Com a conclusão de obras de grande dimensão lançadas pelos casinos, o sector da construção local perdeu negócios e enfrenta uma concorrência renhida, numa fase “um pouco difícil”, garante o presidente da Associação de Engenharia e Construção de Macau. Para Lin Jiang, académico da Universidade de Zhongshan, a solução pode passar por encorajar a entrada no mercado de construção de infraestruturas em cidades vizinhas

 

Rima Cui

 

O sector da construção de Macau está a atravessar uma fase em que “os cereais ainda não estão maduros mas os alimentos acumulados já foram consumidos”, porque com o término de projectos de hotéis de grande dimensão esse “buraco” só pode ser tapado se surgirem muitas obras públicas. A isso soma-se a forte concorrência, frisou ontem o presidente da Associação de Engenharia e Construção de Macau.

À margem de um colóquio sobre a actualidade e oportunidades de desenvolvimento da área de construção, Tang Hon Cheong notou que as obras de hotéis envolvem, por norma, 30 a 40 mil milhões de patacas, enquanto outras de matriz privada e os projectos do Governo representam 10 mil milhões. “Com os hotéis concluídos, o montante total do sector de construção passa para apenas um terço”, lamentou.

Neste ponto, recordou que desde 2003 surgiram duas “ondas” de concentração de empreitadas de construção de hotéis de grande dimensão. Mesmo assim, Tang Hon Cheong acredita que “o futuro do sector de construção de Macau vai ser muito bom”. “O sector não parou. Apenas houve um abrandamento do ritmo de desenvolvimento”.

Nesse contexto, Lin Jiang, subdirector do Centro de Estudo da Universidade de Zhongshan para Hong Kong, Macau e Rio das Pérolas diz que a solução para o sector ganhar uma nova vida passa por participar na construção de infraestruturas de cidades vizinhas, sobretudo a oeste da Província de Guangdong, agarrando assim as oportunidades derivadas do projecto da Grande Baía. “Nos próximos anos, as infraestruturas do Continente chinês vão crescer rapidamente, pelo que será necessário construir linhas de comboios de alta velocidade e linhas de Metro. Mesmo em Dongguan vai ser construído um Metro”, frisou.

O especialista sugeriu que os profissionais locais da área de construção procurem trabalhos no Continente, apontando Zhongshan e Jiangmen como cidades mais adequadas para essa cooperação. Além disso, espera que seja concretizado mais rápido possível o reconhecimento de mecânicos, engenheiros e empreiteiros, entre o Continente e Macau.

 

Gestão jurídica nas obras

Para o advogado José Leitão, “a importância da gestão jurídica nas obras é cada vez mais relevante porque é importante que os empreiteiros tenham conhecimento total das normas dos contratos e das normas jurídicas que regem as obras públicas”.

Em declarações à TRIBUNA DE MACAU, o também consultor da Associação de Engenharia e Construção explicou que o colóquio teve como objectivo sensibilizar os empreiteiros para este conceito, partilhar visões sobre o regime jurídico do contrato das empreitadas de obras públicas e alertá-los para a importância de ter em conta todas as implicações legais e contratuais. Apesar de entender que os empreiteiros locais conhecem bem as leis, alertou para alguma falta de articulação e coordenação.

Sobre a actualidade e futuro do sector de construção do território, José Leitão considera que se está perante uma fase de transição devido à conclusão de grandes projectos de casinos. Mesmo assim, acredita que esta fase é relevante por estarem em causa projectos públicos importantes, como os Novos Aterros, aproveitamento de terrenos e o Metro Ligeiro. “Há muitas coisas ainda por fazer em Macau em termos de construção. Acho que a construção vai ser um sector com papel económico e social muito importante nos próximos anos”.

Embora tenham sido revelados casos de violação à lei nos terrenos do Alto de Coloane e da Fábrica de Panchões, o advogado prefere acreditar que “a imagem dos construtores e da construção de Macau não tem de sair beliscada por isso”.