O director do departamento de transmissão e distribuição da CEM considera que uma aposta em energias renováveis no território é dificultada pela elevada densidade populacional. No entanto, Billy Chan acredita que há muito a fazer noutras direcções, nomeadamente na poupança de electricidade
Salomé Fernandes
Billy Chan participou ontem na palestra “Alterações Climáticas: que políticas e medidas preventivas contra Tufões e Cheias?”, no campus da Taipa da Universidade da Cidade de Macau. O director do departamento de transmissão e distribuição da Companhia de Electricidade de Macau (CEM) falou à TRIBUNA DE MACAU sobre a sua intervenção, sustentando que mais do que falar sobre o que pode fazer contra este tipo de desastres naturais, deve-se compreender como utilizar melhor a energia produzida.
“Mais de 40% das emissões mundiais de carbono, resultam da geração de energia. (…) Todos sabem que a emissão de carbono é dos principais contribuidores para as alterações climáticas, por isso quero mencionar que não devemos apenas estudar quais as medidas a adoptar no combate a tufões, mas como podemos tornar a produção de energia mais sustentável”, sublinhou.
O especialista considera a aplicação de energia renovável no território “desafiante”, embora reconheça ser um problema abrangente. “Todas as grandes cidades cosmopolitas o enfrentam. Por causa da elevada densidade populacional retirar espaço à instalação de painéis solares”, explicitou, acrescentando que “em Portugal ou outros países europeus com moradias individuais, é fácil colocar painéis solares”.
Em Macau, devido à necessidade de utilização de muita electricidade não possibilitaria atingir um equilíbrio, tornando-se ainda assim preciso usar muita electricidade proveniente de queima de combustíveis. “Agora importamos bastante da China Continental. Claro que se a energia que vier dessa forma for limpa nós melhoramos bastante, mas o problema de momento é que na China Continental 60% da energia produzida advém da queima de carvão, o que significa que não é muito limpa. Mas, claro que é algo que o Governo de Macau não consegue controlar”, explicou Billy Chan.
Questionado sobre se deveria haver maior diálogo bilateral para aumentar a pressão para produção de energia limpa, o responsável da CEM mostrou-se favorável, embora tenha indicado que as emissões de Macau não são elevadas devido à reduzida área. De acordo com os dados da Agência Internacional de Energia, em 2017 as emissões de carbono mundiais subiram 1,4%, depois de três anos em que o valor global das emissões tinha estagnado.
No entanto, esta tendência não se deu em todos os países, com os EUA a reduzirem as emissões devido a maior uso de energias renováveis. Países como o Reino Unido, México e Japão também tiveram um desempenho melhor. A RAEM não é mencionada, mas de acordo com o Banco Mundial, houve um pico de emissões de carbono em Macau em 2009, tendo descido para níveis semelhantes aos da década de 80 até 2014. Desde então não houve actualização dos dados.
Referindo-se às mudanças climáticas, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, disse esta semana em entrevista à BBC que “as coisas estão a piorar mais do que o previsto mas a vontade política não está tão alta quanto devia”. Um fenómeno que atribui à polarização do mundo, ao crescimento dos movimentos nacionalistas e a uma erosão da confiança entre as pessoas e as instituições políticas, organizações internacionais incluídas.
Para além de notar que “muitos países não estão a cumprir aquilo com que comprometeram” no Acordo de Paris, declarou que “mesmo o que estava acordado não é o suficiente já que levaria a um aumento de temperatura de mais de três graus até ao final do século, o que seria um desastre”. O líder das Nações Unidas sublinhou a necessidade de um “compromisso mais ambicioso” dos países nesse sentido.
Mudanças no sector energético
De acordo com Billy Chan, as alterações climáticas estão a forçar várias mudanças no sector da electricidade, nomeadamente ao nível do design do sistema de redes, e de geradores. Descreveu como o uso de grandes usinas eléctricas para transmitir energia para longe potenciava a poluição, e começa a haver uma transição para sistemas alternativos, como a rede de distribuição com geradores distribuídos. “Por exemplo, em Portugal, a energia renovável já está em muitas casas, o que significa que as pessoas não são apenas consumidoras mas também geradoras de energia”.
Billy Chan
Assim, o executivo considera que “a filosofia” da indústria irá sofrer alterações. “Não precisamos de transmitir energia de uma longa distância. Por isso a rede em si também vai mudar”, disse. Além disso, ao nível das energias verdes, consiste ainda uma esperança nos desenvolvimentos tecnológicos futuros.
“Se um dia um painel solar se tornar transparente pode ser instalado em janelas ou outras áreas que não a ser utilizadas de momento. Acredito que ainda possamos fazer isso funcionar. Mas até ao momento, a energia renovável não foi aplicada com sucesso desta maneira”, exemplificou.
Até lá, considera ainda haver muitas melhorias a serem feitas em Macau. “Se a aplicação de energia renovável em Macau não é fácil, podemos olhar noutra direcção: como poupar electricidade. Se olharmos para os edifícios, os vidros isolam bem para evitar a necessidade de ligar o ar condicionado e consumir menos energia?”, apontou.
Nos últimos anos o consumo de electricidade no território aumentou significativamente, passando de 3311,7 milhões de kWh em 2008 para 5416,6 milhões em 2017. Apesar disso, de acordo com dados da Direcção dos Serviços de Estatística e Censos, o volume da electricidade consumida cresceu apenas 0,7% entre Julho e Setembro do corrente ano em comparação com o período homólogo de 2017. Foram os agregados familiares a poupar mais, com uma quebra de 5,1%, já que as instituições governamentais aumentaram o seu consumo em 8,7%.
A maioria da energia continua a ser importada. No terceiro trimestre deste ano importaram-se 1.455 kWh de electricidade, enquanto a produção se ficou pelos 241 milhões. Destaca-se que em termos homólogos estes valores representam um crescimento de 20,4% e uma diminuição de 49,4%, respectivamente. Enquanto isso, o consumo de energia total diminuiu 14,7% quando comparado com os mesmos períodos, maioritariamente devido a uma quebra do fuelóleo e do uso de gás natural. O gasóleo continua a ser o valor acumulado mais elevado.



