Manuel da Silva Mendes é um homem reconhecido pelos seus pensamentos e pelo conhecimento que tinha da arte e cultura chinesas, no entanto, para parte da sua família era olhado com algum desdém por ter abandonado um filho para vir para Macau. Porém, Maria dos Anjos, bisneta, sublinha que sempre sentiu que tinha alguma afinidade com ele uma vez que partilha o mesmo gosto pela arte e a curiosidade pelo Oriente que a fazer sentir quase “marginal” junto dos restantes elementos da família
Inês Almeida
As comemorações dos 150 anos do nascimento de Manuel da Silva Mendes continuam e ontem decorreu no Clube Militar de Macau uma palestra dedicada ao seu legado artístico. Na audiência, esteve Maria dos Anjos Nunes da Silva Mendes, sua bisneta, que partilha o interesse pela arte e tem desenvolvido uma crescente curiosidade pela vida do seu antepassado.
“Desde que me reformei tenho tentado perceber o que se tinha passado aqui com o meu bisavô e fazer algo para recuperar a sua memória, identidade que depois destes anos tem estado esquecida”, explicou.
Para tal, começou por criar uma página na Wikipedia, depois uma no Facebook. Mais tarde, chegou ao contacto com João Botas, autor de uma biografia de Manuela da Silva Mendes.
Então, começou a investigar ainda mais. “Tinha-me perdido de uma prima minha que é neta de Silva Mendes e que já não via há uns anos. Entretanto, reencontro-a e alguém num blogue me diz que há um livro sobre as famílias macaenses e lá tinha tudo, nome, e contacto telefónico”, contou.
No entanto, grande parte da família de Maria dos Anjos Silva Mendes não partilha o interesse pela vida do bisavô. “O meu avô paterno, que me criou, era filho de Silva Mendes fora do casamento. O meu bisavô teve um primeiro filho, fora do casamento, e quando veio para Macau, o avô que me criou era ainda bebé”.
“O meu avô era um bastardo. O meu bisavô, tendo sido um homem que abandonou o filho para vir para Macau com outra senhora, foi uma pedra no sapato”, explicou, ressalvando que o avô não sentia o mesmo rancor.
Ontem, Maria dos Anjos Silva Mendes esteve naquela que foi a casa do bisavô, passou pelo cemitério e fez o percurso “daquilo que foi a vida dele”.
“Tenho também muito interesse pelo Oriente, tenho os mesmos interesses. Ninguém na minha família tinha interesse na cultura, na arte, nem no Oriente e eu achava que se calhar nem pertencia àquela família, fui sempre um bocado marginalizada durante muitos anos”, contou. “Queria ser arquitecta, mas na altura não era permitido. Fui pintora-cerâmica durante 20 anos. Depois entrei em Galerias de Arte, atingi o topo da carreira, fui curadora, directora de galerias de arte. Sempre me senti um pouco à margem da família, até que um dia soube que tinha um bisavô que era parecido”.
Quando começou a investigar sobre Silva Mendes, Maria dos Anjos optou por se focar na parte da arte, pois era a área em que exercia funções. Num livro leu que “nunca entenderia a arte chinesa se não aprendesse mandarim”, então, assim fez. “Depois, foi tudo um encadeamento”. Vir a Macau, onde estará até quinta-feira, é “um encontro com a outra parte que achava que era um problema para a minha família, por gostar do Oriente, de coisas que ninguém compreende”.
Embora o início da investigação sobre o bisavô tenha sido mais tardio, o interesse pela sua vida começou por um livro da sua autoria com excertos da filosofia Taoista. “Vivo na casa onde fui criada com os meus avós e aquele livro sempre viveu comigo e não era permitido pegar nele. Era uma chinesice que não ia entender e o livro era delicado, não era para as crianças brincarem, além de que era de um senhor qualquer que era pai do meu avô, que um dia foi para Macau e não voltou mais”. Porém, ressalvou, “claro que quando estava sozinha em casa estava sempre a ver o livro”.
Apesar de um certo “mal-estar” de uma parte da família, Maria dos Anjos da Silva Mendes sublinha que a sua tia Manuela, filha legítima de Silva Mendes, “ficou encantada quando soube que tinha um irmão” e os dois “sempre se deram bem”.
O Clube Militar teve ontem casa cheia para uma sessão que teve como orador António Conceição Júnior. Conforme avançou o Jornal TRIBUNA DE MACAU, António Conceição Júnior abordou as colecções de arte de Silva Mendes que fazem agora parte do Património de Macau. Para Conceição Júnior, Silva Mendes era “um homem extraordinariamente conhecedor da cultura chinesa”.



