Apesar de se mostrar “particularmente feliz” com o facto de inaugurar a Linha da Taipa ainda durante o seu primeiro mandato, Raimundo do Rosário confessou estar “apreensivo”. O Secretário reconheceu que, por enquanto, “a utilidade é limitada” e recomendou que, “de um ponto de vista de lazer”, a população utilize o Metro para ver a Taipa “de um plano mais elevado”. Até ao final do mês, as viagens são grátis para “atrair” mais pessoas. O Secretário defendeu ainda ser injusto dizer que cada quilómetro da Linha da Taipa custou mil milhões de patacas

 

Catarina Pereira

 

“Está tudo ou não? Ainda há mais jornalistas?”, perguntava o Secretário para os Transportes e Obras Públicas já instalado no Metro Ligeiro (MLM). A carruagem estava pronta a seguir viagem depois da cerimónia de inauguração que não durou mais de 15 minutos e que contou com a presença do Chefe do Executivo, Chui Sai On. Uma cerimónia “simples” por detrás da qual houve “imenso trabalho”, observou Raimundo do Rosário, reforçando a ideia de que edificar o projecto não foi tarefa fácil. Afinal, só arrancou mais de uma década depois de ter sido anunciado.

Mostrando-se “naturalmente satisfeito” por inaugurar a Linha da Taipa, Raimundo do Rosário afirmou, minutos antes em declarações aos jornalistas, estar feliz por poder dizer que “os residentes de Macau vão poder utilizar o Metro” ainda durante o seu primeiro mandato – uma promessa que tinha feito nesta “fase final” e que vê agora cumprida.

Adiantando que o orçamento final da Linha da Taipa ronda os “10,1 ou 10,2 mil milhões de patacas” – um valor abaixo do estimado inicialmente, 11 mil milhões -, o Secretário recusou “dividir” o montante pelos 9,3 quilómetros de extensão da linha. Dizendo ser injusto fazer as contas dessa forma, explicou que o montante inclui a construção do Parque de Materiais e Oficina, os sistemas e as composições, bem como as obras de construção da linha em si e as passagens superiores para peões.

Durante a cerimónia de inauguração, o presidente da Sociedade do Metro, Ho Cheong Kei, lembrou que nos últimos oito anos encontraram “vários desafios e dificuldades”, tendo o projecto ficado a certa altura “numa situação muito delicada”. Porém, prosseguiu, “conseguimos ultrapassar essas dificuldades, umas a seguir às outras”. Os erros, esses servem ao mesmo tempo de “experiências valiosas” que serão tidas em conta na “execução das construções posteriores”.

Raimundo do Rosário confessou estar, por outro lado, “apreensivo” por ser a primeira vez que Macau vê um Metro Ligeiro como meio de transporte. “Não deixa de ser a primeira vez, portanto, faço votos para que corra bem. Tenho consciência de que a primeira impressão é muito importante, portanto, fizemos tudo e mais alguma coisa para que tudo corra bem, não só no primeiro dia como nos restantes”, frisou.

O Metro abriu as portas ao público às 15:33. Porquê a uma hora tão específica? “Foram os meus colegas que escolheram, mas penso que tem a ver com o Feng Shui. Estou a presumir – e não devo estar muito longe da verdade -, mas em chinês o ‘três’ é muito próximo da palavra ‘vida’ e, portanto, ‘33’ é ‘vida’. É para que isto corra bem. Para que seja uma vida saudável e boa”, prosseguiu.

Reforçando que são necessárias 600 pessoas (cerca de 80% são residentes) para operar a Linha da Taipa, Raimundo do Rosário revelou ainda que o custo anual de electricidade para este segmento será de 40 milhões de patacas – “Pôr isto tudo a funcionar não é nada barato”, sublinhou. O Secretário lembrou ainda que o antigo Gabinete para as Infraestruturas de Transportes (GIT) tinha 300 contratos, sendo que, destes, alguns foram transferidos para a Direcção dos Assuntos do Tráfego (DSAT), “que regulará o sistema de transporte”, outros para o Gabinete de Desenvolvimento de Infraestruturas (GDI) e que os restantes “serão transferidos para o MLM”, um processo que ainda se encontra em curso.

 

20 mil passageiros por dia é estimativa “altamente falível”

E qual a estimativa para o número de passageiros a utilizar o Metro? O Governo prevê que vá ser utilizado por “cerca de 20 mil pessoas por dia”, mas o Secretário não quer fazer “publicidade” até porque é um valor “altamente falível”. “Este valor tem vindo, sucessivamente, a ser ajustado, mas como se trata de um meio de transporte novo, temos muita dificuldade em acertar”, apontou. Raimundo do Rosário não faz ideia de qual será “o grau de receptividade que o Metro vai ter”, mas há algo que pode ajudar. “Até ao fim do mês não se paga. E porque é que fizemos isto? Para ver se atraímos mais algumas pessoas”, observou.

Raimundo do Rosário recomenda “vivamente” que todos andem de Metro, e, apesar de lembrar que a primeira função é ser um meio de transporte, reconhece que, por enquanto, “a utilidade é limitada porque vai de uma ponta a outra, não circula”. “Mas acho que em todo o mundo começou por uma linha e depois é que foi aumentando”. Assim, “de um ponto de vista de lazer, de passeio”, sugere que os cidadãos escolham “um lugar à janela” para poderem ver “a Taipa de cima”. “Recomendo que todos vejam a Taipa de um plano mais elevado”, frisou.

O serviço de transporte de passageiros no Metro funciona diariamente um mínimo de 16 horas, sendo a frequência normal de circulação de cinco a 10 minutos, lê-se no despacho publicado em Boletim Oficial. A frequência pode ser aumentada ou reduzida aos fins-de-semana, feriados ou situações excepcionais. Além disso, a operadora deve informar o público com a antecedência mínima de dois dias em caso de alteração do horário e manter actualizadas as informações sobre a frequência de circulação nas estações e na página electrónica.

 

Sistema de preços pensado para “não baralhar as pessoas”

Raimundo do Rosário sublinhou que uma das preocupações que o Governo teve foi a de ter por base o mesmo sistema de pagamento que têm os autocarros, mas com uma ligeira diferença. Neste caso foi introduzido um sistema de zonas, sendo que o preço varia consoante o número de estações pelas quais se passe: três estações equivalem a seis patacas para quem pague em numerário, e três para quem use o cartão; seis correspondem a oito patacas (quatro em cartão) e 10 estações equivalem a 10 ou cinco patacas, respectivamente.

“Este sistema do Metro é muito caro e achámos que não era razoável fazer como nos autocarros, em que a pessoa pode ir de uma ponta à outra pelo mesmo valor”, explicou, frisando que o preço de base é o mesmo que o dos autocarros. Uma vez que a linha tem apenas 11 estações, significa que os preços devem subir à medida que se acrescentem outros pontos de paragem. Questionado sobre se poderá ser equacionado um passe mensal para quem utilize o Metro com regularidade, o Secretário disse que o importante é o sistema ser o mesmo para “não baralhar as pessoas”.

Entre os títulos de transporte contam-se as moedas plásticas de utilização única por viagem, para o uso dos passageiros em geral, as quais podem corresponder a diferentes valores tarifários; cartões electrónicos pré-pagos, para o uso dos passageiros em geral, estudantes, idosos e portadores de deficiência – os dois últimos estão isentos de pagamento de tarifa, à semelhança das crianças com altura inferior a um metro, que, por sua vez, só podem viajar acompanhadas por um adulto.