Jung Chang
Jung Chang

O Festival Literário de Macau, que decorre entre 10 e 25 de Março, vai juntar diversos profissionais para discutir não apenas literatura como outras formas de expressão artísticas. Um dos nomes novos é Marco Lobo, descendente de macaenses e que a organização espera que “restabeleça algum tipo de ligação” com o território

 

Salomé Fernandes

 

A lista de autores que vai marcar presença no Festival Literário de Macau – Rota das Letras continua a crescer. “Este ano estamos no caminho de maior internacionalização, que é o nosso objectivo desde o início. Temos convidados de muitos países, possivelmente o maior número de sempre”, disse ontem Ricardo Pinto, director do evento.

Marco Lobo

A sétima edição do festival terá um orçamento “praticamente inalterado” em relação às anteriores, garantiu o director. Serão três milhões de patacas, dois dos quais oriundos de patrocínios públicos, e o restante de entidades privadas ou de contribuição própria da organização.

Jung Chang, nascida na província de Sichuan em 1952, prestigiada autora contemporânea, é um dos nomes entre os 60 escritores, tradutores, músicos, realizadores, performers e artistas plásticos que virão ao território. As suas obras estão traduzidas em mais de 40 idiomas, tendo vendido mais de 15 milhões de exemplares e conquistado prémios como o “Book of the Year UK”. “Cisnes Selvagens – Três Filhas da China”, publicado em 1991, foi considerado pelo “Asian Wall Street Journal” o livro mais lido sobre a China e “Mao: A História Desconhecida”, foi descrito pela revista Time como “uma bomba atómica”.

Outro dos destaques do Festival Literário é Li-Young Lee, poeta americano nascido em Jacarta e autor premiado de várias colectâneas de poesia e da autobiografia “The Winged Seed: A Remembrance”. Filho de pais chineses, foi forçado a sair da Indonésia com a família para escapar à xenofobia contra os chineses. Depois de um périplo de cinco anos, passando por Hong Kong, Macau e Japão, fixaram-se nos Estados Unidos em 1964.

Na conexão com as comunidades de países do sudeste asiático que vivem em Macau, foi sublinhada a vinda do professor universitário filipino Miguel Syjuco, cujo romance de estreia, “Ilustrado”, venceu o “Man Asian Literary Prize”.

Dos países lusófonos, vão marcar presença nomes como Rui Cardoso Martins, escritor e argumentista com quatro romances publicados. Isabel Lucas, jornalista e autora de “Viagem ao Sonho Americano”, também vem a Macau, bem como Kalaf Epanga, Dina Salústio ou Albertino Bragança. Nomes locais vão abranger Jenny Lao-Philips, Paul Pang, Fernando Sales Lopes, Rui Rocha e Isolda Brasil.

Li-Young Lee

Para além da escrita, a música também vai marcar presença no festival. Dia 10 de Março, pelas 21 horas, sobe ao palco do “Pacha Macau” Bloom, músico português que tem como novo pseudónimo JP Simões. Num estilo diferente, o canto de folk e poeta natural de Shenyang, Zhou Yunpeng, actua no Teatro D. Pedro V a 18 de Março pelas 20 horas. O músico, que ficou cego aos nove anos, foi responsável pela banda sonora do filme “At the Dock”.

Relativamente às artes plásticas e visuais, o Festival Literário volta a apresentar uma série de exposições de artistas e arquitectos locais, para além da exibição de cinco filmes, na Cinemateca Paixão e no Consulado-Geral de Portugal em Macau.

 

Re-conexão com raízes macaenses

Um dos novos nomes anunciados é Marco Lobo, escritor residente em Tóquio mas descendente de família macaense. Desde cedo exposto a problemáticas interculturais, com uma educação que se iniciou em Macau e Hong Kong, e se estendeu pela Ásia, Europa e pelas Américas. “Esta experiência permitiu-lhe observar de perto as diversas sociedades em que a cultura portuguesa se difundiu, prosperou e deixou marcas”, comunicou a organização do festival.

Rui Cardoso Martins

“Mesquita’s Reflections”, um dos seus romances históricos, explora conflitos culturais que envolvem raça e religião, tendo Ricardo Pinto anunciado que vai ser traduzido para português e chinês – tanto simplificado como tradicional – e que o lançamento será feito durante o evento. Questionado sobre a possibilidade da obra vir a ser lançada em Portugal, o director do festival garantiu que isso vai suceder, e que tenciona fazê-lo na Feira do Livro de Lisboa, mostrando ainda vontade de haver um terceiro lançamento na China Continental.

A presença de Marco Lobo é importante “não apenas pelo que a sua família representa para Macau, mas também por esta ideia que temos desde o início no festival, de tentar trazer a Macau pessoas que tenham já escrito sobre o território, ou que o venham a fazer, ou então pessoas que já tiveram uma conexão com Macau em anos anteriores e as quais tentamos encorajar a depois e anos de ausência regressarem e restabelecer algum tipo de ligação”.

 

Concurso de contos bate recorde

“Este ano recebeu muitas entradas, foi provavelmente o maior número desde que a competição começou em 2012”, disse o director de programação, Hélder Beja. O concurso de contos premeia um vencedor por cada um dos três idiomas aceites: português, chinês e inglês.

“Os contos vieram de um grande números de locais, a começar sendo a maioria delas em língua portuguesa, de Macau, Portugal, e do Brasil. É curioso, mas algo que tem vindo a acontecer ao longo dos anos. A maioria das histórias chinesas são de escritores locais, embora também haja participantes da China e de Hong Kong. As que estão em inglês inclui um pouco das duas situações. Há residentes de Macau, mas também da Austrália, EUA e Reino Unido”, especificou Hélder Beja.