Durante a pandemia, registaram-se diversos casos de licenças sem vencimento entre trabalhadores portadores de deficiências, mas não houve despedimentos, indicaram à TRIBUNA DE MACAU líderes de associações que se dedicam a ajudar essas pessoas. Mais do que as dificuldades económicas, os dirigentes associativos alertam para casos de tensões familiares, alguns dos quais já envolveram conflitos físicos. Apoio psicológico e promoção de actividades recreativas são algumas soluções que apontam para contrariar o cenário, porém, admitem que não têm força suficiente quando o Governo continua a não recomendar a realização deste tipo de actividades
Rima Cui
A situação de subemprego também não poupou portadores de deficiência que trabalham, sendo que a maioria teve de tirar licenças sem vencimento, apontou à TRIBUNA DE MACAU o director da Associação de Paraolímpicos de Macau. Mesmo assim, garantiu que até agora não recebeu qualquer informação sobre despedimentos de empregados com deficiências.
“Como os empregadores são principalmente empresas de grande dimensão, incluindo operadoras de jogo, neste contexto, não podem despedir residentes, sobretudo deficientes. É uma questão de reputação a longo prazo”, sublinhou Siu Yu Hong, em declarações a este jornal.
Ho Kuok Meng, secretário-geral da Associação de Apoio aos Deficientes, notou a mesma tendência, referindo que, segundo os casos que tratou durante a pandemia, a maioria desses trabalhadores tem recebido metade do salário, trabalhando metade do mês. Embora tenha havido um alívio nas fronteiras, a situação persiste.
“Muitas destas pessoas trabalham no sector da hotelaria ou do jogo, atendendo chamadas ou fazendo trabalhos relacionados com os quartos. Ainda bem que não foram despedidos, senão seria extremamente difícil encontrarem um novo emprego no actual contexto”, sublinhou Ho Kuok Meng.
O subemprego causou pressão financeira, que se acentuou ainda mais com a inflação, alertou o responsável da Associação de Apoio aos Deficientes, observando que uma das consequências mais óbvias foi o aumento de conflitos familiares – afinal, têm também sido desafiados por problemas emocionais.
“Por isso, durante meio ano, prestámos serviços de apoio psicológico através das chamadas telefónicas e, com a estabilidade da situação epidémica, organizámos também algumas actividades recreativas para os ajudar a atenuar a tensão familiar”, salientou Ho Kuok Meng.
“Tratámos alguns casos, mas acredito que existem mais escondidos, porque muitos chineses hoje ainda continuam a viver sob o preconceito de ‘não revelar vergonhas da casa aos outros’. Os conflitos familiares não se limitaram apenas aos casais, envolveram também crianças que não podiam ir às aulas durante um longo tempo”, apontou.
Neste ponto, Ho Kuok Meng reparou que os problemas familiares são menos acentuados entre famílias com membros portadores de deficiência mas que não trabalham.
Consumo excessivo e maus hábitos
Segundo a observação do director da Associação de Paraolímpicos, além do stress económico, há um desafio ainda mais grave que tanto trabalhadores como adolescentes deficientes têm enfrentado devido à COVID-19.
“Em relação aos trabalhadores, passaram a ganhar mais tempo livre, muitos ficaram presos em casa, assim despenderam muito mais tempo a fazer compras online. Alguns até fizeram pagamentos com créditos. É uma conduta de consumo excessivo. Mas agora foram reduzidos os salários e isso pode afectar mais do que um membro da família. Os conflitos aumentaram naturalmente entre casais, alguns dos conflitos foram até físicos”, alertou Siu Yu Hong.
Para o líder associativo, há riscos destes actos se tornarem violentos, caso entretanto não haja eventos recreativos para portadores de deficiências. A verdade é que o Instituto de Acção Social mantém a orientação de não recomendar que as associações voltem a fazer este tipo de actividades.
Além disso, Siu constatou um aumento do tempo gasto em apostas online. “Procuraram soluções para desabafar e livrar-se da pressão financeira e familiar”, concluiu.
O director da Associação de Paraolímpicos destacou ainda que, com a suspensão do ensino especial, muitos estudantes passaram a vaguear mais tempo pelas ruas, criando “maus hábitos”, como beber álcool e ter atitudes agressivas. “Como muitos são hiperactivos, podem provocar facilmente conflitos físicos com outros. Já tratámos vários casos de conflito entre alunos do ensino especial e outras pessoas que frequentaram jardins”, recordou.
Ainda excluídos
Por outro lado, o secretário-geral da Associação de Apoio aos Deficientes queixou-se da inexistência de “mecanismos complementares” para garantir o direito de trabalhadores deficientes ao salário mínimo universal. Com a entrada em vigor marcada para Novembro, a respectiva lei exclui este tipo de trabalhadores. A falta de informações sobre os tratamentos especiais que contemplem os portadores de deficiências preocupa profundamente o líder associativo.
“Apesar de em geral os portadores de deficiências activos auferirem um ordenado relativamente mais elevado do que o padrão do salário mínimo, não é seguro não haver uma garantia a nível jurídico. Assim, se surgirem situações de prejuízos ao direito básico destes trabalhadores, têm de aceitar e não podem fazer nada porque não há garantia nenhuma”, enfatizou.
Para o director da Associação de Paraolímpicos, já é a altura do Governo revelar como vai actuar nesta vertente. Defendendo que as remunerações básicas de trabalhadores com deficiências não são problemáticas, mostrou-se preocupado com um futuro incerto, sobretudo com a evolução da pandemia.
Perante as actuais circunstâncias, Ho Kuok Meng apelou ao Governo para conceder um subsídio de vida extra aos portadores do Cartão de Registo de Avaliação da Deficiência.



