Com a chegada ao fim da sétima edição do Festival Literário de Macau, algo atribulada com o cancelamento da vinda de três autores, o futuro do “Rota das Letras” é incerto. Ricardo Pinto diz que decorrerão conversas com as entidades que têm apoiado o evento, públicas e privadas, para perceber se é possível evitar incidentes do género e se a autonomia e liberdade de expressão serão “plenamente respeitadas”
Inês Almeida
Ainda “é cedo” para garantir que em 2019 decorrerá a 8ª edição do “Rota das Letras”, indicou Ricardo Pinto no último dia do Festival Literário. “Obviamente isso terá de passar por discussões com as várias entidades que nos têm apoiado e, nomeadamente, a Administração de Macau para tentar perceber se é possível fazer o festival sem que este tipo de incidentes ocorram e em que a autonomia do festival e a liberdade de expressão sejam plenamente respeitadas”, destacou em declarações à TRIBUNA DE MACAU. “Havendo condições para se fazer o festival como tem sido feito até agora, haverá condições para o festival continuar, mas isso, obviamente, ultrapassa-nos”.
O director do Festival admitiu que chegou a colocar-se a hipótese “de mesmo esta edição não se realizar porque, eventualmente, poderia não haver condições” para tal. Referindo-se à decisão que foi “imposta” à organização de cancelar a vinda de James Church, Jung Chang e Suki Kim, Ricardo Pinto recordou que manifestaram discordância. “Nenhum destes autores se pode procurar colocar qualquer tipo de rótulo de serem escritores malditos, proscritos, seja o que for. São autores que têm entrada nos festivais literários de toda a região, inclusive de Hong Kong e, portanto, tudo quanto se passou, foi absolutamente inesperado, indesejável e incompreensível”, lamentou o director.
“Obviamente”, o Festival não se faz sem apoios, por isso, dizer que ele decorrerá de qualquer forma “é irrealista”, sublinha Ricardo Pinto. “Vamos ver qual é o sentimento das pessoas relativamente ao que se passou e às consequências para o futuro. Isso é um trabalho que está por fazer”.
Para o director “faz sentido continuar a apostar” num festival “com autonomia, respeito por diferentes geografias, formas de expressão, ideologias políticas, maneiras de pensar sobre questões mais ou menos fracturantes, como questões sociais, de género e de identidade”. Se tal for possível, “no futuro haverá festival”.
Ainda não há um calendário para as conversas com o Governo e outras instituições públicas e privadas que dão apoio financeiro ao “Rota das Letras”.
Questionado sobre quem será o director da programação do festival numa eventual próxima edição com a saída de Hélder Beja, Ricardo Pinto destacou que “havendo condições para o festival continuar, se o Hélder [Beja] quiser reconsiderar, é óbvio que essa mudança de posição será muito bem-vinda”.
Além disso, o director do Festival Literário diz que as pessoas que têm vindo a acompanhar o “Rota das Letras” enquanto espectadores “pedem para que o festival continue e é muito difícil deixar de os ouvir”. “Também é a nossa vontade desde o princípio. Respeitamos muito esse apelo que nos é feito mas, obviamente, o festival não continuará sem que certas condições sejam respeitadas”.
Apesar dos “problemas iniciais”, Ricardo Pinto faz um balanço positivo desta edição do festival. “Tivemos sessões muito participadas, apesar da ausência dos quatro escritores. Tivemos convidados de muita qualidade, não apenas grandes escritores como grandes comunicadores”, destacou o director. Além das sessões sobre questões de género e identidade, Ricardo Pinto destaca as conversas sobre tradução e interpretação literária, “uma questão central do próprio festival”.
No geral, “tivemos um festival de grande qualidade”, disse. “Em termos de público, julgo que se ressentiu um pouco das ausências forçadas. Alguns dos autores que era suposto estarem em Macau estavam programados para os últimos dias, eles eram todos autores de língua inglesa, portanto, a esse nível, a faceta mais internacional do festival ressentiu-se um pouco”, admitiu Ricardo Pinto.



