar ser “relativamente reduzida”, a “intensidade turística é elevada”, sendo que, acrescenta-se, “a quantidade de resíduos sólidos urbanos anualmente produzida excede a quantidade normal produzida pela população local”.
Os três principais componentes físicos dos resíduos sólidos urbanos foram por ordem de percentagem: matéria orgânica, papel/cartão e plástico, representando, no total, 85,6%.
Quanto às matérias orgânicas, “que representam uma elevada proporção da composição física dos resíduos sólidos urbanos”, a DSPA diz que tem vindo a impulsionar a participação de todos os sectores na recolha dos resíduos alimentares, através de um programa-piloto para os estabelecimentos de restauração e de outro direccionado para os resíduos alimentares domésticos.
Actualmente, está a ser promovida a construção do Centro de Recuperação de Resíduos Orgânicos, prevendo-se que, após a conclusão em 2027, funcione em coordenação com o programa de reciclagem centralizado nos resíduos alimentares provenientes da indústria e comércio, “com vista a aumentar a taxa de recuperação de recursos”. Recorde-se que o Governo lançou um estudo sobre a gestão de resíduos sólidos, para implementar as políticas e linhas orientadoras de “redução de resíduos a partir da fonte e transformação de resíduos em recursos”. O que será feito em concreto não é mencionado.
Já a quantidade de resíduos de materiais de construção foi de 1.257.000 metros cúbicos, dos quais 543.000 eram lamas marinhas, significando diminuições anuais de 30,3% e 36,6%, respectivamente. O volume de escórias cresceu 28,3% para 106.268 toneladas, em termos anuais, enquanto a de cinzas volantes subiu 27,6% para 27.166 toneladas.
A DSPA aponta que, “como os recursos de solos são escassos [no território], a maior parte dos resíduos recicláveis, após pré-tratamento em Macau, é exportada para o exterior, para efeitos de reciclagem, enquanto uma pequena parte é reciclada localmente”. Segundo estimativas feitas, a taxa de recolha de resíduos recicláveis – ou seja, a percentagem de materiais recicláveis que são efectivamente recolhidos para reciclagem face ao total de resíduos desse tipo gerados pela população – foi de 21,1%, tendo caído pelo quarto ano consecutivo.
A estimativa da taxa inclui resíduos de plástico, metal, papel, resíduos alimentares, equipamentos electrónicos e eléctricos e madeiras das podas de arborização, entre outros. Segundo a DSPA, alguns tipos de resíduos não foram incluídos no cálculo porque os dados estão sujeitos a “segredo estatístico”.
Segundo as estimativas de anos anteriores, a taxa de recolha de resíduos recicláveis foi de 21,7% em 2024, tendo tido uma “descida ligeira” face ao ano anterior (22%). Em 2021 foi de 24,5%, tendo caído para 22,5% no ano seguinte. Em 2019 e 2020, fixou-se em 17,5% e 20,3%, respectivamente.
Por outro lado, a DSPA indica que a quantidade dos resíduos recicláveis recolhidos pelo próprio organismo e pelo Instituto para os Assuntos Municipais “tem vindo a aumentar constantemente”. No ano passado, a quantidade total “aumentou 6,9%” em termos homólogos, com as latas de alumínio/ferro (+19,9%), o plástico (+15,5%) e o vidro (+9,3%) a registarem os maiores aumentos.
Em termos de peso, os resíduos recicláveis com maior quantidade recolhida foram, por ordem decrescente, o papel, os equipamentos electrónicos e eléctricos, o vidro e o plástico. Além disso, o IAM recolheu 34,7 toneladas de madeiras das podas da arborização.
Actualmente, Macau conta com mais de 4.000 pontos de recolha, cujos serviços abrangem o papel, plástico, metal, garrafas de vidro, resíduos alimentares, equipamentos electrónicos e eléctricos, pilhas e baterias, lâmpadas fluorescentes e roupas usadas, entre outros. “No futuro, continuará a ser expandida e aperfeiçoada a rede comunitária de recolha de resíduos recicláveis, com o intuito de aumentar a conveniência da prática da reciclagem”, pode ler-se no documento.
Piorou qualidade das águas costeiras
Segundo o relatório, com o aumento do consumo de água nos últimos anos e na sequência da ligação gradual às instalações provisórias de tratamento de águas residuais de uma parte das águas residuais que estavam a ser descarregadas em excesso ou incorrectamente ligadas, o volume médio diário de águas residuais tratadas foi de 265.357 metros cúbicos, mais 11% face a 2024. A ETAR da Península foi a que mais tratou águas residuais, num total de 168.921 metros cúbicos (63,7% do total).
No que respeita à qualidade da água do mar, a DSPA refere que faz a monitorização periódica através de 25 pontos. De acordo com o relatório, “o índice global de avaliação das águas costeiras e o índice de avaliação da exposição não metálica desceram 3,6% e 3,2%, respectivamente, em 2025” – ou seja, a qualidade das águas costeiras piorou, por um lado, e, por outro, houve uma redução da presença de contaminação por substâncias não metálicas.
“Afectados pela qualidade global das águas marítimas, o índice global de avaliação da qualidade da água em toda a área marítima de Macau, o índice de avaliação da exposição não metálica e o índice de avaliação da exposição a metais pesados foram de 0,49, 1,07 e 0,04, respectivamente”, refere o documento.
A DSPA aponta que, nos últimos anos, o índice global de avaliação da qualidade da água em toda a área marítima “tem sido inferior ao valor padrão”, enquanto o da avaliação da exposição não metálica “tem oscilado” e o da exposição a metais pesados “tem-se mantido muito abaixo do valor padrão”.
O Governo tem vindo a construir instalações provisórias de tratamento de águas residuais, bem como a reforçar a monitorização para melhorar a situação da poluição das águas costeiras. “Por exemplo, no Porto Interior e na Baía Norte do Fai Chi Kei, (…) em 2025, já com as instalações a funcionar de forma estável, o índice de avaliação da exposição não metálica e o índice de eutrofização nos pontos de monitorização do Porto Interior e do Fai Chi Kei melhoraram”, aponta.
É referido ainda que se vão iniciar os trabalhos de estudo sobre o plano de ordenamento e monitorização da poluição hídrica no Porto Interior, mas não é revelada uma calendarização.
No que respeita à qualidade do ar, é dito que os índices se situaram entre “bom” e “perigoso”. “O número de dias em que os níveis de qualidade do ar nas seis estações de monitorização da qualidade do ar de Macau foram classificados de “bom” ou “moderado” foi de 330 dias, representando 90% do total”, refere a DSPA. A qualidade do ar foi melhor nos meses de Junho e Agosto. Os principais poluentes atmosféricos foram as partículas finas em suspensão (PM2,5) e o ozono (O3).
Quanto às reclamações sobre ruído recebidas pela DSPA e pelo Corpo de Polícia de Segurança Pública, registou-se uma descida de 3,5% em relação a 2024. As categorias de queixas com maior percentagem foram as “actividades em espaços públicos”, as “actividades da vida quotidiana e animais de estimação em edifícios habitacionais” e as “actividades industriais, comerciais e de prestação de serviços”.
Nível do mar tem subido 3,6 milímetros por ano
Segundo a análise dos dados do marégrafo, entre 1970 e 2025, o nível do mar em Macau está a subir a uma taxa média de cerca de 3,6 milímetros por ano, indica o relatório do Estado do Ambiente do ano passado. Quanto à precipitação total anual foi de 1.891,0 milímetros, “um valor considerado normal”. Em 2025, a temperatura média no território atingiu 23,2ºC, 0,4ºC acima do valor médio entre 1991 e 2020. O número de dias de tempo muito quente foi de 37, (+5,7 dias em relação ao valor médio climático); enquanto o de noites quentes foi de 11, semelhante ao valor médio. Já o número de dias de tempo muito frio foi de 27, menos 12,1. No ano transacto, Macau foi afectado por 14 tempestades tropicais.



