Isabel Domingos, primeira embaixadora de São Tomé e Príncipe na China desde que os laços diplomáticos foram reatados, olha para a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” como um sistema de ganhos partilhado. Apesar de considerar que o seu país já é conhecido em Macau quer reforçar a divulgação das suas características, nomeadamente na vertente cultural, e aprofundar as relações bilaterais
Salomé Fernandes
É a primeira Embaixadora de São Tomé e Príncipe na China depois dos dois países terem restabelecido relações diplomáticas a 26 de Dezembro de 2016. A vinda a Macau, indicou Isabel Maya da Graça Domingos, “traz-nos primeiro a boa notícia do relacionamento que existe entre São Tomé e Príncipe e a República Popular da China, onde os resultados desse relacionamento são bastantes visíveis”. A diplomata, que veio ao território para participar nas actividades da Feira Internacional de Macau (MIF) e da Semana Cultural da China e dos Países de Língua Portuguesa, acredita que a representação no Fórum Macau tem sido frutífera.
Por outro lado, explicou que a sua presença permite “conversar sobre as atribuições do Fórum, as possibilidades de estreitamento de relacionamento, num período bastante especial para a China, que comemora agora 40 anos de reforma do país”, cujos resultados têm sido “bastante notórios”.
Considerando que a iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota” permite melhorar a interacção entre países e “conviver num sistema de ganhos partilhados onde os interesses de cada um são salvaguardados e se promove no fundo o potencial, se procura o melhor de cada um dos países de acordo com as suas realidades e as suas necessidades”, a Embaixadora felicitou ainda o Fórum Macau pelo seu papel de plataforma entre a China e os países lusófonos. O resultado da participação de São Tomé e Príncipe no organismo, referiu, é visível pelo facto do número de bolsas ter aumentado de cinco para sete, bem como pela “visita de empresários macaenses, fazendo uma prospecção daquilo que pode ser uma possibilidade de investimento”. Isto, além de trocas de experiência entre técnicos dos dois países.
Relativamente às actividades futuras, um dos enfoques é a vertente cultural. “Pretendemos retirar esse relacionamento apenas do institucional e colocá-lo ao nível dos cidadãos, para que haja essa partilha e interacção e facilitando melhor conhecimento dos dois povos. Logo, uma forma de o fazer é através da parte cultural, conhecendo os hábitos e as tradições, pelo que será um factor bastante explorado por São Tomé e Príncipe”, comentou à TRIBUNA DE MACAU.
Frisando repetidamente que o seu país é atractivo devido a factores como a história, segurança, amabilidade do povo, clima e exuberância da natureza, garantiu que a manutenção dessas características singulares, e a sua exploração de forma sustentável, será tida em conta. “Há e deverá haver sempre uma preocupação nossa com a sustentabilidade”, disse Isabel Domingos.
Se por um lado acredita que em Macau já se conhece São Tomé e Príncipe, por outro mostra-se comprometida com a promoção do seu país. “Não pretendemos de maneira nenhuma ficar no anonimato”, notou a diplomata que nesta visita não se encontrou com o Secretário para a Economia e Finanças, mas reuniu com um representante do Executivo, a quem agradeceu o “acompanhamento, carinho e amizade”, que diz ter sentido antes mesmo de ainda haver representação institucional.
O retomar de relações diplomáticas
Apesar de ter sido nomeada em Março para o cargo de embaixadora, Isabel Domingos só recentemente assumiu funções. No entanto, põe de parte quaisquer atrasos na acreditação. “Agradeço às autoridades chinesas que tudo fizeram e têm feito para que São Tomé e Príncipe pudesse abrir a sua embaixada e rapidamente ter as suas condições para funcionamento”.
O reatar de relações deu-se apenas depois de São Tomé e Príncipe deixar de reconhecer a soberania de Taiwan e passar a considerar que a ilha se encontra sobre administração da República Popular da China. Questionada sobre os motivos desta mudança, a embaixadora indicou que “o mundo não é estático”. “O que para nós hoje constitui uma realidade e uma possibilidade, daqui a algum tempo o cenário muda. Logo São Tomé e Príncipe precisa e continuará a precisar de pensar no seu bem-estar. (…) Logo, precisa no quadro de parcerias, de identificar aquele que mais ‘parceiramente’ o consegue levar aos seus objectivos”, justificou.
Objectivos esses que passam por melhorar o dia-a-dia dos cidadãos, a economia, atractividade do país, nível de prestação de serviços tendo em conta a sua localização geoestratégica, bem como o nível de formação da população. Definidas as prioridades, havia que seguir com as reformas necessárias para o efeito.
No entanto, Isabel Domingos considera que as relações com Taiwan permaneceram “bem”, referindo estarem em causa 200.000 pessoas que esperam melhor da governação, sendo uma necessidade a abertura a “350 milhões de pessoas ávidas para diferentes tipos de consumo”. “Quem fica estagnado no momento perde-se. E São Tomé e Príncipe jamais ficará estagnado, tem de acompanhar a própria dinâmica do mundo senão vai ficar excluído. Não é esse o nosso propósito”, acrescentou.
Infra-estruturas para o desenvolvimento
Uma ideia repetida pelos governantes de São Tomé e Príncipe prende-se com a procura de investimento sino-africano não tradicional, que venha a dar retorno. Por um lado, os desafios de uma população muito jovem prendem-se com a educação. Os alunos têm ainda de percorrer distâncias consideráveis para terem acesso ao ensino, nomeadamente o pré-escolar. “Na universalização do ensino e da escolarização tem havido também um esforço de aproximar as instituições escolares aos cidadãos, reduzindo o obstáculo de acesso”, frisou.
Por outro lado, no caso dos alunos que prosseguem para o ensino superior, não há capacidade de absorção no mercado, pelo que está a haver incentivos ao empreendedorismo jovem. A atracção de investimento estrangeiro poderá também ser uma forma de gerar postos de trabalho.
Para impulsionar a economia, o alargamento da pista e modernização do aeroporto é um dos pontos centrais, a par da construção de um porto, que permitiriam ao país servir de plataforma de prestação de serviços. “Estamos numa localização geoestratégica que nos permite fazer ligações com outros países da região num curto espaço de tempo, logo grandes navios poderão fazer o transbordo em São Tomé e Príncipe e a partir daqui fazer-se ligações com diferentes países”, expôs Isabel Domingos.
Do ponto de vista marítimo, um porto de pesca que permitisse a captura, depósito, tratamento e comercialização do peixe, do qual destaca o atum, permitiria também a diversificação económica, já que neste momento o país se encontra muito dependente de ajuda externa. Esta infra-estrutura potenciaria também a capacidade de fiscalização face aos acordos internacionais de pesca. “Claro que havendo grandes navios a arrastar o nosso pescado isso exige dos nossos pescadores artesanais deslocarem-se cada vez mais longe para conseguirem ter acesso ao peixe. E isso ressente-se, logo posso garantir que existe uma grande preocupação do Estado com este assunto, e logo que possível irá ser melhorado, acompanhando melhor a execução desses acordos de pesca”, garantiu.
Para viabilizar este último projecto, é necessária uma parceria que possa assegurar uma percentagem, indicando a embaixadora que “a China é um grande potencializador desta construção”.



