Há 60 anos que a Associação Fotográfica de Macau promove essa arte no território e leva além-fronteiras o que de bem se faz no sector. À TRIBUNA DE MACAU, membros da direcção explicam como a associação tem conseguido resistir à evolução dos tempos, tendo em conta que o modo como o ser humano interage com a fotografia está em constante mudança
Catarina Almeida
Em 1839, o artista Louis-Jacques Mandé Daguerre apresentou, em França, o protótipo daquela que seria a primeira máquina fotográfica e num espaço de meses chegou aos quatro cantos do mundo. Embora essa seja definida como a data oficial da invenção da fotografia, por ter começado a mudar a experiência humana, existem registos de que a técnica já existia há algum tempo.
Associação Fotográfica nasceu em 1958
No território, foi há 60 anos que a primeira associação inteiramente dedicada à fotografia nasceu sob a designação de Associação Fotográfica de Macau. O aniversário é assinalado este domingo, com várias actividades, incluindo uma exposição de trabalhos de 136 fotógrafos oriundos de 58 países e regiões, que estarão em exibição no Museu das Ofertas sobre a Transferência de Soberania. A associação, como explicaram os membros da direcção à TRIBUNA DE MACAU, convidou vários fotógrafos seniores, profissionais e presidentes das organizações de fotografia de todo o mundo para exibirem trabalhos que no passado conquistaram prémios, títulos e honras.
A nível mais oficial, no domingo, terá lugar um jantar para assinalar o aniversário depois de uma palestra que contará com a presença, entre outras personalidades, de Riccardo Busi, presidente da Federação Internacional de Arte Fotográfica.
Delegação visitou a China em 1962
A longo prazo está previsto mais um evento cultural, desta vez em Portugal. No dia 27 de Novembro, na Delegação Económica e Comercial de Macau em Lisboa, serão expostos trabalhos fotográficos relacionados com o “Novo Visual de Macau”. Nessa ocasião, a Associação Fotográfica estará representada por 21 membros que aproveitarão a curta passagem pela capital portuguesa para fotografar. Esses trabalhos servirão de mote para uma mostra na RAEM, em Março, para assinalar os 40 anos do restabelecimento das relações diplomáticas entre a China e Portugal.
A evolução dos tempos
A associação foi constituída numa altura em que a fotografia não estava ao alcance de todos já que só comprava material fotográfico quem tivesse capacidade financeira para tal. “Na década de 60/70 era difícil ter uma máquina fotográfica mas agora os tempos mudaram. Cada pessoa consegue, com maior facilidade, comprar uma máquina. Antigamente, só as famílias mais abastadas tinham possibilidade para isso; ao mesmo tempo, a maioria dos sócios e membros da nossa associação eram fotógrafos profissionais – ou seja, a fotografia era o ganha-pão – e donos de lojas de fotografia”, explicou Kuok Keng Man, vice-presidente da Assembleia-Geral, à TRIBUNA DE MACAU.
Membros praticavam técnicas de retratos ao ar livre
A relação com a fotografia, a imagem, era por isso diferente de hoje. Para Kuok Keng Man, nos primórdios da associação, era notória a interacção com as fotografias até porque “eram mais valorizadas”. “Hoje em dia, é muito mais fácil: os telemóveis têm câmara, as câmaras fotográficas são digitais. Antes, as pessoas tiravam as fotografias, guardavam e hoje em dia têm valor acrescido – por serem antigas. Por outro lado, hoje por ser muito mais fácil já não valem tanto”, apontou. O objectivo era atingir a perfeição enquanto que hoje valorizam-se fotografias que pecam por essa característica.
“Quando tiravam as fotografias pensavam mais em todo o processo antes de captar a imagem, mas hoje em dia o processo é inverso: tiram-se várias fotografias e só depois é que se escolhe as que ficaram melhores, porque com a Internet muitas pessoas tiram as fotografias e colocam logo nas redes sociais. A fotografia caminha para um futuro cada vez mais modernizado e digitalizado”, reconheceu o responsável.
Nesse sentido, acrescenta, “tudo tinha de estar perfeito e muito profissional, mas hoje em dia as fotografias são tiradas mais à toa. No mês passado participei em duas palestras – uma só dedicada aos telemóveis e reconheço que também preciso e quero aprender mais sobre esta realidade. Ainda há muitos amantes da fotografia [em Macau], pessoas que gostam de tirar fotografias com os seus telemóveis mas que também gostam do lado mais profissional. Por isso, também nos pedem para ensinar a tirar fotografias com qualidade, mais profissional”, notou.
2º Salão Internacional de Fotografia decorreu em 1983
Perante essa realidade, a Associação Fotográfica tenta, de certa forma, adaptar-se aos novos tempos, modas e gostos. Por esse motivo, continua a apostar nos cursos para todos os que queiram aperfeiçoar ou aprender do zero a fotografar profissionalmente, mas sem truques já que tudo é manual. Em colaboração com os Serviços de Educação e Juventude, os jovens com menos de 29 anos podem inscrever-se no curso, realizado todos os anos. Já para os interessados com mais de 29 anos – incluindo funcionários públicos – os cursos só abrem mediante o número viável de inscritos. “Temos quatro a cinco formadores. Cada professor ensina determinado tipo de fotografias, como retratos, paisagens, desportivas”, explicou Kuok Keng Man.
“Muitos jovens não gostam do digital, voltaram a usar as máquinas analógicas mas a nossa associação não ensina porque a maioria tem máquinas digitais. Temos casos de alunos que voltaram para máquinas analógicas, mas depois de aprenderem a usar as digitais de forma mais profissional. Temos sala de revelação mas deixámos de a usar”, disse.
Hoje, com mais de 700 membros de vários quadrantes – desde personalidade reconhecidas a amantes e profissionais de fotografia -, a associação aposta muito na vertente educativa. Mas, nem sempre foi assim. “Antes de 1999, a maioria dos nossos membros era comerciante [havendo também membros reconhecidos a nível político, social e cultural]. Sendo uma associação sem fins-lucrativos, os comerciantes, Dr. Edmund Ho e outros sócios ajudavam-nos a organizar alguns concursos e patrocinavam os nossos jantar, os prémios, etc”, contou Kuok Keng Man.
Depois da transferência de soberania, os apoios começaram também a vir do Governo: um subsídio anual de aproximadamente 300 mil patacas, além de apoios financeiros-extra para cobrir gastos com determinadas actividades, e a ajuda dos sócios e membros. Mas, em 60 anos de existência, houve momentos difíceis, recorda Kuok Meng Man.
“A fase mais difícil foi por volta do ano de 1977 porque não havia dinheiro, tínhamos menos patrocinadores. Mas, em 1979, a associação comprou o rés-do-chão [da actual sede] e em 2008 adquiriu o primeiro andar graças à ajuda monetária dos membros honorários, sócios e presidentes. Estamos, neste momento, numa fase estável”, explicou. Tanto que, de acordo com o presidente da Assembleia-Geral, Adriano Ma, devido à necessidade do espaço, os membros tiveram de contribuir financeiramente. “Antes de comprarmos o espaço tínhamos de pagar a renda mensal e, nesse altura, cada membro da associação ficava responsável por assegurar uma mensalidade. Foi, por isso, uma fase mais difícil”, disse.
À medida que o mundo fotográfico vai crescendo e acompanhando a evolução dos tempos, a Associação Fotográfica de Macau continua fiel ao seu objectivo: criar condições para que os membros e amantes desta arte “continuem a tirar fotografias e a partilhar os trabalhos”.



