O Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Macau considerou errada a forma como a Irmandade foi apontada num estudo como uma das instituições que mais beneficiou dos donativos das seis operadoras de jogo. A Santa Casa “não depende nem nunca dependeu dos apoios” das concessionárias, frisou António José de Freitas à TRIBUNA DE MACAU, explicando que a instituição recebeu menos de 1% dos 1,6 mil milhões doados entre 2011 e 2017. Além disso, o único apoio financeiro regular das operadoras à Santa Casa destina-se apenas à Loja Social, que em seis anos recebeu pouco mais de 10 milhões das concessionárias

 

Catarina Almeida

 

A Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCMM) “funciona com os seus próprios meios”, “não depende nem numa dependeu dos apoios das operadoras de jogo” e, aliás, “o único patrocínio que recebe das concessionárias começou em 2013”, ano de lançamento da Loja Social.

A garantia é dada pelo Provedor da SCMM, António José de Freitas, em reacção a um estudo divulgado na terça-feira pelo Instituto de Investigação Social e Cultural da Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau, segundo o qual as seis concessionárias de jogo doaram 1,557 mil milhões de patacas, entre 2011 e 2017, a várias instituições de caridade, entre as quais figura a Santa Casa, como uma das mais beneficiadas.

Todavia, para António José de Freitas, as informações veiculadas pelos autores do estudo não são claras. “Não tenho nada contra o estudo, antes pelo contrário, até apoio certas medidas que foram veiculadas. Só na parte respeitante à Santa Casa, cujo nome foi invocado, senti a necessidade, como Provedor, de fazer este esclarecimento porque não quero deixar uma imagem da Santa Casa – instituição de prestígio, histórica e secular – de que funcionamos dependendo dos apoios das operadoras”, sublinhou à TRIBUNA DE MACAU.

Através do projecto da Loja Social, as operadoras contribuíram com um total de 10 milhões e 200 mil patacas entre 2013 e este ano. Foi, de facto, a SCMM que “tomou a iniciativa [de pedir o apoio às operadoras para o projecto] mas é bom perceber que a Loja Social é anual e, enquanto tiver condições, vai continuar porque há motivos para isso e porque a população fragilizada precisa”, explicou. Além disso, “como a Loja Social funciona o ano todo e são só seis operadoras de jogo, isso quer dizer que também há outras empresas, como o Banco da China, BNU e outros beneméritos que apoiam, de forma sistemática e ininterrupta o funcionamento da Loja Social”, recordou António José de Freitas.

“A Santa Casa sempre desenvolveu as suas actividades sociais através dos seus próprios meios, rendimentos provenientes das receitas do seu imobiliário e os fundos de depósitos que temos, além do subsídio anual que a Irmandade recebe para funcionar as valências dos equipamentos sociais como o lar, creche e o Centro de Reabilitação de Cegos”, notou.

De acordo com o estudo em causa, a Associação Beneficência Tung Sin Tong, a Santa Casa, e o Fundo de Beneficência dos Leitores do Jornal “Ou Mun” foram as entidades mais apoiadas pelas operadoras.

Todavia, vincou o Provedor, o valor recebido pela Irmandade representa menos de 1% dos quase 1,6 mil milhões que as concessionárias desembolsaram entre 2011 e 2017. “Não quero que fiquem com a imagem de que a SCMM é dependente das concessionárias. Porque o dinheiro total foi muito e a SCMM recebeu, em termos contabilísticos, 0,89%. É só fazer as contas”, destacou.

Pelo conseguinte, as contribuições das operadoras na contabilidade da SCMM enquadram-se na Loja Social (cujo montante mensal estipulado é igual tanto para operadoras como outras instituições-parceiras), e noutros casos excepcionais como foram as obras de remodelação a instalações da Santa Casa pós-Hato. “As operadoras ofereceram-se, excepcionalmente, para ajudar. É melhor do que estar à espera do Governo porque, como se sabe, por causa dos trâmites legais, os pedidos são mais morosos”, explicou.

Ainda assim, o Provedor deixa um reparo no sentido de que não foi apenas a SCMM a ser beneficiada para reparar danos do tufão de Agosto de 2017.

Apesar de discordar da forma como foram anunciados os apoios concedidos pelas operadoras à Santa Casa, o Provedor António José de Freitas considera que – à semelhança do defendido pelo director do Instituto – “até deviam dar mais [apoios] para projectos sociais”. “Há muita pobreza escondida e essas pessoas precisam, não por falta de emprego, mas porque o que ganham não é suficiente. Não têm condições para recorrer a outros benefícios do Governo porque não se encaixam em determinados parâmetros desses pedidos”, disse.

De um modo geral, “não temos nada contra as operadoras, antes pelo contrário. Até sentimos algum orgulho e privilégio pelo facto da Santa Casa ter sido uma das instituições mais apoiadas só que, em termos de valor, não é correcto”. Agora, “dada a dimensão dos donativos concedidos ao longo dos seis anos, de quase 1,6 mil milhões, a Santa Casa recebeu pouco mais de 10,2 milhões para a Loja Social ao longo de seis anos”, insistiu.