Vários deputados acusaram Sulu Sou de ter desrespeitado o Regimento da Assembleia Legislativa devido aos comentários “errados” e comportamento “inadequado” durante a sessão parlamentar que aprovou a nova lei de manifestações. O jovem legislador foi tido como, entre outros, “arrogante, intransigente, presunçoso” que “abusa do seu poder, não respeita as regras e não reúne qualidades para ser democrata”. Foi ainda referido como alguém que “usa a democracia para encobrir as suas ideias absolutistas”
Catarina Almeida
Na “sagrada Casa Parlamentar”, todas as “intervenções e requerimentos devem ser prudentes e responsáveis”. Mas, “lamentavelmente parece que um deputado é demasiado brincalhão, aliás, só para se mostrar, abusando mesmo dos seus poderes, usou este hemiciclo como teatro ou até obrigou toda a Assembleia a colaborar no seu ridículo espectáculo”, descreveram Kou Hoi In e Ip Sio Kai sobre o comportamento de Sulu Sou – ainda que nunca tenham usado o seu nome – na sessão plenária em que tentou adiar a votação sobre a nova lei das reuniões e manifestações.
O comportamento do jovem deputado foi amplamente criticado por vários colegas de bancada – sobretudo por aqueles que aprovaram a referida proposta de lei e na qual trabalharam durante a ausência de Sulu Sou do Hemiciclo por força de ser arguido no processo no TJB. A dupla foi ainda mais longe associando mesmo todo o episódio a uma “palhaçada” e a um “abuso das regras”.
Mais, sendo o núcleo da democracia “respeitar os outros”, Kou Hoi In e Ip Sio Kai vincaram mesmo que “não pode falar de democracia quem é arrogante, intransigente, presunçoso, abusa do seu poder, não respeita as regras e não reúne qualidades para ser democrata. E, chamar a si a pertença a um partido democrático é o maior insulto para a democracia”.
Em causa, recorde-se, está o facto do também membro da Associação Novo Macau (ANM) ter feito uma declaração de voto aos gritos, que também foi feita em nome de Pereira Coutinho, e abandonado a sala antes do fim. “[Sulu Sou] não respeitou, de todo, nem obedeceu à opinião da maioria e ao resultado da votação, pois entende que só ele é que está correcto e não consegue aceitar outras opiniões. E, obviamente, usa a democracia para encobrir as suas ideias absolutistas”, remataram.
Mas a dupla de deputados eleito por sufrágio indirecto não foi a única a dedicar a primeira intervenção no Plenário de ontem para criticar a actuação de Sulu Sou. Ma Chi Seng, nomeado pelo Chefe do Executivo, interpelou contra o deputado reprovando afirmações que teceu – nomeadamente “lixo” – revestidas de “carácter crítico e ameaçador”. “Estivemos a fazer o correcto, mas fomos acusados de “matar a democracia municipal, e isto é uma distorção da realidade. De facto, o regime democrático de cada território baseia-se no suporte legal”.
Ademais, “é impossível pôr em prática a democracia só na forma de slogans, que ignoram os factos jurídicos. Essa distorção da realidade e os comentários errados merecem esclarecimentos e correcção”, afirmou.
Para Ma Chi Seng, o colega de bancada acabou por introduzir na AL “modelos de brigas de rua” tanto que, lamentou, “vai transmitir um valor errado” quem adoptar “meios radicais e extremos, para fazer, sem considerar o ambiente objectivo, algo com que se rotula e estigmatiza os outros quando se está descontente”.
“Influência nociva do populismo”
Uma postura de “forte condenação” foi também manifestada por Lao Chi Ngai e Pang Chuan. Numa interpelação oral conjunta, os parlamentares foram claros na sua posição contra Sulu Sou naquele plenário até porque, enquanto deputado, “há que cumprir o Regimento da AL, respeitar a cultura parlamentar assinalada por harmonia e racionalidade, e obedecer aos resultados das votações”.
Um comportamento que dizem ser motivado por uma “influência nociva do populismo”. “Apesar de ter chegado ao fim do tempo disponível para usar da palavra no período de antes da ordem do dia, este Deputado não parou de gritar ‘slogans’, e esta forma de agir equivale a ser um mau perdedor, o que fez sobressair a sua irracionalidade”, vincam.
Na mesma intervenção, Lao Chi Ngai e Pang Chuan equipararam as palavras e atitudes de Sulu Sou a uma “má cultura parlamentar dos territórios vizinhos ou a cultura de manifestação” que “põe em causa a solenidade”. “Isto não só provoca desrespeito, mas também não se adequa à essência parlamentar. Não se trata isto da cultura parlamentar de Macau e, no fim, o público vai detestá-lo, o que nos leva a suspirar. Este comportamento distorcido deve ser alvo de censura e não se pode deixar que continue a acontecer no nosso hemiciclo”, salientaram.
Os deputados fizeram ainda questão de recordar que “ninguém quer ver a AL transformada num local barulhento, onde se compete para ver quem grita mais alto” – numa clara alusão à forma como Sulu Sou optou por prestar a sua declaração de voto contra a proposta de lei de criação do IAM.
De um modo geral, entendem os legisladores, o deputado terá tido como intenção “atrair a atenção dos jornalistas” com actos como “empurrar coisas das mesas para o chão ou atirar coisas”. “Lamentamos isto e gostaríamos de expressar aqui uma forte condenação”, afirmaram.
Por sua vez, Iau Teng Pio e Davis Fong criticaram Sulu Sou por ter desrespeitado também o “sistema representativo democrático” o que, por si só, “pode constituir uma violação do disposto no Regimento sobre os deveres dos Deputados”.
Também Wu Chou Kit e Chan Wa Keong optaram por abordar a questão dando ênfase às afirmação do deputado sobre os 400 anos de administração portuguesa. “Alguém, em nome de uma associação, disse aqui que “de certo modo, é mais atrasado do que há 400 anos em Macau”. Esta afirmação é correcta e há mal-entendidos? Disse ainda que “em 1583, os deputados da câmara municipal já eram eleitos por todos os residentes através da via indirecta”, então, esta afirmação merece a nossa confiança?”, questionaram.



