O presidente da Associação de Macau para a Promoção e Intercâmbio entra a Ásia-Pacífico e a América Latina considera que o Governo tem descurado o investimento na cultura e na identidade de Macau, em contraste com a aposta na indústria do jogo. Em entrevista à TRIBUNA DE MACAU, Gary Ngai reitera que se essa tendência se mantiver, Macau corre o risco de se tornar igual a qualquer outra cidade do Sul da China. Ao nível do ensino do Português, adverte que “está cada vez pior” na Universidade de Macau, ao contrário do que sucede no Instituto Politécnico
Inês Almeida
-A Associação de Macau para a Promoção e Intercâmbio entra a Ásia-Pacífico e a América Latina (MAPEAL) tem 12 anos. Como é que tem crescido?
-Estamos a focar-nos na América Latina. Há uma comunidade muito grande, muito maior do que os falantes de Português, por isso, é muito importante conhecer outras partes da comunidade latina do mundo, não apenas a portuguesa. A nossa história desde o século XV ou XVI, quando os portugueses vieram para Macau, tem muitas ligações à América do Sul, ao México, Acapulco. Havia uma rota de Acapulco para Manila e para Macau, durante centenas de anos. A herança cultural não tem sido bem preservada em Macau em termos desta longa ligação com a América Latina, especialmente com o México mas também com outros países como o Peru, a Colômbia, o Chile. Há muitas ligações. Amigos meus destes consulados gostariam de fazer uma exposição permanente em Macau de relíquias históricas para mostrar à população e até aos turistas da China que Macau está aberto ao mundo e especialmente à América Latina, mas até a Portugal. Agora temos a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”. As palavras são novas, mas isto é histórico. Já existiu há muitos anos. Por isso, estamos a trazer a história para os tempos modernos para ligar todos os países desde a América Latina até Macau, como parte da China, ao Sudeste Asiático, Índia, África, e até aos países europeus.
-Que projectos tem a associação desenvolvido ao longo dos anos?
-Concentramo-nos no que faltava em Macau, naquela altura, há 12 anos. Só tínhamos ligações a Portugal, mas não com o resto do mundo latino. Então, escolhemos a América Latina porque tem uma população volumosa, é um continente por si só, é tão grande e tem tantas nações mas com duas principais divisões: o Brasil que faz parte dos países de Língua Portuguesa e os que falam Espanhol, também um pouco de Inglês, Holandês e Francês. Sabemos muito pouco sobre a América Latina, por isso é que temos de trazer este assunto a público para que a população saiba mais sobre o outro lado do mundo, o Hemisfério Ocidental, para aumentar as nossas relações culturais com eles. Há mais de 10 países que ainda mantêm relações com Taiwan, o maior deles é o Paraguai. Eles não querem ter ligações com a República Popular da China. Macau pode ser um intermediário. A nossa associação, por exemplo, tem duas vertentes. Uma passa por promover negócios, em colaboração com o Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau, por exemplo na Feira Internacional de Macau (MIF). Outra tem a ver com a cultura. A educação também está relacionada, mas os dois ramos principais são os negócios e a cultura. São os objectivos para os quais temos de trabalhar.
-O que estão a fazer nesses âmbitos?
-Já existimos há 10 anos, conseguimos muita coisa graças aos nossos funcionários que têm trabalhado muito, dia e noite, com muito poucos recursos. O Governo de Macau tem cortado todo o nosso financiamento. Edmund Ho, quando era Chefe do Executivo, era mais generoso a dar dinheiro. Por exemplo, para o primeiro Fórum Cultural da América Latina que tivemos cá, ele deu mais de seis milhões de patacas. É muito. Agora, do Governo de Chui Sai On recebemos um décimo disso. É muito pouco. É muito difícil, por isso, temos de limitar as nossas despesas. Por exemplo, temos uma nova conferência que vai realizar-se este mês, só 10 pessoas vêm. Como é que pode ser? Quando organizámos a primeira, em 2008, convidámos 400 pessoas, não apenas dos países latinos, de todo o mundo, académicos que estão focados em estudar sobre a América Latina e não só os que falam Espanhol, também pessoas que falam Chinês, Japonês, ou Coreano. Também muitos da Europa, até da Austrália, Nova Zelândia. Agora são só 10. Não estamos a andar para a frente, estamos a andar para trás. Qual é o problema? Os académicos queixam-se. O mundo está a andar para a frente, o processo de globalização é muito rápido. A China é a segunda no mundo em termos de poder económico e temos de comunicar mais com as pessoas que não falam Chinês no mundo. Macau pode ser usado como plataforma porque tem raízes com mais de 400 anos, ligações à comunidade que fala Português, que fala Espanhol, até a outros países asiáticos como a Índia. Porque não explorar estas relações e criar uma nova plataforma, um novo começo? Há muitas coisas que se podem fazer em Macau. Temos novos países a fazer parte da MIF, por exemplo, a Sérvia, na zona dos ‘stands’ da Europa, mas não sabemos onde pô-los. A Sérvia é um país recente, que surgiu depois da separação da antiga Jugoslávia, tem uma relação próxima com a China e também quer usar Macau para conferências. Mas, não tem apoio suficiente do Governo de Macau.
-Como é que tem progredido a relação entre Macau e os países da América Latina?
-Tem progredido, claro. A nível económico, temos um pavilhão da América Latina, que passou de seis países para 10, mas é possível ter mais. Tenho tentado convidar outros países que ainda possuem relações diplomáticas com Taiwan. Há cinco anos, fui a Taiwan e tentámos convidá-los para participar na MIF, para fazer negócios, não tem nada a ver com política. Disse para virem, criar um ‘stand’ e vender os produtos. Disseram que sim mas o Governo de Macau disse que não. Como estamos na China, o centro para as relações diplomáticas é Pequim, onde estão as Embaixadas. Em Macau há apenas consulados, como em Hong Kong. Os países da América Latina que têm relações diplomáticas com Taiwan podem vir fazer negócios se o Governo de Macau disser que sim. Mas, o Governo diz sempre que não. Bloqueia-lhes a entrada.
-De que tipo de negócios estamos a falar?
-A maioria seria a partir de Hong Kong. Temos um acordo de comércio livre, por isso, é fácil virem de Hong Kong para Macau ou até mesmo directamente. Estamos a entrar numa nova fase, depois de quase 20 anos desde a transferência de soberania. Ao longo destes 20 anos aconteceu muita coisa. Em primeiro lugar, há uma nova ideia vinda do Governo Central, de criar a Grande Baía composta por Hong Kong, Macau, Shenzhen, Zhuhai, e algumas das Províncias do Delta do Rio das Pérolas. É grande. Estamos a crescer. Temos muitos negócios para fazer no futuro, se soubermos fazer bom uso da Grande Baía. Infelizmente, o Governo de Macau não tem noção disso, está a olhar para trás, não para o futuro. Já apresentámos uma proposta ao Governo a dizer que na área da Grande Baía devíamos focar-nos na nossa identidade cultural, que é diferente de Hong Kong, Shenzhen ou outras áreas no Delta do Rio das Pérolas. Nós somos sino-portugueses, sino-latinos num sentido mais lato, e Hong Kong e as outras cidades não têm isso. Se nos concentrarmos na identidade sino-latina de Macau é possível fazer muita coisa na área da Grande Baía para competir com Hong Kong, Cantão ou Xangai, porque temos o nosso passado histórico, tanto o lado dos negócios como da cultura. Explicámos isso numa carta em nome da MAPEAL, a dizer ‘foquem-se na nossa identidade cultural, não a percam’. Tenho falado sobre isto desde 1990, desde antes da transferência de soberania. Fui a Portugal, falei com um conselheiro do Presidente e ele deu-me muito bons conselhos sobre como Macau pode sobreviver e desenvolver-se no futuro. A ideia é esta: como é que podemos fazer melhor uso da identidade latina de Macau? Como podemos fortalecê-la? Se continuarmos a lutar pela nossa identidade cultural, se não a perdermos, então, haverá um futuro melhor no qual podemos desenvolver negócios e a cultura.
-Diz que o Governo está a olhar para trás. Porquê?
-Apresentei muitas propostas, a última delas sobre a Grande Baía. Nem sequer responderam. Depois descobri que tinham ignorado as promessas anteriores. Mandaram embora Ung Vai Meng, que foi meu colega do Instituto Cultural. Ele tinha a mesma ideia que eu, de ter o desfile da Cidade Latina e fê-lo, durante quatro anos. Este ano ou no ano passado houve cortes. Depois mandaram-no embora e não recebi nenhum ‘feedback’ sobre os cortes nos apoios à parada. Alexis Tam sabe onde está o problema, mas não tem poder. Está tudo nas mãos de Chui Sai On e ele não quer ter nada a ver com isto. Para nós, é muito difícil sobreviver mesmo com os nossos projectos em curso. Para um festival cultural desta natureza é preciso fazer muita coisa, mas o orçamento não é suficiente.
-Entre os países da América Latina, a relação entre Macau e o Brasil é a mais óbvia dada a proximidade histórica e linguística…
-O Brasil é muito importante. Quando Edmund Ho se tornou no primeiro no primeiro Chefe Executivo, foi ao Brasil e nos seus discursos disse que o Brasil era uma ponte para Macau chegar aos outros países da América Latina. Esta era a sua opinião na altura e eu concordo que devíamos usar o Brasil porque temos a mesma língua, muita história. Porque não usar o Brasil como uma ponte? Mas, com Chui Sai On nunca nada aconteceu. Chui Sai On foi convidado para ir a uma conferência sobre as relações entre a China e a América Latina, incluindo Macau, no Brasil. Recusou, pelo que sei. Não sei porquê. O seu antecessor já tinha sido muito claro ao dizer que o Brasil devia ser uma ponte para Macau.
-Como é que o Brasil poderia ser essa ponte?
-O Brasil tem ligações muito fáceis com os outros países da América Latina. Têm o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL) que inclui a Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai. Há muito tempo que têm este acordo que abrange a economia e a cultura. Professores desses países, quando vieram a Macau, perguntaram ‘porque não usar o MERCOSUL como ferramenta de ligação às Províncias do Sul da China?’. Numa das nossas conferências numa edição da MIF, um orador da Argentina falou com Secretário para a Economia e Finanças, Francis Tam, e fez uma proposta de nove Províncias do Sul da China se juntarem ao MERCOSUL através de Macau. Era uma ideia muito boa, mas nunca aconteceu. Houve outras propostas apresentadas ao Governo e na altura o Executivo de Edmund Ho estava receptivo, até mesmo a usar as Ilhas Marshall, no centro do Oceano Pacífico. Francis Tam falou com pessoas da América Latina sobre usar as Ilhas Marshall para incentivar as relações económicas porque essas ilhas são boas para atracagem de navios de carga no meio do oceano. Toda a gente estava feliz e queria que isto fosse para a frente mas, novamente, não aconteceu mais nada. Outra questão tem a ver com um Festival de Cinema Latino-Americano em Macau. A proposta já foi feita há muito tempo, logo quando criámos a MAPEAL. Chui Sai On era o Secretário para os Assuntos Sociais e Cultura. Tivemos uma reunião com pessoas de estações televisivas na China e os adidos culturais de todos os países da América Latina em Macau e Hong Kong, além de um representante da Fundação Oriente. Todos chegaram à mesma conclusão de que devíamos ter um festival deste género em Macau porque temos todos os contactos culturais que podemos usar não apenas para trocar filmes mas para intercâmbio entre actores, actrizes, produtores, e comercializar os filmes da América Latina em Macau e na China que é um mercado grande. E o contrário também. Os filmes chineses passam por Macau, podem ser traduzidos para Português e Espanhol e ser enviados para a América Latina. Mais uma vez, Chui Sai On pôs tudo na gaveta e não aconteceu nada.
-Como é que tem evoluído a relação com o Brasil?
-Há um problema com o Governo. Há um núcleo relacionado com o Brasil na Universidade de Macau (UM), com professores vindos do Brasil. Ele uniu-se à MAPEAL para incentivar o aumento do volume da investigação sobre o Brasil e as relações com a China usando Macau como plataforma, incluindo uma série de projectos, além da educação em Português para a comunidade chinesa e muitas outras coisas como economia e negócios, mas houve muito pouco apoio da UM. Jorge Rangel esteve encarregue da UM quando foi criada até à transferência de soberania e depois veio outra pessoa, dos EUA. Era um engenheiro, com ideias completamente diferentes. Muitas vezes falei com Jorge Rangel e disse que ele [Wei Zhao], sendo reitor da UM devia focar os seus esforços e recursos nas ciências sociais e não na tecnologia. Outras cidades e Províncias da China também têm tecnologia e muito melhor do que nós, como Hong Kong ou Shenzhen. Porque é que haveríamos de investir todos os recursos nessa área e não na cultura? Temos de investir mais na nossa identidade cultural mas, pelo contrário, só cortam. O ensino do Português está cada vez pior, de Espanhol só há um bocadinho. Não querem contratar mais professores que dêem aulas de Espanhol. A culpa não é dos professores, é do reitor e dos dirigentes mais acima dele.
-Como é que vê o ensino do Português em Macau?
-Só o Instituto Politécnico está a fazer um bom trabalho. Tudo o resto não. Não há bons professores suficientes, falta apoio monetário, não há iniciativas suficientes. O antigo reitor na UM não estava focado na nossa identidade cultural mas devia estar. O novo é exactamente igual. Continua a direccionar os principais recursos da UM para a ciência e tecnologia. Porquê? Na China há imensas universidades que podem fazer isso. Hong Kong está muito mais avançado do que nós. Podemos ter pessoas bilingues, trilingues, multilingues em Macau.
-É uma questão de falta de interesse do Governo ou da própria população?
-Não é falta de interesse da população. A população quer aprender mais, mas não tem incentivos ou ferramentas e instrumentos para fazer isso.
-Que tipo de instrumentos ou incentivos devia haver?
-Por exemplo, na UM, deviam contratar mais professores dos países de Língua Portuguesa, de universidades de países onde se fala Espanhol, mas não fazem isso. Só cortam. Só há orçamento para as ciências e tecnologias. Isso é prioritário.
-Fora das universidades o que é que pode ser feito pelo ensino do Português?
-Os media são muito importantes para ensinar que temos de cooperar mais e fazer as coisas melhor no futuro. Há cursos pós-laborais em instituições privadas que ensinam não apenas matemática ou aritmética, mas também línguas, como é o caso do Instituto de Estudos Europeus. Eles têm muitas iniciativas. Este é apenas um exemplo. Há muitos estudantes que querem aprender, desde que haja apoio, dinheiro e tempo para estudarem.
-Macau está a ser cada vez mais integrado no Delta do Rio das Pérolas. O que poderá acontecer com esta crescente proximidade?
-É um problema de identidade. Se quisermos que Macau preserve a sua identidade cultural é preciso traçar um rumo claro nessa direcção, manter mais contacto com os países latinos e onde se fala Português. O jogo não é suficiente. É preciso investir mais na cultura, nos negócios com outros países. O Governo está focado nos casinos. Isso é trágico, mas pode mudar.
-Como?
-É uma boa questão. Toda a gente tem de contribuir para isso. A MAPEAL está a dar um contributo muito pequeno, não é suficiente.
-Que mudanças é que a integração na Grande Baía pode trazer?
-Há duas possibilidades. Uma é Macau tornar-se num apêndice de Zhuhai, que está muito próxima de nós. Num artigo que escrevi em 1990 disse que se não nos esforçarmos pela identidade cultural vamos ser um pequeno apêndice de Zhuhai. Na altura bombardearam-me com questões e disseram que não era correcto dizer isto mas expliquei que é a minha opinião. Se perdermos a cultura, tornamo-nos num pequeno apêndice de Zhuhai. Só isso.
-Qual é a outra opção?
-A outra opção é fazer um esforço para que Macau se torne numa ponte especial entre a China e a comunidade latina do mundo, em termos económicos e culturais para que as partes comuniquem mais e assim se crie um mundo melhor.
-O que vai decidir qual dos caminhos Macau irá seguir?
-Vai demorar muito tempo [a perceber], porque o Governo não tem perspectiva nenhuma do que Macau deverá fazer no futuro para nos desenvolvermos focados na nossa identidade cultural, que é o mais importante, senão, tornamo-nos numa pequena Zhuhai, Shenzhen ou outra cidade qualquer do Rio das Pérolas, porque jogo é só o que temos. Nada mais. E o jogo pode chegar a Hainão muito em breve. Eles vão desenvolver-se muito depressa e levar tudo. Já não temos muitas opções. Não vou já estar cá para experienciar tudo isto mas espero que o mundo se torne melhor para toda a gente, não apenas para os chineses mas para quem chega de outros países com o objectivo de ver Macau. Macau é diferente, a arquitectura não é como a de Hong Kong. Ainda é possível ver em Macau os costumes, o Taoismo e antigas tradições chinesas com milhares de anos. Preservámos tudo de bom que tínhamos do passado e desenvolvemo-nos. No futuro o desenvolvimento também deve ser assim, preservando a nossa identidade para que as pessoas tenham mais opções por onde escolher. Se quiserem ser engenheiros, podem ir para Hong Kong ou para a China para esses cursos, que os têm muito melhores do que os nossos. Se quiserem desenvolver a vertente mais linguística, em Inglês, podem ir para Hong Kong, mas se for em Português ou Espanhol, venham para Macau. É a única opção de futuro que temos.



