Os 23 membros da delegação que está a fazer uma visita comercial e cultural a Myanmar estão cheios de desejos distintos, muitos dos quais relacionados com negócios. Como pequena empreendedora de Macau que começou a comercializar produtos de acupunctura moderna há meio ano, Crystal Chui pretende “vender mais” aos clientes birmaneses. Peter Chan, CEO de uma empresa de Fujian ligada ao sector mineiro, que ganha 500 milhões de renminbis por ano, também assume a ambição de conquistar o mercado de Myanmar, classificando esta visita como o “início de tudo”

 

Rima Cui*

Em Yangon

 

Tal como um fotógrafo é sensível a uma paisagem bela, um cozinheiro a uma sopa deliciosa e um músico a uma melodia única, Crystal Chui tem olhos que conseguem perceber o estado de saúde das pessoas ao seu redor. Logo no primeiro dia da visita comercial e cultural a Yangon, organizada pela Associação de Amizade de Macau- Myanmar, a empreendedora de Macau notou que um membro da delegação estava doente e, prontamente, aliviou o sofrimento com massagens no pescoço.

Crystal Chui é representante de vendas da “Ai Ai Tie”, uma espécie de produtos de acupunctura moderna com base na medicina chinesa. Na bagagem, colocou mais de 20 caixas de produtos. “Se conseguir vender todas as caixas aos empresários de Myanmar com quem nos vamos encontrar, esta visita já valerá a pena”, confessou, entre sorrisos, ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Segundo contou, antes de enveredar por esta área, a empreendedora trabalhava no sector informático, onde, de resto, se especializou academicamente. A vida deu “uma volta” a partir do momento em que recorreu a este tipo de acupunctura para curar uma doença que afectou o filho durante muitos meses. “Até agora, investi cerca de 50 mil patacas na aquisição de produtos do Continente chinês. Macau é um bom mercado porque muitos habitantes acreditam nesta alternativa médica. Mas, nem tudo correu bem no início”, disse, com um tom de voz menos feliz.

“Encontrei muitas dificuldades na fase inicial. Por exemplo, por ser proibido ter uma barraca de vendas na rua, já que o Governo não dá as licenças, tive de me deslocar de loja em loja para fazer aquilo a que chamamos ‘visita a clientes’”, contou, revelando que, só depois de “muitas tentativas”, conseguiu aproveitar um pequeno espaço fora de um estabelecimento para vender os produtos, pagando 100 patacas por dia. “Felizmente, os clientes de Macau são muito generosos e muitos deles compram mais de 10 caixas [de uma única vez] depois da minha apresentação, durante a qual ofereço o produto para experimentarem”, indicou Crystal Chui.

Cada caixa que a empresária pretende vender em Myanmar é composta por dezenas de ramos da planta “Ai Ai Tie”, incluindo uma parte para ser colada no corpo e outra que pode servir como incenso. Esses produtos não podem ser reutilizados, sendo que cada utilização prolonga-se por 13 minutos.

Uma caixa de “Ai Ai Tie” custa 199 patacas, referiu a empreendedora, que lucra 80 patacas por cada venda e conseguiu recuperar os gastos em menos de meio ano. Segundo adiantou, o próximo passo é expandir-se para o mercado de Myanmar, onde há muitos birmaneses de origem chinesa que, “por causa de trabalhos intensivos, precisam da medicina chinesa para dar algum conforto físico”.

Neste contexto, adiantou que estabeleceu recentemente uma parceria com a Câmara do Comércio de Juventude de Myanmar em Macau, uma das organizadoras desta visita, para vender produtos no país.

 

Um negócio de família

Na mesma delegação está também Peter Chan, director executivo do “Globalstone”, empresa ligada ao sector mineiro e exportação de pedras. Fundada em 1993, gera actualmente um volume anual de negócios na ordem dos 500 milhões de renminbis. Oriundo de Fujian, o empresário herdou a empresa do pai e já trabalha no sector há uma década.

Tendo a Índia e o Camboja como zonas mineiras e os Estados Unidos e o Médio Oriente como principais alvos de exportação, Peter Chan manifesta agora interesse no mercado birmanês. “Sei que há muito procura pelas pedras que servem de decoração para pavimentos e balcões de hotéis, mas preciso de conhecer mais possíveis colaboradores, por isso, esta visita servirá como uma primeira abordagem. Terei de vir a Myanmar mais vezes para aprofundar relações com os bons clientes que espero conhecer desta vez”, referiu Peter Chan ao Jornal TRIBUNA DE MACAU.

Se a aposta birmanesa se revelar um sucesso poderá representar apenas uma parcela de 1% dos seus negócios totais, reconheceu Peter Chan, garantindo ter muita paciência e disponibilidade para ir conquistando o mercado gradualmente.

Actualmente, cerca de 100 empresas estão ligadas a este sector na China, o que não mudou o facto das pedras pretas (classe mais elevada), que se escondem nas montanhas da Província de Shanxi, terem sido sujeitas ao monopólio do Japão. Por outro lado, segundo explicou, apesar das empresas chineses de materiais de pedra quererem entrar no mercado da Europa, este é “totalmente controlado pela Itália”.

A empresa de Peter Chan também tem negócios em Angola, para onde não precisa de enviar pessoal que fale Português pois a chave do mercado angolano de materiais de pedra também está na mão dos italianos, com os quais os funcionários do empresário apenas  precisam de usar o Inglês para estabelecer comunicação. “Numa montanha, temos cerca de 30 operários a trabalhar. Mas a mineração não tem um tempo limite, tem de ser incessante. Claro que eles têm tempo para descansar durante noite”, indicou.

 

* Jornalista do JTM viajou a convite da Associação de Amizade Macau-Myanmar