A ponte que vai estabelecer a ligação entre Hong Kong, Zhuhai e Macau vai beneficiar primariamente o sector de exposições e convenções, acredita o presidente da Sands China. A ideia é que Macau absorva o excedente de mercado que se faz sentir na região administrativa especial vizinha. As operadoras de jogo frisaram a importância da tecnologia no desenvolvimento do turismo na RAEM

 

Salomé Fernandes

 

O sector de exposições e convenções (MICE) será o que mais beneficiará da abertura da ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. A ideia foi ontem defendida por Wilfred Wong, presidente e director executivo da Sands China, e por Allan Zeman, presidente não executivo da Wynn Macau, no âmbito do congresso da “Global Gaming Expo Asia” (G2E Asia), intitulado “O mercado para a indústria de jogo e entretenimento da Ásia”. Durante a palestra, onde Maria Helena de Senna Fernandes também marcou presença, a directora dos Serviços de Turismo (DST) mostrou-se conservadora relativamente à proporção de jogo versus entretenimento.

“Conectividade é chave em qualquer parte do mundo. Passa a haver livre circulação de capital, pessoas e bens. O primeiro a beneficiar vai ser o sector MICE. (…) Há tantas convenções que Hong Kong tem de recusar e que Macau pode receber. Depois, uma vez que haja visitantes em Macau, as pequenas e médias empresas (PME) irão beneficiar, porque as pessoas vão querer visitar a cidade”, declarou Wilfred Wong, acerca da abertura da ponte do Delta. O executivo reconhece que “um ambiente dominado apenas por grandes operadoras não é saudável”, sendo por isso que os resorts integrados devem apoiar as PME.

Allan Zeman apoiou esta visão. “Há mais dinheiro para gastar do que noutras cidades por causa do jogo. A nova ponte entre Hong Kong e Macau vai mudar as coisas também. Quando se fala de convenções, a minha previsão é que quando a ponte abrir [Hong Kong e Macau] vão tornar-se irmão e irmã. As convenções vão localizar-se em Macau também. Vai-se ver essa mudança”, disse.

Nesse contexto, o aeroporto de Hong Kong ganhará redobrado valor, apesar da directora da DST garantir que o de Macau continuará a desempenhar um papel importante em termos de ligações regionais.

A crença nos benefícios que a abertura da ponte trará à indústria do turismo levantou, no entanto, questões em termos de capacidades de pessoas e transportes, nomeadamente de táxis. Para dar resposta às limitações apontadas pelos empresários, o Governo deve investir na formação de quadros e em tecnologia, comentou Helena de Senna Fernandes.

A transformação de Macau enquanto centro de entretenimento da Ásia passa também pela diversificação da economia e das ofertas nos resorts. “Não devemos ser tímidos em relação ao facto de termos jogo, mas focar-nos no ângulo positivo, de que podemos oferecer muitos outros serviços”, indicou Wilfred Wong.

Allan Zeman frisou que, do mesmo modo que nos EUA se assistiu a mudanças nos resorts, onde o jogo passou a representar 40% e o entretenimento 60% das ofertas a turistas, também em Macau se verifica uma transformação, com o aumento de centros comerciais e restaurantes de estrelas Michelin, apesar de a China ser culturalmente mais voltada para o jogo. “Não vou ser tão ambiciosa ao ponto de dizer que teremos 60% de actividades não-jogo. Vou ser mais conservadora e dizer que será 40% de entretenimento e 60% de jogo”, respondeu Helena de Senna Fernandes.

 

Táxis afectam imagem de Macau

No que toca aos transportes, a directora da DST comentou no final da conferência que o caso de passageira sequestrada pelo taxista foi individual, não significando que haja problemas em todo o sector. No entanto, alertou que “a cobrança abusiva e a recusa de transporte de passageiros, praticadas por uma parte de taxistas, afectam a imagem turística de Macau”. “As respectivas notícias vão também agravar a impressão negativa sobre Macau e preocupações dos turistas”, lamentou.

Helena de Senna Fernandes espera um reordenamento do sector através da revisão do regulamento dos táxis e das acções de combate das autoridades policiais. De acordo com a responsável, a DST recebe um elevado número de queixas associadas aos serviços de táxis, tendo de encaminhar as denúncias à Direcção dos Serviços para os Assuntos de Tráfego todas as semanas, pelo que quer que a situação seja travada.

Ainda no âmbito dos transportes, mas voltados para o mar, Helena de Senna Fernandes recordou estar em negociações com um investidor local, com o qual já trabalha há dois anos, para a criação de passeios recreativos de barco pela zona costeira de Macau, indicando que serão divulgadas “boas notícias” até ao final do ano.

A vontade de que o percurso integre a zona da Barra, pela proximidade ao Templo de A-Má, onde os primeiros navegadores portugueses terão desembarcado, levanta questões técnicas. A directora da DST aguarda assim os resultados de um estudo da Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e Água para avançar com o projecto.

 

Tecnologia nas fronteiras

A atracção de tantas pessoas até Macau requer que o território “passe ao nível seguinte”. Em jeito de jogo de computador, esta próxima fase deverá envolver centros culturais e tecnológicos. “Macau certamente tem o dinheiro”, disse Allan Zeman. O capital financeiro e a pequena dimensão geográfica aumentam o potencial do território: se o investimento for feito e houver determinação é mais fácil transformar a cidade, acredita o representante do Wynn Macau. Estas transformações deverão tornar-se ainda mais visíveis a longo prazo, com o desenvolvimento da Grande Baía.

“Toda esta área vai mudar com a Grande Baía. Por causa da tecnologia, eventualmente as fronteiras vão desaparecer porque vai haver reconhecimento facial e inteligência artificial. O problema é a infra-estrutura”, comentou. De acordo com Allan Zeman, é necessário apostar em espectáculos, museus, centros de inovação e centros tecnológicos. “A tecnologia pode ajudar Macau a tornar-se uma cidade inteligente. A nuvem electrónica vai ajudar a regular a vida das pessoas de Macau. Quer lutemos contra isso ou não vai chegar. Vai ser um lugar diferente mas fantástico”, frisou.

Apesar das crenças de Zeman no desenvolvimento tecnológico do território, Helena de Senna Fernandes foi mais cautelosa. “Um dos assuntos que temos de ter em conta é a protecção e partilha de dados”, referiu. Recordando o acordo assinado há cerca de um ano com o grupo Alibaba, sublinhou que a tecnologia se deverá focar em desenvolver turismo inteligente, transporte inteligente e saúde inteligente. “Olhando para a China há uma integração muito grande entre turismo e cultura, com a fusão dos ministérios. Esse será o caminho do futuro”, rematou a directora da DST.

 

Proposta sobre acesso a casinos prestes a entrar na AL

A proposta de lei do acesso e condicionamento de entrada nos casinos deverá ser entregue à Assembleia Legislativa ainda na primeira metade deste ano, indicou o jornal “Ou Mun”. “Estamos apenas a ajustar a tradução e alguns pormenores”, disse Paulo Martins Chan, director da Inspecção e Coordenação de Jogos (DICJ), à margem da “Global Gaming Expo Asia” (G2E Asia). Para além disso, já foi concluída a consulta ao sector sobre o regulamento das “slot-machines”, embora não seja a prioridade para entrada em procedimento legislativo. Quanto às criptomoedas, o responsável indicou ainda que o seu uso nunca foi autorizado no sector do jogo, algo que não se alterará “em breve”. Em relação às tendências mundiais do jogo disse apenas que “os elementos de resorts integrados deverão ser diferentes de destino para destino porque cada jurisdição de jogo tem o seu próprio contexto social, económico e político”.