O Congresso das Misericórdias portuguesas, que terá lugar na primeira semana de Junho na cidade de Braga, vai contar com a presença da Santa Casa da Misericórdia de Macau. O evento terá como mote “A actualidade de uma evolução segura” e deverá contar com cerca de um milhar de representantes das mais de 300 Misericórdias existentes em Portugal, assim como de instituições implantadas no estrangeiro, entre as quais o Brasil e outros países de expressão lusa. Para o Provedor, António José de Freitas, a presença da RAEM é importante, “porque quando se fala de solidariedade não há distância geográfica”
VÍTOR REBELO
Pela primeira vez, a Santa Casa da Misericórdia de Macau (SCMM) vai a Portugal participar no Congresso das instituições homólogas portuguesas, que decorrerá no centro de convenções Fórum Braga, entre 4 e 7 de Junho, apresentando uma série de actividades.
O provedor, António José de Freitas, e a secretária-geral, Gisela Nunes, serão os representantes da SCMM, que recebeu um convite especial da organização, embora não integre a União das Misericórdias Portuguesas. O evento deverá contar com a presença de cerca de um milhar de convidados, alguns dos quais oriundos do estrangeiro, como Itália, França e Espanha, para além dos países de expressão portuguesa.
Antes da partida, o provedor disse ao Jornal TRIBUNA DE MACAU que a presença de Macau é importante, “porque quando se fala de solidariedade não há distância geográfica”.
O congresso “vai ser um espaço onde vamos reafirmar que a união faz a força”, referiu. As misericórdias “sobrevivem ao tempo e a todas as guerras e vicissitudes”, acentuou, constatando que as instituições deste género “sofreram períodos de grande decadência, mas continuam a existir”.
Para António José de Freitas, “o que está a acontecer agora pelo mundo, infelizmente, só vem reforçar o nosso sentido de entreajuda e amor ao próximo”. Deu o exemplo da Ucrânia onde foi activada uma misericórdia que está a trabalhar para os mais vulneráveis.
A distância geográfica que separa Macau de Portugal e de outras instituições com o mesmo objectivo de solidariedade social, deixa de existir “perante os valores, a missão e o espírito de misericórdia que nos une”, sublinha, adiantando que será essa a tónica do discurso que irá proferir na cerimónia de encerramento do congresso, agendada para 7 de Junho.
Para além disso, no dia anterior, António José de Freitas é um dos convidados para o painel “Misericórdias no Mundo”, no qual divulgará o papel desempenhado ao longo dos anos pela instituição do território. Relembra, a propósito, que de todas as presenças históricas das misericórdias que existiram outrora no continente asiático, entre as quais Goa, Cochim, Damão, Diu, Ceilão, Indonésia, Manila, Formosa e Japão, apenas uma permanece viva, activa e em pleno funcionamento há mais de quatro séculos e meio: a Misericórdia de Macau.
“É neste legado de séculos que percebemos a verdadeira dimensão da nossa obra”, frisa o responsável da SCMM, fundada, em 1569, por D. Belchior Carneiro, primeiro bispo de Macau. As vertentes para a qual está vocacionada a instituição farão parte da intervenção do provedor no painel, nomeadamente o lar, o centro de reabilitação de cegos, as creches e a loja social.
O provedor falará igualmente dos “desafios complexos” que ninguém é capaz de resolver isoladamente”. Em concreto, “o envelhecimento acelerado das populações, a escassez de cuidadores, os elevados custos sociais, as pressões migratórias, o isolamento social, e a necessidade de garantir sustentabilidade financeira sem perder identidade nem independência”.
António José de Freitas, que é actualmente vice-presidente da Confederação das Misericórdias da Ásia (só existe a de Macau), considera que a resposta está “na cooperação, na partilha e na criação de uma verdadeira rede global de Misericórdias”.
O congresso integrará várias sessões de debate, entre as quais se podem destacar “O mundo em mudança: qualificação, digitalização e formação”, “Envelhecimento e felicidade” e “As Misericórdias na Saúde: um plano estratégico para cuidar das pessoas”, agendadas para o segundo dia, 5 de Junho, que inclui ainda o desfile das Irmandades, ao final da tarde, e uma missa na Sé Catedral de Braga, a celebrar pelo primaz da paróquia local, D. José Cordeiro.
Na manhã do derradeiro dia, domingo, haverá uma visita matinal ao Palácio do Raio da Misericórdia de Braga. A cerimónia de encerramento e leitura de conclusões, será à tarde, seguindo-se o jantar oficial no MIT Penha, em Guimarães.
O evento deste ano assinalará o 50º aniversário da União das Misericórdias Portuguesas, criada em 1976. Nessa altura, Macau integrava a lista de membros do órgão, tendo deixado de fazer parte em virtude da transferência de soberania para a República Popular da China.
O actual presidente da União é Manuel de Lemos, que, na mensagem de divulgação do congresso, referiu que a iniciativa “ganha um relevo histórico ao projectar também a celebração dos 50 anos, num percurso de cinco décadas marcado pela maturidade, pela coesão e por uma capacidade de adaptação que nos define como a âncora da solidariedade em Portugal”.
Para que esta “evolução segura” se concretize “com a qualidade e o humanismo que são a nossa marca distintiva, a participação de todos é vital”, nota, considerando que “todos são importantes nesta caminhada”. E por isso, reforça, “os nossos irmãos de outras geografias também estarão connosco em Braga, o que dará um carácter internacional a este congresso das Misericórdias, onde reafirmaremos que a união faz a força e que essa força reside na dedicação incansável de cada elemento que compõe o nosso movimento”.



