Ana Margarida de Carvalho esteve ontem no edifício do Antigo Tribunal para realçar a importância de “mostrar” ao invés de “contar” na literatura com recurso a excertos de filmes antigos. A autora diz que sempre gostou de contar histórias e fala de como todas as pessoas têm algo de ficcional em si
Inês Almeida
Embora tenha começado a sua vida profissional como jornalista, Ana Margarida de Carvalho sempre teve algum interesse pela literatura, acabando por escrever os seus dois romances quando ainda exercia as funções de repórter.
“No jornalismo usamos uma linguagem mais denotativa, directa, óbvia. Na literatura podemos usar uma linguagem mais conotativa, sugestiva, com mais ou menos figuras de estilo e isso acontecia em mim em simultâneo. A única diferença é que usava a mesma matéria para o jornalismo e para os romances”, explicou à TRIBUNA DE MACAU.
Já enquanto jornalista, o que mais lhe agradava era contar histórias sobre pessoas. “Interessou-me sempre muito as entrevistas longas, perder algum tempo para perceber quem aquela pessoa é e não apenas o que ela diz. Era aquela jornalista que demorava, perdia se calhar algum tempo para conseguir que as pessoas ganhassem confiança para, no fundo, revelar-se e conseguir chegar às suas histórias, porque, às vezes, por detrás de uma opinião ou de uma fachada têm histórias interessantíssimas para contar. Sempre fui uma contadora de histórias, de uma maneira ou de outra”, destacou.
Ontem de manhã Ana Margarida de Carvalho protagonizou um “workshop” de escrita criativa focando-se na diferença entre “aprender a escrever, escrever e escrever literatura”, fazendo-o não através de textos mas sim de exemplos audiovisuais, excertos de filmes e de músicas, com o objectivo de trazer ao de cima todas as questões que se colocam a um escritor.
No Festival “Rota das Letras” vai também participar na palestra “Ficção e não-ficção: formas de ler a realidade”, com o historiador Rui Tavares. “Obviamente existem factos que aconteceram e pessoas reais na História. O que acontece é que um historiador também organiza factos de uma forma coerente, mas de acordo com uma perspectiva e um ponto de vista. A História não é uma ciência exacta, são versões parciais, parcelares, portanto, entre isso e uma ficção, às vezes, pode não haver uma diferença tão óbvia como pensamos”, defende.
Além disso, acredita a autora, todas as pessoas têm algo de ficcional em si. “A nossa vida passada é real, somos compostos pelas coisas que nos aconteceram, os filmes que vemos, livros que lemos, mas também por uma parte ficcional, as coisas que podiam ter acontecido mas não aconteceram, os projectos que tínhamos e falharam, as promessas que fizemos a nós próprios e não foram concluídas, as nossas paixões inconclusas”.
A escritora portuguesa disse ter ficado “muito honrada e satisfeita” com o convite que a trouxe a Macau. “É estranho e interessante ao mesmo tempo como nós portugueses fomos deixando migalhas e algumas marcas muito importantes como a língua pelo mundo”, destacou.



